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11 de out. de 2014

Por um sínodo permanente

Fonte: domtotal.com

Nesse domingo, o papa Francisco abriu em Roma a 13a sessão do Sínodo dos bispos, com representantes do episcopado católico do mundo inteiro. Esse sínodo extraordinário está reunido para refletir e tomar decisões que atualizem a posição da Igreja Católica em relação a questões da família e da moral sexual. Na semana passada, cinco cardeais, membros da Cúria romana, publicaram um livro coletivo. Nesse livro, afirmam que, em matéria de moral e disciplina, a Igreja nada tem a mudar, porque a lei é lei e vem de Cristo. No mundo inteiro, muitos padres e bispos são da mesma posição dogmática e rígida. Ao contrário, o papa Francisco e boa parte do povo, católico e não católico, pensa de modo diferente. O papa cita o Evangelho no qual Jesus diz claramente: “A lei foi feita para o ser humano e não o ser humano para a lei” (Mc 2, 27). “Eu vim chamar os pecadores e não os justos (Mc 2,17). Eu quero a misericórdia e não o sacrifício” (Mt 9, 13).
De fato, há mais de 50 anos, quando o papa João XXIII convocou os bispos católicos do mundo inteiro para se reunirem no Concílio Vaticano II, explicava que uma coisa é a verdade da fé e outra a expressão que, em cada época, toma essa verdade. A palavra de Deus é eterna e não muda. No entanto, a formulação de sua palavra é humana, histórica e contextual. Precisa ser interpretada à luz do projeto divino para o mundo que é justiça, paz e amor inclusivo e nunca desamor, incompreensão ou condenação de nenhuma categoria humana. No século II da nossa era, Tertuliano, um pai da Igreja do norte da África, afirmava: “Para quem é cristão, nada do que é humano pode ser estranho”.

De fato, o Concílio Vaticano II renovou profundamente a forma como a Igreja Católica interpreta a revelação divina, a relação com as outras Igrejas cristãs e sua missão no mundo. Na época do Concílio, a Igreja podia contar com muitos bispos que se colocavam como pastores do seu povo e profetas do projeto divino no mundo. Hoje, a Igreja continua contando com bispos que são homens espirituais e bons pastores do seu povo. No entanto, para garantir a continuidade dessa missão, é preciso rever a natureza e o estilo da atual formação dos padres nos seminários. Muitos bispos se dizem de acordo com a proposta de renovação eclesial do papa, mas mandam os jovens serem formados por seminários que os formam em uma linha contrária a qualquer renovação.

O que está em jogo não é apenas um modelo de atuação e de presença no mundo. O mais importante é que imagem de Deus as pessoas que creem e os ministros apresentam. Como disse alguém: “Sem dúvida, Deus é bom, mas parece que se deixa rodear de pessoas que não amam”.

No século I de nossa era, Igreja era um termo político. Designava as assembleias de cidadãos das cidades gregas do Império Romano. Tinham funções semelhantes à nossa câmara de vereadores. Em suas cartas, Paulo se apoderou desse termo (Igreja) para as primeiras comunidades cristãs. Ele fez isso para afirmar que os grupos cristãos deveriam sempre ser comunidades nas quais se pratica permanentemente o diálogo, a unidade nas diferenças, como parábola do projeto divino de justiça e de paz no mundo. Essa vocação é expressa pelo termo grego “sínodo” (caminhar juntos). Há algumas décadas, quando surgiu a teologia da libertação e alguns bispos e padres conservadores afirmavam que a Igreja não é uma democracia, Dom Pedro Casaldáliga, então bispo de São Félix do Araguaia, respondia: “Absolutamente de acordo. A Igreja não pode ser apenas uma democracia. Ela tem de ser muito mais. Deve ser e se mostrar como comunhão”.

