Quarenta anos atrás, um jovem e brilhante economista da Universidade de
Yale chamado William Nordhaus publicou um renomado artigo, "The
Allocation of Energy Resources", que expandiu fronteiras na análise
econômica. Nordhaus argumentou que era necessário pensar claramente
sobre a economia de recursos esgotáveis como petróleo e carvão, para
olhar para o futuro e avaliar seu valor à medida que vão ficando mais
escassos.
Esse olhar necessariamente envolveria considerar, não apenas recursos
disponíveis e crescimento econômico futuro, mas também prováveis futuras
tecnologias. Além disso, Nordhaus desenvolveu um método incorporando
todas essas informações – estimativa de recursos, previsões econômicas
de longo prazo e as melhores previsões de engenheiros sobre custos de
futuras tecnologias – em um modelo quantitativo de preços energéticos em
um longo período.
Os recursos e informações de engenheiros para o artigo de Nordhaus
foram, na maioria, organizados e reunidos por seu assistente, um aluno
de graduação de 20 anos que permaneceu longas horas fechado na
Biblioteca de Geologia de Yale, debruçado no “Bureau of Mines” e afins.
Era uma aprendizagem de valor inestimável.
Minhas razões para ter buscado este trecho de história intelectual, no
entanto, vão muito além da revelação pessoal – embora os leitores desta
resenha devam saber que Bill Nordhaus foi meu primeiro mentor
profissional. Pois se alguém se debruçar sobre "The Allocation of Energy
Resources", aprenderá duas lições cruciais. Primeiro, que é difícil
fazer previsões, especialmente sobre o futuro distante. Segundo, que, às
vezes, as previsões devem ser feitas mesmo assim.
Voltando a “Allocation”, depois de quatro décadas, o que salta aos olhos
é o quão errado estavam os especialistas a respeito das futuras
tecnologias. Por anos, seus erros pareciam estar em um superotimismo,
especialmente sobre a produção de petróleo e de energia nuclear. Mais
recentemente, as surpresas apresentaram-se do lado oposto.
Extração por fracking
A extração de petróleo por meio de fracking tem maior impacto imediato
nos mercados, mas a novidade fundamental é a competitividade crescente
das energias solar e eólica – nenhuma das quais apareceu na obra
“Allocation”. Os preços atuais do petróleo, ajustados pela inflação, são
praticamente o dobro do que Nordhaus havia previsto, enquanto o preço
do carvão e especialmente o do gás natural estão bem abaixo de suas
bases de cálculo.
De modo que o futuro é incerto, uma realidade reconhecida no título do
novo livro de Nordhaus: "The Climate Casino: Risk, Uncertainty, e
Economics for a Warming World" (“O Cassino Climático: Risco, Incerteza e
Economia para um Mundo em Aquecimento”, sem edição em português). Ainda
assim, as decisões devem ser feitas levando em consideração o futuro – e
às vezes o futuro de longo prazo. Isso é verdade quando se trata de
recursos esgotáveis, em que cada barril de petróleo queimado hoje é um
barril não disponível para as próximas gerações.
É ainda mais verdadeiro para o aquecimento global, em que cada tonelada
de dióxido de carbono emitida hoje permanecerá na atmosfera, alterando o
clima do planeta, para as gerações vindouras. E, como enfatiza Nordhaus
– talvez não tanto quanto alguns gostariam –, quando falamos em
mudanças climáticas a incerteza leva ao aumento, e não ao
enfraquecimento da necessidade de ação imediata.
No entanto, embora a incerteza não possa ser banida da questão do
aquecimento global, podemos e devemos fazer as melhores previsões
possíveis. Acompanhando seu estudo sobre as energias futuras, Nordhaus
tornou-se pioneiro no desenvolvimento de “modelos de avaliação
integrada”, que tentam reunir o que conhecemos sobre dois sistemas – a
economia e o clima –, mapeando a interação entre eles na tentativa de
analisar a relação custo-benefício de políticas alternativas. Por um
lado, The Climate Casino é um esforço para popularizar os resultados dos
IAMs e de suas implicações. Mas é também, claro, um convite à ação. Vou
perguntar adiante, nesta resenha, se esse convite tem alguma chance de
sucesso.
Futuras gerações
Trata-se, é bom lembrar, de uma posição característica de Nordhaus: na
comunidade de pessoas razoáveis, que aceitam a realidade do aquecimento
global e a necessidade de fazer algo a respeito, ele tem assumido o
papel de desmistificador, criticando afirmações muito fortes, que não
acredita serem justificáveis por teorias ou evidências. Ele levantou
bandeiras de relativo otimismo sobre nossa capacidade de adaptação ao
aquecimento global moderado.
