Por: Rabino Alexandre Leone
Conta uma lenda rabínica que, na época do
segundo Templo, um grego procurou um sábio judeu de nome Shamai,
dizendo-lhe que se ele fosse capaz de enunciar a essência da Torá,
enquanto se equilibrava em um só pé, o grego se tornaria um prosélito
judeu. Tomando aquilo por uma brincadeira, Shamai, muito conhecido por
seu rigor, mandou-o embora. O grego então foi procurar outro sábio
chamado Hillel, muito conhecido por sua paciência e bom humor, e lhe
fez a mesma proposta. Ao ouvi-la, Hillel abriu um sorriso e, pondo-se
sobre um pé só, disse: “Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo
como a ti mesmo. O resto é comentário. Vai e estuda” (Essa lenda se
encontra no Talmud. Uma tradução pode ser encontrada em "Um tesouro do
folclore judaico." AUSUBEL, Nathan. Rio de Janeiro: Koogan, 1989.
Coleção Judaica, v. 8. p. 72).
A maioria das pessoas, judias ou não, ao ouvir ou ler essa
lenda, é facilmente tentada a se encantar com a resposta de Hillel e
encarar Shamai com um olhar bem menos simpático. É verdade que a
Halakhá, a lei comunitária judaica que baliza a conduta ética ideal,
segue o caminho de Hillel. Há em Shamai, porém, algo de yidishkeit, do
modo judaico de agir, que essa lenda não encobre, ainda que demonstre,
claramente, a resposta de Hillel como a mais sábia. O Judaísmo tem
sido, ao longo de seus quatro mil anos de história, uma experiência
coletiva inseparável do Povo Judeu. Essa experiência religiosa e
espiritual não deve ser encarada como uma teoria, pois ela permeia a
vida cotidiana de pessoas reais e é permeada por ela. Os sábios jamais
foram divinizados e encarados como perfeitos, e também os tolos e os
malvados jamais foram encarados como não fazendo parte da alma coletiva
de Israel. A palavra Israel, por sinal, admite muitas traduções e, se
num extremo, pode ser entendida como "O Guerreiro de Deus", num outro,
também pode significar "Aquele que Luta Contra Deus". Lutando com e
contra Deus, e temos os profetas como testemunhas dessa tensão,
forjou-se uma experiência de intimidade do humano com o divino, que por
isso mesmo tornou-se universal, ainda que tenha permanecido como
experiência particular de um povo.
Três são as bases da experiência religiosa judaica: Deus, Sua
Revelação e o Humano. Em termos judaicos, elas aparecem como YHVH
(Aquele Que É Foi E Será Cujo Nome É Impronunciável), a Torá (que não
revela segredos metafísicos mas, antes, o caminho do humano para sua
elevação e, através dela, a de todo o planeta) e a existência dos
filhos do Pacto, isto é, Israel (aqueles que tiveram a khutspá
(Pronuncia-se o KH como o j em espanhol ou o ch em alemão, como na
palavra Bach), a audácia, de lutar com e contra Deus ao mesmo tempo e
que carregam na própria carne o sinal dessa união coletiva e
intergeracional).
A liturgia diária tradicional recomenda que, durante as orações
da noite e da manhã, sejam recitados um conjunto de trechos da Torá
conhecidos como Shemá Israel, Ouve Israel, pois começam com a frase:
Ouve Israel YHVH nosso Deus YHVH é único (Deuteronômio, 6:4). A
tradição a explica como o testemunho diário da unidade divina. O judeu
observante pela manhã, mesmo que esteja sozinho, irá recitá-la em voz
alta, alongando-se ao pronunciar a palavra único, com as quatro franjas
de seu manto de orações (Tsitsit, franjas colocadas nas quatro pontas
do manto de orações, chamado talit, para que sejam vistas – Números,
16:37) nas mãos e de olhos fechados. O fechar dos olhos representa a
impossibilidade de ver a Deus, isto é, abarcá-lo ou compreendê-lo
racionalmente e também ressalta o papel do ato de escutar, entendido
pela tradição como algo feito pelo coração. Quando em comunidade, o
recitar, com os olhos fechados, ao ouvir inúmeras outras vozes se
entrelaçando, é uma experiência de integração a um todo que transcende o
pessoal. Aqui, talvez, esteja a finalidade do testemunho da unidade
divina.