Infelizmente, durante séculos, as Igrejas cristãs adotaram modelos de organização vindos da cultura dominante na época. O papa se tornou chefe de Estado e era sempre visto como o pontífice reinante e os bispos, príncipes da Igreja. Desde que foi eleito no dia 13 de março de 2013, Francisco optou por se apresentar como bispo de Roma e tem sempre proposto uma Igreja descentralizada e em diálogo com a humanidade, diálogo que há mais de 50 anos, o papa João XXIII começou e depois dele, não teve mais continuidade. Agora, o papa Francisco o retoma e propõe uma Igreja voltada para o mundo e a serviço dos mais pobres. Uma Igreja sinodal que caminhe junto com a humanidade. Mesmo os ritos religiosos e a espiritualidade devem ser profundamente penetrados por essa mística do diálogo e da busca de comunhão. E a profecia e os sinais de contradição devem ser vividos em relação às estruturas injustas e excludentes da sociedade e não contra as pessoas. O atual sínodo dos bispos durará três semanas, mas o mais importante de tudo é que ele recoloque a Igreja em um processo de sínodo permanente e não somente de bispos  e sim de todas as pessoas que quiserem participar desse caminho. Como escreve o anjo do Apocalipse: “Quem tiver ouvidos, escute o que o Espírito diz hoje às Igrejas” (Ap 2, 5).

Marcelo Barros Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).

14 de abr. de 2014

CARTA DO PRIMEIRO ENCONTRO DA IGREJA CATÓLICA NA AMAZÔNIA LEGAL


"Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras!" (Lc 24,32)
segunda-feira, 14 de abril de 2014 Amazônia: Bispos publicam Carta do 1º Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal



