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27 de mar. de 2015

Hosana ! Bentido o que vem em nome do Senhor!

                                     Júlio Lázaro Torma*
                                 " Meu Deus,meu Deus,porque me abandonastes?"
                                                                                      ( Mc 15,34)
      Hoje iniciamos a celebração da Semana Santa, a " Semana das semanas'', a " Grande Semana", da Entrega, Paixão e Morte e Ressurreição de Jesus que culmina na madrugada de domingo de Páscoa ( Pesach). Celebramos o domingo de " Ramos" quando trazemos palmas, ramos, flores e ervas medicinais.
    Estamos seguindo o itinerário de Jesus, estamos próximos dos pórticos de Jerusalém, em Betânia ( casa dos pobres) e Betfagé ( casa do figo), perto do monte das oliveiras a onde o povo se concentrava para as romarias. Durante a caminhada salmodiavam os salmos 120-134 ( Cânticos de peregrinação).E junto com os milhares de romeiros subamos " para Jerusalém a cidade tão bem edificada,que forma um tão belo conjunto" ( Sl 122,3) e " Vinde subamos á montanha do Senhor" ( Is 2,3).
     Eis que subamos, cantemos alegremente salmos de alegria pois o Senhor o " Príncipe da Paz" ( Is 9,5), " esta se próximo" ( Fl 4,5) e vem " simples montado num jumento, no porto de uma jumenta" ( Zc 9,9) e a ele as ruas tomadas pela multidão correm cantando com ramos de oliveira,folhas de palmeiras,salgueiros e ramos de mirta ( Dt 16,Lv 23,40,Ne 8,14-17) e cantemos alegremente, " Bendito seja o que vem em nome do Senhor" ( Sl 118,26-27).
    Jesus entra na cidade de Davi, na cidade da Paz e messiânica, como um rei de maneira provocativa diante dos poderes do Templo ( religioso) e de Pôncio Pilatos ( político), dominador que oprimem, empobrece e dominam o povo.
    Assim como o seu antepassado o poderoso rei Davi ( II Sm 5,6-11), Jesus entra em Jerusalém.Ele entra pacificamente montado no jumento. O jumento era o meio de locomoção das pessoas pobres de seu tempo, de serviço e de sinal de missão de paz de um rei.
    Quando um rei entrava numa cidade montado num cavalo era sinal de  guerra e de destruição daquele povo.
     Jesus entra de maneira provocativa cercado pelos discípulos e a multidão, anunciando um Reino diferente que inverte as prioridades, onde quem quiser ser o maior deverá ser o menor e que veio para os pobres e pecadores.
     E que o seu reino não é um reino dominador e opressor, mas um Rei que é servo, que se esvaziou de si mesmo, de sua condição real e se fez o" servo sofredor" ( Is 50,4-7).
     Ele não é acolhido pelos poderosos de seu tempo que tem medo dele, pois eles tem medo de perder os seus privilégios e farão de tudo para assassina-lo, como forjar um julgamento falso, cheio de mentiras e onde eles mesmos se contradizem o tempo todo e manipulam a opinião pública contra Jesus.
    Quando a elite se vê e sente os seus interesses ameaçados a primeira coisa que ela faz é isolar e eliminar aquele que lhe atrapalha e causa uma ameaça como sucedeu com Jesus.
     Outro paradoxo da festa de hoje que deve ser destacado é a mesma multidão que está as vezes aclamando ( Mc 11,8-10) e que alguns dias depois está imediatamente condenando ( Mc 15,13-14). Mas uma vez a nossa realidade humana. A multidão é sempre versátil, a massa não pensa ela é facilmente manipulável.
    Apenas um líder hábil para manipular de alguma forma para o melhor e o pior.Os seres humanos que compõe a multidão são facilmente influenciados por fatores ou situações que por vezes negam a si mesmo, em instituições, empresas, negócios que muitas vezes há gravantes situações de injustiças...
    Quantas pessoas aceitam se queimar para denunciar? O medo pode ser rapidamente, o medo da perda do emprego, medo da perda da amizade, medo de alguma ameaça de morte, o medo de não chegar a uma posição privilégiada, o medo de ter que lutar em defesa da justiça, medo do medo... É triste! Mas a maioria das pessoas são assim.
    Eu pessoalmente já experimentei e passei por isso mais de uma vez. No entanto, é está maioria que compõe as massas ou seja  são homens e mulheres que estão fazendo qualquer coisa.
    Olhamos para nós mesmos e perguntamos quem somos a multidão, Simão Cirineu, Pedro que nega, Judas que trai e os discípulos que fogem? ou os transeuntes que passam anonimamente diante da cruz?
     Quantas vezes Jesus esta caído nas nossas ruas e nós não lhe ajudamos e viramos o nosso olhar, pois o seu olhar nos agride e também nos ofende e nos chama a dura realidade em que vive bilhões de seres humanos em nosso planeta.
    Jesus está hoje gritando em meio aos crucificados de nossa sociedade, aqueles que muitas vezes zombamos deles e que pedimos a sua morte, uma higienização da sociedade, não porque eles que são os mais pobres nos atrapalham. Mas por que eles causam um mal estar nos privilegiados, que criam miseráveis, entre os pobres e que não querem ver, para não terem peso na sua consciência e serem chamados a responsabilidade desta dura realidade, diante do grito abafado de milhares de crucificados que encontramos pelas ruas, calçadas, praças, avenidas,estrada e calçadão de nossas cidades.
    Onde o grito de Jesus abandonado nos crucificados nos chama a sairmos do nosso comodismo e como Simão Cirineu nos colocar á serviço, não ter medo do desconhecido, pois é como nos fala o Papa Francisco.
    " Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar ás próprias seguranças" e que tem medo de tocar nos crucificados nas beiras e caídos nas estradas do mundo.
    É indigno converter a semana santa, em folclore, turismo, meros espetáculos, comércio para abastecer os lucros da Páscoa, feriadão. Para os seguidores de Jesus celebrar a Paixão e Morte do Senhor é um agradecimento emocionado, adoração ao amor " incrível" de Deus e chamados a viver como Jesus, solidarizemos e servimos aos crucificados.                  Mc 11, 1-10; Mc 15,1-39
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            * Membro do Colegiado Nacional da Pastoral Operária