O monoteísmo, enquanto experiência religiosa, é a característica
básica da religião judaica há quatro mil anos. Isto não implica apenas
numa monolatria, que seria a devoção a um deus específico – o Nosso.
Antes, é a tomada de consciência da Divindade como única,
universalmente. Deus é chamado pelos judeus por vários nomes, cada um
ressaltando uma característica que, na experiência politeísta, é
personificada em vários deuses. O nome Elohim, por exemplo, que é
geralmente traduzido como Deus, num plural majestoso, também pode ser
entendido como os deuses. Os vários nomes pelos quais É chamado são,
meramente, nomes acessíveis à consciência e à razão humana. O Nome
Revelado permanece impronunciável como um sinal da impossibilidade da
compreensão da essência de Deus. Ao longo das gerações, a percepção de
Deus tem se transformado.
Na Bíblia, a concepção de Deus aparece, muitas vezes, de forma
antropomórfica. Muito já se falou sobre este antropomorfismo. As
concepções evolucionistas apresentam esse antropomorfismo como uma
forma mais primitiva de conceber Deus. Uma leitura mais profunda,
porém, deixa claro que tal antropomorfismo já é concebido na Bíblia
como, antes de mais nada, algo simbólico. Deus não se parece a nada que
exista neste universo e, por isso, nas tábuas da aliança, o segundo
mandamento proíbe a feitura de imagens divinas.
Maimônides, na Idade Média, se posiciona claramente de forma
anti-antropomórfica, buscando demonstrar que não só as concepções
antropomórficas têm a ver com contingências de época e da língua
hebraica como vai mais longe: só podemos dar a Deus características na
negativa, ou seja, dizer aquilo que Ele não é. No século XV, ao
explicar o judaísmo para o imperador da China, os judeus de K’aifengfu
descrevem Deus usando termos chineses como T’ien Tao, o Tao Celestial
(AUSUBEL, Nathan. Um tesouro do folclore judaico. Rio de Janeiro:
Koogan, 1989. Coleção Judaica, v. 8. p.334). Já Moshé Khaim Luzzato, na
Itália do século XVIII, descreve Deus como “o Ser primário, sem começo
nem fim, que trouxe todas as coisas à existência e continua
sustentando-as”. Segundo Luzzato, “a verdadeira natureza de Deus não
pode ser compreendida por outro ser que não seja Ele Mesmo” (LUZZATO, M.
O caminho de Deus. Anotações de Aryeh Kaplan. Editora Maayanot, 1992.
p. 31). Em pleno século XX Martin Buber descreverá Deus como o Tu
Eterno, inacessível ao conhecimento, mas acessível através do diálogo e
do encontro. Todas essas visões têm, basicamente, dois pontos em
comum: a idéia de El-Khai, Deus Vivo, e a idéia de que existe uma ética
para o humano, ética que é derivada da existência de Deus.