 CARTA DO PRIMEIRO ENCONTRO DA IGREJA
 CATÓLICA NA AMAZÔNIA LEGAL
 

Irmãs e irmãos,

Reunidos no Primeiro Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal, em Manaus, entre os dias 28 e 31 de outubro de 2013, nós, bispos, presbíteros, religiosas e religiosos, agentes de pastoral leigas e leigos, queremos partilhar com vocês as reflexões e análises sobre a situação atual da nossa região e as respostas que, como pastores, pretendemos dar aos desafios de nossos tempos. Agradecemos a Deus pelas maravilhas que operou entre nós e nossos irmãos e irmãs que, por um compromisso profético, testemunharam sua fé, muitas vezes até as últimas consequências (cf. Jo 13,1), dispostos a "dar não somente o Evangelho, mas até a própria vida" (1 Tes 2,8). Ao nos prepararmos para celebrar os 400 anos do início da evangelização na Amazônia, assumimos a missão que o Senhor nos propõe, de sermos suas testemunhas, discípulas/os, missionárias/os de sua Palavra, pois a Igreja é "enviada por Cristo a manifestar e a comunicar o amor de Deus a todos os homens e mulheres e a todos os povos" (AG 10).
"CRISTO APONTA PARA A AMAZÔNIA" (Papa Paulo VI): memória da caminhada.
Mesmo antes da criação da Amazônia Legal em 1953, a Igreja católica na Amazônia se reunia através dos seus bispos para posicionar-se pastoralmente diante dos problemas sofridos pelos povos desta região e enfrentar os grandes desafios que se anunciavam, pelas intervenções políticas e econômicas. "Se o governo vai tentar o soerguimento econômico destas regiões, é urgente que um largo surto espiritual se antecipe aos progressos materiais,  e os acompanhe, e os envolva, dando-lhes rumo seguro e feliz"
(1º Encontro inter-regional dos Bispos da Amazônia, Manaus 2 a 6 de julho de 1952, Documento final).
Apesar de não ter todas as condições necessárias, seja pela precariedade de instalações e meios, seja pela falta de pessoal qualificado para enfrentar os novos problemas, a Igreja amazônica nunca desanimou de sua missão. Sempre contou com missionárias e missionários vindos de outras regiões do Brasil e do mundo que, vivendo a mística do amor e do serviço, deram tudo de si para que povos da Amazônia não só recebessem uma orientação adequada para sua vivência de fé, mas tivessem respeitados seus direitos, sua dignidade e plena cidadania, suas tradições e culturas.
"...em nossas prelazias e dioceses existem sinais de alegria e esperança,
próprias de uma Igreja que, mesmo tendo muitas dificuldades, está viva e responde com coragem aos desafios que se lhe apresentam"
(Discípulos missionários na Amazônia, Manaus, 11 a 13 de setembro de 2007).
Ao longo de seis décadas, desde o primeiro encontro dos bispos em Manaus, a Igreja tem demonstrado sua vitalidade e posicionamento profético e solidário. Em Santarém 1972, decidiu basear sua ação pastoral e evangelizadora em duas diretrizes: (1) a Encarnação na realidade, pelo conhecimento e pela convivência, na simplicidade, e (2) a Evangelização Libertadora. Armou sua tenda no meio do povo de tal modo que apareceu um rosto eclesial bem amazônico na diversidade sociocultural, na defesa do lar que Deus criou para toda a humanidade e na promoção da Vida em todas as suas dimensões, sobretudo quando é ameaçada pelos impactos causados por um equivocado conceito de progresso que confunde desenvolvimento com crescimento meramente econômico, multiplicação de riqueza material, incremento do PIB, expansão do agronegócio, aumento de produção de biocombustíveis, descuidando-se, porém de políticas públicas e deixando de promover a justiça e o bem-estar de todos e para todos.
A Igreja na Amazônia adotou e incorporou as novas orientações eclesiológicas e pastorais vindas do Concílio Vaticano II, de Medellín e Puebla, Santo Domingo e Aparecida e buscou evangelizar a partir de uma visão mais ampla e profunda da vida e da realidade amazônicas. Assumiu a mística e espiritualidade do seguimento de Jesus Cristo, uma pastoral e uma missionariedade dentro da realidade local. Centenas de milhares de irmãs e irmãos leigos e religiosos, presbíteros e bispos embrenharam-se nas matas, navegaram rio abaixo, rio acima, viajaram pelas estradas desse mundo desigual, levando a Palavra de Deus, fundando e organizando comunidades eclesiais, vivas e participativas, proféticas e missionárias, numa grande rede de solidariedade que as fez enfrentar as precariedades existenciais, manter viva a chama de sua fé e sua esperança, e valorizar sobretudo sua religiosidade popular expressada nas festas religiosas, em novenas e procissões.
"E porque progredimos na compreensão de sermos uma Igreja no mundo,
amando o mundo amazônico, temos a certeza que estamos dando à sociedade amazônica nossa contribuição histórica de alta qualidade para o resgate das dívidas sociais tão pesadas neste Norte do Brasil" (A Igreja arma sua tenda na Amazônia, Manaus, 9 a 18 de setembro de 1997).
 Esta ação evangelizadora favoreceu o crescimento de uma Igreja mais local, ministerial, laical e missionária. Ao celebrar os 40 anos desde o Documento de Santarém, a Igreja na Amazônia manifesta a continuidade de sua caminhada como discípula missionária do Reino e enfrenta corajosamente velhos e novos desafios:
"Diante dos desafios sociais, políticos, econômicos, culturais, religiosos e eclesiais
da realidade amazônica, decidimos fortalecer o compromisso profético de transformação e reafirmar o projeto de formação inspirado na espiritualidade do seguimento de Jesus, que convoca a Igreja para uma profunda conversão pastoral" (DAp, 170-175; 360-365, citado em "Conclusões de Santarém: memória e compromisso, 2012").