Criticou duramente o estudo de Nicholas Stern, amplamente divulgado,
sobre a economia das mudanças climáticas, argumentando que não
deveríamos pensar nos custos impostos às futuras gerações devido ao
consumo de combustíveis fósseis nas gerações atuais (3). E assumiu uma
postura cética em relação aos argumentos de Martin Weitzman, de Harvard,
de ampla circulação, de que o risco de efeitos climáticos catastróficos
justifica ações muito rápidas e agressivas para limitar emissões de
gases do efeito estufa (4).
Como eu dizia, a participação de Nordhaus nessas controvérsias frustrou
alguns ativistas do clima, até porque adversários de todo e qualquer
tipo de ação contra as mudanças climáticas usaram seus trabalhos para
apoiar a posição deles. Dito isto, é importante notar que The Climate
Casino não é, de modo algum, o trabalho de alguém cético sobre a
realidade do aquecimento global e a necessidade de agir imediatamente.
Ele meio que ridiculariza afirmativas de que as mudanças climáticas não
estão acontecendo ou não são resultado da atividade humana. E conclama à
ação agressiva: sua melhor estimativa sobre o que deveríamos estar
fazendo envolve impor um imposto substancial e imediato sobre a emissão
de carbono, de tal forma a aumentar bruscamente o preço atual do carvão,
e elevá-la gradualmente até mais que o dobro em 2030. Talvez alguns até
considerem essa política inadequada, mas é muito mais do que existe
atualmente na agenda política. Portanto, na prática, Nordhaus e os
ativistas climáticos mais agressivos estão do mesmo lado. (...)
Efeito estufa
Então, o que ele diz neste livro? Primeiro, ele revisa a ciência
climática básica. Ao queimar quantidades colossais de combustíveis
fósseis, aumentamos enormemente a concentração de dióxido de carbono na
atmosfera – e certamente a elevaremos muito mais nas próximas décadas. O
problema é que o CO2 é um gás de efeito estufa (assim como muitos
outros gases também liberados em consequência da industrialização): ele
retém calor, elevando a temperatura do planeta.
De que nível de elevação estamos falando? Nordhaus segue o consenso
científico do último relatório do Painel Intergovernamental da Mudança
Climática (IPCC), que coloca o provável aumento entre 1,8 e 4 graus
centígrados em 2100. Na verdade, Nordhaus aponta para o máximo deste
intervalo, com a elevação da temperatura em até aproximadamente 6ºC em
2200. Ele observa também a possibilidade de haver surpresas
desagradáveis. Por exemplo, se o aquecimento levar à liberação de
quantidades substanciais de metano – um poderoso gás de efeito estufa –
provenientes do descongelamento da tundra.
O aquecimento, por sua vez, tem várias consequências para além da
simples elevação das temperaturas. O nível dos mares vai aumentar, tanto
pela própria expansão da água quanto pelo derretimento do gelo. Aqui,
também há a possibilidade de haver surpresas desagradáveis – por
exemplo, o derretimento da camada de gelo da Groenlândia, que, por sua
vez, causaria mais derretimento. Furacões ficarão mais intensos, pois
são “alimentados” por águas mornas. Climas locais podem mudar
drasticamente, com áreas úmidas tornando-se ainda mais úmidas ou
tornando-se secas.
Há também uma importante consequência do aumento dos níveis de CO2, que
não está diretamente relacionada ao aquecimento: os oceanos tornam-se
mais ácidos, com efeitos adversos na vida marítima. Efeitos devastadores
em recifes de coral já são provavelmente inevitáveis.
Elevação dos oceanos
Quanto prejuízo isso provocará? Nordhaus desenha um contraste entre o
que ele chama de "sistemas gerenciados" – como a agricultura e a saúde
pública, atividades humanas basicamente afetadas pelo clima – e
"sistemas não gerenciáveis", tais como nível dos mares, acidificação dos
oceanos e desaparecimento de espécies. Comparado a alguns autores,
Nordhaus é relativamente otimista sobre o impacto da elevação das
temperaturas nos sistemas gerenciados.
Na verdade, ele resume estudos que sugerem um provável pequeno aumento
das colheitas agrícolas graças a um ou dois graus de aquecimento, e
declara: “É impressionante como este resumo das evidências científicas
contrasta com a retórica popular.” Ele também vê os impactos na saúde
como modestos, ao menos com o aquecimento provável neste século, com
avaliação “similar à da agricultura”.