O fundamento da ética judaica é a Torá. A palavra Torá tem a
mesma raiz do verbo “atirar mirando”, que é a mesma da palavra
professor. A tradução de Torá por “lei” é uma tradução imprópria: a
idéia mais próxima é a de “ensinamento divino”, sendo a lei apenas um
aspecto da Torá. Basicamente, a Torá busca ensinar os fundamentos para a
santificação da vida humana nesta existência e disto deriva o conceito
de trilhar os caminhos de Deus. A Halakhá (A palavra Halakhá vem da
mesma raiz do o verbo caminhar e tem como fontes principais a parte
legal do Talmud e as Responsas rabínicas), a lei comunitária judaica,
que vem a partir das interpretações da Torá, por diversas gerações de
rabinos, é também o paradigma da conduta pessoal concreta e traz esta
ética aplicada à vida cotidiana, através das gerações. Mais do que uma
série de afirmações em forma de credo, a Torá comanda ações neste
mundo, isto é, mitsvot ou mandamentos. Por um lado, a Torá é um texto
escrito e imutável – esta idéia de imutabilidade é colocada tão em
prática que, ainda hoje, o texto é mantido e lido na forma de rolos de
pergaminho com um cantilar próprio. A produção manual de um destes
rolos da Torá, também chamado de Sefer-Torá, é cuidadosamente
estabelecida, com leis que abordam tanto os materiais utilizados como a
posição de cada letra na página e mesmo o tipo de pessoa que está apta
a escrever um Sefer-Torá.
Por outro lado, a Torá é também a tradição oral (No início da
Diáspora, a Torá Oral foi codificada nos tratados da Mishná - século II
- e comentada na Guemará - aprox. século V. Essas duas obras formam o
Talmud. Após essa publicação, outros Tratados e Responsas rabínicas
foram escritos, entre eles os mais famosos são o Mishné Torá de
Maimônides - século XII - e o Shulkhan Arukh, de Joseph Caro - século
XVI), o ensinamento dos sábios de Israel interpretando a Torá através
das gerações. Para cada ponto da vida, da liturgia ao comércio, da vida
sexual ao tratamento dispensado aos animais, da guerra às regras de boa
convivência, lá o judeu tem uma lâmpada para seus pés e uma luz para
seu caminho. Tanto a Torá Escrita como a Torá Oral são, porém, uma
única Torá, fruto da revelação do Sinai. A entrega da Torá no monte
Sinai é um acontecimento mítico, não fazendo aqui nenhuma diferença,
para nossa discussão, o acontecimento do fato histórico ou não. O
caráter fundante da revelação do Sinai é ser o símbolo do selamento do
Brit, o Pacto de Israel com Deus. É aqui que também reside a
característica peculiar da revelação na tradição judaica, seu caráter
coletivo, pois Deus se revela inicialmente a todo o povo e ao mesmo
tempo. Os místicos afirmam que todo o povo significa que todos os judeus
de todas as gerações receberam a Torá no Sinai, o que dá à revelação
pessoal sempre um caráter coletivo, pois ela é um eco da revelação do
Sinai.
Outra peculiaridade da revelação é que nela Deus não revela Sua
essência mas, antes, a Sua vontade. Uma vez entregue aos homens, porém,
cumpre a estes interpretá-la através do tipo de consciência de cada
geração, pois a Torá “não está no céu” (Deuteronômio, 30:11-14). Este é
o argumento básico para a validação da interpretação rabínica.
O Povo Judeu não constitui uma unidade étnica, pois os dois mil
anos de Diáspora permitiram o aparecimento de muitos grupos com língua e
culturas diferentes dentro do povo judeu. O judeu ashkenazi, branco e
de origem européia, se diferencia tanto do judeu etíope quanto o judeu
secular americano ou israelense se diferencia dos grupos
ultra-ortodoxos. Não se pode dizer também que o povo judeu seja uma
comunidade de fiéis, com uma crença em comum, pois, fora um grupo muito
reduzido de crenças básicas, conhecemos, hoje em dia, como na verdade
sempre houve, resultados muito diferentes daquilo que Hillel chamou de
“os comentários”. O que assombra, no entanto, é a possibilidade de nos
reconhecermos como os descendentes de Avraham, nosso pai e, ao mesmo
tempo, o reconhecimento mútuo entre os vários grupos por fazermos parte
de uma grande comunidade: Am Israel (O Povo de Israel). Quando nos
reencontramos no século XX nos países da América e, principalmente, em
Israel, nos descobrimos como uma microhumanidade de gente proveniente
das mais diversas partes do mundo. Mordekhai Kaplan vê no povo judeu
uma “nacionalidade ética”, o ideal de uma humanidade pacífica. O
pensador Abraham Ioshua Heschel disse, a respeito disto, “os judeus são
um povo que, para ser um povo, têm de ser mais do que um povo” (The
Earth is the Lord.s and The Shabbath. New York: Ed. Harper & Row
Torchbook, 1966. p. 64).