As palavras do Papa Francisco aos Bispos do Brasil por ocasião da Jornada Mundial da Juventude dão-nos novo impulso para refletirmos sobre a realidade política e religiosa da Amazônia Legal e promover e defender a vida dos habitantes dessa região e de sua rica biodiversidade. Cala fundo em nosso coração a expressão do Papa Francisco de que a Amazônia é "teste decisivo, banco de prova para a Igreja e a sociedade brasileiras" (Rio de Janeiro, 27 de julho de 2013). Essas palavras incentivam-nos a retomar as intuições de Santarém 1972 e Manaus 1974 e dar-nos conta da atualidade das prioridades de então: formação de agentes de pastoral - comunidades cristãs de base - pastoral indígena - grandes projetos - juventude.
PRIMEIRO ENCONTRO DA IGREJA CATÓLICA NA AMAZÔNIA
"A Igreja que está na Amazônia não como aqueles que têm as malas na mão,
para partir depois de terem explorado tudo o que perderam. Desde o início a Igreja está presente na Amazônia com missionários, congregações religiosas, sacerdotes, leigos e bispos e lá continua presente e determinante no futuro daquela área"
(Papa Francisco aos Bispos do Brasil, Rio de Janeiro, 27 de julho de 2013).
 Conscientes de que falta muito a ser realizado em nossa missão evangelizadora, conforme nos pede o Senhor da História (cf. Col 1,13 - 20), novamente nos encontramos em Manaus, desta vez com a participação de todos os regionais da CNBB que integram a Amazônia Legal (Norte I, II e III, Noroeste, Nordeste 5 e Oeste II). Sabemos que temos um mesmo caminho a palmilhar. Lembramo-nos de que Jesus mesmo é o Caminho (Jo 14,6). Jesus caminha conosco como o fez com os discípulos de Emaús que exclamaram: "Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras!" (Lc 24,32). E não foi adiante, mas "entrou para ficar" (Lc 24,29). Jesus está na Amazônia para ficar. E o reconhecemos ao partir o pão.
Neste caminho comum damo-nos conta de que são comuns os problemas e desafios que nos interpelam. Confiando em Jesus, presente no meio de nós, queremos formar uma ampla rede integradora de nossas ações pastorais e evangelizadoras e convocar os irmãos e as irmãs a empenharem-se em favor de um mundo justo, fraterno e solidário. Queremos convocar também mulheres, e homens que não professam a nossa fé ou se afastaram de nossa Igreja a  irmanarem-se conosco na defesa da dignidade e dos direitos dos povos da Amazônia e da criação que Deus em sua bondade e imenso amor confiou ao seu zelo e seus cuidados (cf. Gn 1,18).
Refletimos nestes dias sobre problemas que continuam a atingir e causar danos e ameaças à vida e à existência de pessoas e povos e ao meio ambiente na Amazônia. Ajudados por estudiosos e especialistas e ouvindo pessoas que sentem na pele os dramas causados por políticas de dominação em total desrespeito aos legítimos anseios e necessidades dos povos desta região:
·         analisamos e discutimos a realidade urbana e a mobilidade humana que tantos sofrimentos têm causado aos povos amazônidas como o desenraizamento da terra e a perda do patrimônio cultural e religioso próprio e comum aos povos tradicionais e dos que vêm de outras regiões;
·         verificamos um acentuado crescimento das igrejas evangélicas e dos sem-religião também na Amazônia, como consequência da precária presença de nossa Igreja nos movimentos migratórios;
·         fomos informados a respeito dos grandes projetos implementados na região, de modo especial as hidrelétricas, que representam uma nova invasão do capital visando explorar as nossas riquezas naturais e aproveitar o potencial energético de nossos rios, sem olhar para os prejuízos que causam ao meio-ambiente com sua imensa biodiversidade e a destruição da vida e da história de muitos povos tradicionais;
·   o desmatamento contínuo e novamente crescente das florestas amazônicas nos assusta pelos prejuízos incomensuráveis e pela ameaça ao equilíbrio ecológico do planeta;
·   frente ao desmatamento, à concentração da terra e às monoculturas percebemos a urgência da realização da Reforma Agrária e Agrícola;
·   constatamos o crime impune da prática do trabalho escravo que ocorre nas empresas do agronegócio e nas áreas de mineração;
·   ficamos horrorizados ante o criminoso tráfico de pessoas e drogas, sustentado pela ganância, miséria e impunidade, e o assassinato de jovens;
·   ouvimos ainda os relatos de um representante dos povos indígenas e de um quilombola que nos falaram de suas organizações, lutas e conquistas e nos alertaram para os graves riscos de perderem, através da Proposta de Emenda Constitucional (PEC 215), direitos conquistados em relação à demarcação e garantia de seus territórios, asseguradas nos Art. 231 e 232 da Constituição Federal de 5 de outubro de 1988; lembramos ainda que o Art. 68 das Disposições Transitórias da Constituição Federal reconhece aos remanescentes dos quilombos a propriedade definitiva de suas terras, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.
Enfim, constatamos que o domínio de um sistema único de mercado, o individualismo típico da cultura/sociedade de hoje e a violência urbana destroem os laços e as relações tradicionais: a família, a natureza, o mundo dos povos indígenas, dos caboclos, seringueiros, agricultores, ribeirinhos. Tudo é desagregado e desestruturado e essa realidade provoca a crise da esperança, pois rouba os sonhos, as aspirações, desorganiza as lutas, abre espaços para messianismos políticos e religiosos ou para um milenarismo alienante e vazio de sentido.
 Esses problemas atingem também os fiéis em suas necessidades subjetivas: sua busca de Deus e sua noção de vinculação com a Igreja. Está na hora de valorizarmos a religiosidade do povo e ampliarmos o diálogo ecumênico e inter-religioso.
COMPROMISSOS