Os maiores custos, argumenta Nordhaus, vêm dos sistemas não
gerenciáveis: elevação dos oceanos, furacões mais intensos, perda na
diversidade de espécies, oceanos cada vez mais ácidos. O problema é como
colocar um número nesses custos – o que ele precisa fazer, pois, como
já apontei, seu objetivo é fazer uma análise da relação custo-benefício.
No fim, e apesar da desmistificação, Nordhaus conclui que haverá custos
crescentes conforme a elevação da temperatura vá além dos 2°C – e um
aumento de no mínimo tal grandeza parece, a esta altura, quase
impossível de evitar. Quando se leva em conta o risco de aumentos
surpreendentes na temperatura, surge um impulso incontrolável de agir
para limitar a mudança climática. O problema, então, é qual o tamanho da
ação e que forma ela deveria tomar.
Existe uma facção no debate sobre o clima que reconhece a realidade do
aquecimento global e seus custos, mas rejeita a noção de tentar limitar a
emissão de gases causadores do efeito estufa – seja porque considera
seus custos muito caros, ou (suspeita-se) porque limitar os impactos
humanos no meio ambiente faz com que algumas pessoas imaginem que isso
seja coisa de “hippie”. Assim, essa facção clama por uma geoengenharia:
ao invés de limitar os impactos humanos, nós deveríamos compensá-los com
outros impactos na direção contrária.
Bombeamento de aerosóis
Muitos ambientalistas rejeitam a ideia da geoengenharia. Nordhaus não;
ele sugere que esquemas como o bombeamento de aerosóis refletivos na
alta atmosfera poderia livrar o aquecimento global dos gases de efeito
estufa a um preço relativamente barato. Mesmo assim, como ele aponta, a
geoengenharia não iria de fato reverter os efeitos dos gases, apenas
servir para desencadear outros efeitos e isso, apenas em níveis globais.
A acidificação do oceano, por exemplo, iria continuar; e mesmo se a
média da temperatura global pudesse ser estabilizada, poderiam ocorrer
enormes variações em climas e temperaturas locais.
No fim, Nordhaus faz uma bela análise de por que a geoengenharia deveria
ser estudada e, consequentemente, guardada como carta na manga, da
mesma maneira como médicos estudam e guardam em suas mentes tratamentos
perigosos mas poderosos, a serem utilizados apenas, e só apenas, quando
todo o resto falha. A primeira linha de defesa deveria ser um esforço
para limitar o aquecimento global limitando as emissões de gases. Como
isso pode ser feito?
No texto introdutório ao capítulo de Economia do livro, ele fala sobre o
conceito de “externalidades negativas” – custos que as pessoas impõem
aos outros através de ações, sem serem responsabilizadas por isso.
Poluição e congestionamento no trânsito são dois exemplos clássicos – e
emissão de gases é, em nível conceitual, apenas um tipo de poluição. É
verdade, existem aspectos incomuns nesses gases: o mal que eles causam é
global, não local; os prejuízos estendem-se para um futuro longínquo,
ao invés de se manifestarem esporadicamente, e existe o risco de essas
emissões causarem, além de prejuízos, uma catástrofe na civilização.
Contudo, apesar dos aspectos incomuns, muitas análises do livro deveriam
ser aplicadas. E o que Nordhaus diz é que a melhor maneira de controlar
a poluição é colocar um preço nas emissões, para que os indivíduos e
empresas tenham um incentivo financeiro para reduzi-los.
Preço para o carbono
Por que tributar o carbono é melhor do que regular diretamente as
emissões? Todo economista conhece os argumentos: medidas para reduzir
emissões podem acontecer em muitas “margens”, e nós deveríamos dar às
pessoas incentivo para explorar essas margens. Deveriam os próprios
consumidores tentar usar menos energia? Eles deveriam mudar seu consumo
para produtos que usam menos energia ao ser fabricados?
Deveríamos tentar produzir energia a partir de fontes com menores níveis
de emissão (gás natural) ou sem emissão alguma (eólica)? Deveríamos
tentar remover o dióxido de carbono (CO2) após o carbono ter sido
queimado, ou seja, por captura e sequestro em complexos de energia? A
resposta é: todas acima. E colocar um preço no carbono, na verdade, dá
às pessoas um incentivo para realizar todas elas.
Por outro lado, seria muito difícil estabelecer regras para conseguir
cumprir todas essas metas; na realidade, apenas conseguir comparar as
emissões para fazer uma simples escolha, seja dirigir um carro ou voar
até uma cidade distante, não é nada fácil. Por isso, estabelecer preços
para carbono é o caminho a ser seguido.