A comunidade tradicional da Diáspora, que se seguiu à destruição
de Jerusalém e seu Templo, nos anos 70 pelos romanos, entrou em crise
com o surgimento da modernidade. Não deixa de ser interessante que, no
mesmo ano em que Colombo saía com suas caravelas, os judeus eram
expulsos da Espanha. No Ocidente, a crise da comunidade tradicional se
aprofundou com a emancipação dos judeus nos estados burgueses. A partir
do século XVIII, num processo cheio de idas e vindas, os judeus
conquistaram direitos civis o que, por um lado, criou um problema
conhecido no meio judaico como a assimilação, isto é, a perda da
identidade judaica em troca do reconhecimento e da participação sociais.
Por outro lado, intensificou as reações de preconceito anti-semita, o
que gerou ações defensivas dos judeus para com a sociedade em geral que
variam de país para país. O Brasil, neste contexto, aparece como um
país onde o preconceito anti-semita isolado é fato bastante raro como
fenômeno cultural ou de massas.
Dentro do âmbito religioso, a emancipação propiciou o
aparecimento de três linhas básicas dentro do judaísmo moderno: a
Reforma, uma linha que sustenta a prevalência da modernidade sobre a
tradição; o movimento Conservativo, que sustenta a possibilidade do
diálogo da tradição com a modernidade uma vez que este foi sempre o
caminho da tradição em todas as épocas; e, finalmente, a Ortodoxia, que
é uma reação (mais moderada ou mais fundamentalista, dependendo do
grupo) à sociedade moderna e seu modo de vida. Muitos pensadores judeus,
que se debruçaram sobre questões da espiritualidade do ponto de vista
judaico, não podem, no entanto, ser classificados em nenhuma dessas
tendências religiosas, entre eles podemos citar: Martin Buber, Franz
Rosensweig e Emmanuel Lévinas, apenas para designar os mais conhecidos
do público em geral. Há, nesses últimos, uma tensão especial que
permeia suas vidas e obras, o pressentimento de que algo para além da
Modernidade está para acontecer.
No decorrer do século XX, dois acontecimentos marcaram
profundamente o consciente e o inconsciente coletivos do povo judeu e
serão, daqui para frente, cada vez mais importantes em sua experiência
espiritual: o genocídio de um terço dos judeus do mundo, durante a
barbárie nazista, conhecido como o Holocausto, e o aparecimento de uma
terceira reunião judaica na Terra de Israel, quase dois mil anos depois
da última. Esses dois acontecimentos, únicos na história humana e
judaica, levarão, possivelmente, várias gerações para serem melhor
compreendidos em toda intensidade de seu significado. Esses
acontecimentos deverão ser vistos à luz da nova consciência
eco-planetária que agora começa a florescer. A Torá nos ensina a
observar os ciclos cósmicos, em nós e na Natureza, e a ver a eterna
renovação na vida e na morte. A Tradição, enquanto memória coletiva
viva, enriqueceu-se muitíssimo com essas vivências que chegam quase ao
limite da existência humana e que clamam pela renovação espiritual.
Como dizia Rav Kook : “O antigo se renovará e o novo santificará”.
Publicado em: LEONE, A.G. - Uma Apresentação do Judaísmo,
in Revista do 1o Ciclo de Estudos da Religião, UFOP, 1997. P.11-19
(repassado diretamente pelo autor a mim no dia 15 de abril de 2010).
Fonte: http://www.edt.edu.br/artigo-01-06-10.html