Os enormes desafios apresentados nos relatos e testemunhos nos interpelam como Igreja na Amazônia Legal a assumir compromissos pastorais que devem nortear a caminhada de nossa Igreja no presente e no futuro: Reafirmamos nossa identidade de ser Igreja discípula da Palavra, testemunha do dialogo, servidora e defensora da vida, irmã da criação, missionária e ministerial, que assume a vida do povo, que se articula na paróquia como rede de comunidades e nas comunidades eclesiais de base (cf. Conclusões de Santarém: memória e compromisso, 2012, p. 19).
Causa-nos uma profunda dor ver milhares de nossas comunidades excluídas da eucaristia dominical. A maioria delas só tem a graça de celebrar o Memorial da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor uma, duas ou três vezes ao ano. O Senhor, na véspera de sua morte, não deu um bom conselho, mas um mandato explícito: "Fazei isto em minha memória" (1 Cor 11,24; Lc 22,19). O Decreto "Presbyterorum Ordinis" do Concílio Vaticano II declara que a Eucaristia é fonte e, ao mesmo tempo, ápice de toda a Evangelização (cf. PO 5). "Nenhuma comunidade cristã se edifica sem ter a sua raiz e o seu centro na celebração da santíssima Eucaristia, a partir da qual, portanto, deve começar toda a educação do espírito comunitário" (PO 6). Também a Constituição Dogmática "Lumen Gentium" fala da Eucaristia como "fonte" e "ponto culminante de todas a vida cristã" (LG 11). Torna-se urgentemente necessário criar estruturas em nossa Igreja para que os 70% de comunidades, que hoje estão excluídos da celebração eucarística dominical, possam participar da "fração do pão" (At 1,42), do "sacramento da piedade, sinal de unidade, vínculo da caridade, banquete pascal" (SC 47). 
A cultura urbana transforma profundamente a compreensão do papel dos leigos e da mulher na Igreja. Na sociedade civil, eles vivenciam processos de empoderamento social quando se exercitam na construção de uma sociedade que preserve os direitos sociais e coletivos. Práticas  e relações cotidianas exigem hoje, no interior das pastorais, modelos eclesiais assentados em relações recíprocas, mais do que no complemento, no diálogo horizontal em lugar de imposições verticais, na profunda experiência de serviço em lugar das lutas pelo poder.
O protagonismo dos leigos é insubstituível e imprescindível, na ação transformadora da realidade em que vivem, marcada pela exclusão e pela violência. O campo específico da missão dos leigos/as é o das realidades em que vivem e trabalham. É o mundo da família, do trabalho, da cultura, da política, do lazer, da arte, da comunicação, da universidade. É nos diversos níveis e instituições, nos Conselhos de Direitos, em campanhas e outras iniciativas que busquem efetivar a convivência pacífica, no fortalecimento da sociedade civil e do controle social. É na formação de pensadores e pessoas que estejam, nos níveis de decisão, evangelizando com especial atenção e empenho (cf. EN 70).
A corresponsabilidade e participação de leigas e leigos, como sujeitos com vez e voz, deve acontecer na elaboração e execução dos planejamentos pastorais, nos centros de discussão e decisão das Igrejas Particulares.
 "Urge formar ministérios adequados às necessidades das comunidades, especialmente do Ministério do Pastoreio de comunidades, exercido por leigas e leigos que sejam servas e servos do povo, abertos ao diálogo e ao trabalho em equipe, e que, devidamente preparados, assumam em nome da Igreja a direção pastoral de uma comunidade" (A Igreja arma sua tenda na Amazônia, Manaus, 9 a 18 de setembro de 1997, n. 47).
Almejamos investir na formação de presbíteros e de irmãos e irmãs de vida consagrada - autóctones e os que chegam de fora - para que sejam despojados, simples, não busquem a autopromoção, que sejam missionários e vivam em maior sintonia e contato com as comunidades e saibam trabalhar em equipe com os/as leigos/as, evitando centralismo, clericalização e autoritarismo.
Comprometemo-nos em a dar visibilidade ao tráfico de pessoas para enfrentar esses crimes hediondos contra a liberdade e dignidade da pessoa humana. Apostamos na Campanha da Fraternidade de 2014 que tem como tema "Fraternidade e Tráfico Humano".
Precisamos dar mais ênfase aos meios de comunicação, pois sabemos da sua importância para a Evangelização.
Conscientes de que a problemática da Amazônia é global, queremos abrir-nos a uma visão panamazônica que nos convoca a buscar caminhos de colaboração e compromisso entre as Igrejas na América Latina.
Queremos dar atenção especial aos jovens, através do apoio e incentivo à Pastoral da Juventude, estimulando as dioceses e congregações religiosas a liberarem presbíteros e religiosas para acompanhar os jovens, para que sejam oferecidos cursos de formação de assessores, preparando-os para este serviço à juventude na Amazônia.
UMA IGREJA COM ROSTO AMAZÔNICO
A Igreja Católica na Amazônia Legal vive e cresce com características próprias, enraizadas na sabedoria tradicional e na religiosidade popular que durante séculos alimentou e continua a manter viva a espiritualidade dos povos da floresta e das águas, e agora, do mundo urbano. Enfrenta com alegria as dificuldades das distâncias e da falta de comunicação para encontrar e oferecer ao rebanho, confiado a nós pelo Senhor da messe, a luz da Palavra de Deus e a Eucaristia como alimentos que revigoram e animam as forças para viver a comunhão com Deus e cuidar da Amazônia como chão da partilha, pátria solidária, "morada de povos irmãos e casa dos pobres" (DAp 8).
A carinhosa devoção a Nossa Senhora de Nazaré, Rainha da Amazônia, nos leve a cumprir o que ela nos pede: "Fazei o que Ele vos disser!" (Jo 2,5).
 Fonte:igrejacatolicanaamazonialegal.com
Local: Manaus - AM - Brasil