Gostei de The Climate Casino, e aprendi muito com ele. Mesmo assim,
enquanto o lia, não pude deixar de me perguntar para quem, exatamente, o
livro foi escrito. Ele adota um tratamento calmo e fundamentado,
ordenando o que há de melhor em evidências econômicas e científicas em
favor de uma abordagem pragmática da política. E este é o ponto: quase
todo mundo que responde a esse tipo de argumento já é favorável a uma
forte ação contra a mudança climática. O problema são os outros.
Claro que Nordhaus está ciente disso, mas creio que ele minimiza quão
ruim está o cenário. O ponto é: há poderes reais por trás da oposição a
qualquer tipo de ação climática – poderes que desvirtuam o debate, tanto
negando a ciência climática quanto exagerando os custos para reduzir a
poluição. E esse não é o tipo de poder que pode ser afastado com
argumentos tranquilos e racionais.
Perigo claro e presente
Por que alguns indivíduos poderosos e grandes organizações se opõem tão
fortemente à ação, diante de perigo tão claro e presente? Parte da
resposta é pura e simplesmente interesse próprio. Enfrentar o
aquecimento global envolveria eliminar o uso de carvão, exceto na medida
em que o CO2 puder ser recapturado após o consumo; envolveria redução
do consumo de combustíveis fósseis; e preços substancialmente mais altos
para a eletricidade. Para alguns tipos de negócio, isso significaria
bilhões de dólares perdidos, e para os donos desses negócios, subsidiar a
negação climática tem sido um investimento altamente lucrativo.
Para além disso tudo está a ideologia. “Os mercados sozinhos não
resolverão esse problema”, declara Nordhaus. “Não há ‘solução de livre
mercado’ genuína para o aquecimento global.” Isso não é uma afirmação
radical, é apenas economia básica. Contudo, é um anátema para os
entusiastas do livre mercado. Se você gosta de se imaginar como
personagem de um romance de Ayn Rand, e alguém diz a você que o mundo
não é daquele jeito, que ele necessita intervenção do governo – não
importa quão amigável ao mercado ele possa ser – sua resposta
provavelmente será rejeitar a informação e se apegar a suas fantasias.
E, é triste dizer, um bom número de pessoas influentes na vida pública
norte-americana acredita estar atuando no Atlas Shrugged.
Finalmente, há um forte traço no conservadorismo norte-americano moderno
que nega não só a ciência climática, mas também os métodos científicos
em geral. Uma enquete sugere, por exemplo, que a grande maioria dos
republicanos rejeita a teoria da evolução. Para pessoas com essa
mentalidade, permanecer alheio ao consenso científico sobre a questão
apenas sustenta e alimenta fantasias sobre conspirações malucas.
Daí minha preocupação com a utilidade de livros como The Climate Casino.
Dado o estado atual da política norte-americana, a combinação de
interesse próprio, ideologia e hostilidade à ciência constitui um enorme
obstáculo à ação, e a argumentação racional provavelmente não ajudará.
Enquanto isso, o tempo está se esgotando, à medida que a concentração de
carbono continua a subir.
Ao longo deste livro, o tom de Nordhaus é um pouco cínico, mas
basicamente calmo e otimista: o aquecimento global é, em última análise,
um problema que deveríamos ser capazes de resolver. Só gostaria de
poder compartilhar de sua aparente convicção de que essa possibilidade
vai se traduzir em realidade.
Ao contrário, continuo sendo assombrado por um dado que ele apresenta no
início do livro, ao mostrar que temos vivido em uma era de estabilidade
climática incomum – “os últimos 7.000 anos têm sido o período de clima
mais estável em mais de 100 mil anos”, afirma. Como pontua Nordhaus,
esta era de estabilidade coincide exatamente com a ascensão da
civilização, e isso provavelmente não é uma coincidência.
Agora, este período de estabilidade está terminando – e foi a
civilização que produziu isso, por meio da Revolução Industrial e da
queima maciça de carvão e outros combustíveis fósseis. A
industrialização, é claro, tornou-nos imensamente mais poderosos, e mais
flexíveis também, mais capazes de nos adaptar a circunstâncias em
transformação. A Revolução Científica que acompanhou a revolução na
indústria também nos deu muito mais conhecimento sobre o mundo,
inclusive a compreensão sobre o que estamos fazendo com o meio ambiente.
Mas parece que fizemos, sem saber, uma aposta tremendamente perigosa: a
de que seremos capazes de usar o poder e conhecimento que adquirimos nos
últimos séculos para enfrentar os riscos climáticos que desencadeamos
no mesmo período. Vamos ganhar a aposta? O tempo dirá. Infelizmente, se a
aposta não der certo, não teremos outra chance de jogar.