15 de ago. de 2013

O papa Francisco e as três tentações da Igreja


Francisco, em econtro com os bispos do Celam: orientações.

Em seu discurso ao Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), o papa Francisco expôs as tentações que se encontram diante da Igreja e como ela deve responder a elas.

Por Thomas J. Reese

A Igreja enfrenta três tentações, de acordo com o papa Francisco: a tentação de transformar a mensagem do Evangelho em uma ideologia; a tentação de gerir a Igreja como um negócio; e a tentação do clericalismo.

Em um discurso no dia 28 de julho ao Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), o papa Francisco expôs essas tentações e como a Igreja deveria responder a elas.

Tornar a mensagem do Evangelho uma ideologia

Essa tentação, afirma o papa, esteve presente na Igreja desde o início. Ela tenta interpretar o Evangelho separado da Igreja ou do próprio Evangelho. Francisco diz que é preciso olhar para o Evangelho com os olhos de um discípulo. Não existe uma hermenêutica "antisséptica".

Outras formas da tentação ideológica incluem o reducionismo sociológico e psicologizante. O primeiro interpreta a mensagem do Evangelho através da lente da ciência social, seja a partir de uma perspectiva marxista ou libertária. Aqui, o Evangelho é manipulado por razões políticas. É uma tentação tanto da direita quanto da esquerda usar o Evangelho para servir a objetivos políticos. O medo dessa tentação provavelmente levou Francisco a ser cauteloso com relação à teologia da libertação e, ao mesmo tempo, muito negativo com relação ao capitalismo libertário.

A tentação de psicologizar a fé, por outro lado, é individualista. "Trata-se de uma hermenêutica elitista que, em última análise, reduz o ´encontro com Jesus Cristo´ e seu sucessivo desenvolvimento a uma dinâmica de autoconhecimento". Essa é uma espiritualidade egocêntrica que "não tem sabor de transcendência, nem portanto de missionariedade".

Embora ele não o tenha mencionado, outro perigo dessa tentação é que ela fomenta uma espiritualidade passivo, de "sentir-se bem", ao invés de uma espiritualidade ativa, que trabalha para tornar o mundo um lugar melhor. Ele acredita que esse tipo de espiritualidade egocêntrica pode ser encontrada até mesmo em cursos de espiritualidade e retiros espirituais.

Relacionada com essa espiritualidade egocêntrica está a tentação da solução gnóstica. "Costuma ocorrer em grupos de elites com uma proposta de espiritualidade superior, bastante desencarnada", diz ele. O gnosticismo apareceu pela primeira vez entre os primeiros cristãos e reaparece ao longo da história da Igreja em versões novas e revisadas. "Vulgarmente são denominados “católicos iluminados” (por serem atualmente herdeiros da cultura iluminista)".

A referência ao Iluminismo torna claro que ele acredita que essa é a tentação dos católicos liberais. Eles acabam desembocando "em posições pastorais de quaestiones disputatae" (questões disputadas), as quais ele não lista. Será que essas questões controversas incluem coisas como mulheres padres e controle de natalidade?

A tentação ideológica final é a solução pelagiana. Os pelagianos acreditavam que a santidade era o resultado do esforço humano, sem a ajuda de Deus. Essa é a tentação dos católicos conservadores como "uma forma de restauracionismo". Eles buscam uma "solução apenas disciplinar" para os problemas da Igreja "na restauração de condutas e formas superadas que, inclusive culturalmente, não têm capacidade significativa". Pode-se ver por que Francisco rejeitou o grandioso vestuário papal.

Na América Latina, ele diz que esse restauracionismo se encontra "tendências exageradas para a ´segurança´ doutrinal ou disciplinar", em pequenos grupos e até mesmo em algumas novas comunidades religiosas. Mas ele vê essa abordagem como um processo "estático" e regressivo que "busca ´recuperar´ o passado perdido". Como arcebispo de Buenos Aires, Argentina, Jorge Bergoglio não era fã da missa tridentina e não a permitiu até que ela foi mandada pelo papa Bento XVI para toda a Igreja.

Funcionalismo

A segunda tentação da Igreja é ao funcionalismo, que o papa Francisco acredita ter o efeito de paralisar a Igreja. "Mais do que com a rota, se entusiasma com o ´mapa da rota´". Ela "não tolera o mistério, aposta na eficácia". Essa é a tentação dos burocratas da Igreja. "Reduz a realidade da Igreja à estrutura de uma ONG. O que vale é o resultado constatável e as estatísticas". Francisco não quer que a Igreja acabe tendo "modalidades empresariais".

Clericalismo

A última tentação da Igreja é ao clericalismo, que, como o próprio nome indica, é uma tentação particular para bispos e padres, mas Francisco argumenta que, muitas vezes, os leigos também são cúmplices. "O padre clericaliza, e o leigo lhe pede por favor que o clericalize, porque, no fundo, lhe resulta mais cômodo". Ele acredita que "o fenômeno do clericalismo explica, em grande parte, a falta de maturidade e de liberdade cristã em parte do laicato latino-americano".

A liberdade dos leigos, argumenta ele, encontra sua expressão "através de experiências de povo: o católico como povo". Uma maior autonomia, que, em geral, ele acredita ser uma coisa "sadia", se expressa através da piedade popular. "A proposta dos grupos bíblicos, das comunidades eclesiais de base e dos Conselhos pastorais", diz ele, de fato, "vai na linha de superação do clericalismo e de um crescimento da responsabilidade laical". O clericalismo liberal pode desprezar a piedade popular, enquanto o clericalismo conservador teme o fato de dar aos leigos um papel maior na Igreja.

Embora estas tenham sido apresentados como tentações para a Igreja latino-americana, é óbvio que elas são universais. Elas estão vivas e com boa saúde em Roma e nos Estados Unidos.
Fonte:http://www.domtotal.com/noticias/653710
National Catholic Reporter, 13-08-2013.

6 de jan. de 2013

¡Mutuas relaciones en la Iglesia!”, cuestión recurrente: ¿cuándo y cómo solucionarla?

Las “mutuas relaciones” entre Obispos y Religiosos en la Iglesia es un tema recurrente, desde que el Papa aprobara y decretara publicar el 23 de Abril de 1978 el documento preparado y elaborado por la Congregación para los Religiosos e Institutos seculares y la Congregación para los Obispos, titulado “Mutuae Relationes”.
Se han multiplicado los encuentros, los comentarios. Todavía ahora, en el 2012 el tema sigue siendo debatido. ¿Qué es lo que ocurre? ¿Dónde está la dificultad? ¿Existe alguna vía de salida?
Aunque el grupo de los “religiosos y religiosas” sea muy significativo en el conjunto de la Iglesia, el debate de las “mutuas relaciones” no debería quedar reducido a ellos y ellas y a los Obispos. Las relaciones en la Iglesia, como cuerpo, son, deben ser multidireccionales.leia mais em:

11 de fev. de 2012

Romaria da Terra.


Dom Canísio Klaus
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)
Há 35 anos, sempre na terça-feira de carnaval, a Igreja Católica, junto com outras entidades e organizações que apóiam a luta pela dignidade do trabalhador, convida o povo que trabalha na terra a se reunir numa grande Romaria. Nos primeiros anos, a romaria serviu para denunciar os desmandos da ditadura militar, tendo por inspiração o índio Sepé Tiaraju que liderou a resistência contra os invasores portugueses, apoiado na afirmação de que “esta terra tem dono”.
A Romaria da Terra sempre é um grande momento de celebrar a presença do Deus Libertador em meio à realidade de angústias e sofrimentos, alimentando a esperança da vitória final dos milhares de trabalhadores e trabalhadoras que se sustentam com o trabalho na terra e dos que com eles são solidários.
A 35ª Romaria da Terra acontecerá na Diocese de Santo Ângelo, mais especificamente na comunidade Bom Princípio Baixo do município de Santo Cristo. O tema que servirá de motivação para a reflexão e a oração é “Agricultura familiar camponesa: vida com saúde”.
A agricultura familiar camponesa é o espaço sagrado que traz a vida e resgata a dignidade dos agricultores e das agricultoras. A vida é o maior dom de Deus e a terra é fonte de vida. Com o trabalho sofrido, e muitas vezes não reconhecido, tiramos da terra o nosso sustento e “o pão nosso de cada dia”. Saúde é o que nós queremos. Nos organizamos e lutamos para ter vida saudável, harmoniosa e digna para todos.
É importante que todos olhem para a Romaria da Terra como uma importante celebração cristã, onde trabalhadores e trabalhadoras comprometidos com a transformação da sociedade expressam a sua fé. Ela é uma das atividades comuns das 19 dioceses do Rio Grande do Sul e é organizada em conjunto com a Comissão Pastoral da Terra, contando com o apoio de outras Igrejas Cristãs, Movimentos Sociais e Sindicatos. Procura unir o trabalho, a dor, as lutas, conquistas e esperanças do povo que trabalha a terra com a força da fé cristã. Tem por inspiração a peregrinação do povo judeu na Bíblia, que está na origem das muitas romarias e peregrinações feitas pelo povo brasileiro e pelo povo das nossas comunidades.
Convidamos os trabalhadores e as trabalhadoras da terra a que se organizem a partir de suas comunidades e organizações para a 35ª Romaria da Terra. Vamos a Santo Cristo no dia 21 de fevereiro e reforcemos o grito por “vida com saúde” a partir da agricultura familiar camponesa. Que Deus abençoe a todos!