16 de nov. de 2011

Filho da Casa.

"O escravo não fica sempre na casa; o filho, sim, para sempre." (João 8:35 ARA)
Eu ainda não passei por isso, mas recentemente um amigo próximo casou a filha mais velha. O drama, segundo nos contou, foi olhar para o quarto dela desocupado e pensar que ela não vinha para casa no final de cada noite. Os meus filhos ainda são adolescentes, mas às vezes me pego pensando nisso e me aperta o coração. Minha filha mais velha está no ensino médio e vai para a facudade em pouquíssimos anos.
Imagine o coração de Deus, se o coração de um pai terreno, humano, limitado e falho como o nosso sente isso. A cultura da época em que este versículo foi escrito, certamente era diferente do que temos hoje. Vivemos dias de globalização e mudar de cidade ou até mesmo de país se tornou muito fácil. Os filhos em nossos dias esquecem que têm ou tiveram pais com mais facilidade. Nem sempre foi assim.
O conceito apresentado neste versículo é de casa no sentido de descendência ou de herança familiar. Mesmo morando em outra edificação, os filhos são de casa para sempre. A casa do pai é a casa dos filhos, mesmo que os pais sejam velhos e de pouca capacidade. Se isso não tem sido verdade em nosso tempo, não é culpa de Deus nem da Sua Palavra E COM CERTEZA será verdade na morada eterna. A Casa Eterna do Pai Celestial é para Seus filhos para toda eternidade. Não é apenas a casa que é eterna, mas a permanência dos filhos também.
Além disso, há um sentido adicional que merece ser lembrado. Filho é filho para sempre. Rompendo relações com o pai ou não, jamais deixa de ser filho. Do mesmo modo o pai jamais deixa de sê-lo, pois não há como cancelar paternidade. Lementavelmente alguns se comportam como se tivessem conseguido algo assim, mas não passa de um comportamento, e aliás, impróprio.
Deus nos toma por filhos em Jesus Cristo e por causa disso temos herança com Ele. Assim sendo, sugiro começar agora mesmo a se preparar para viver para sempre na Casa Dele.
"Pai, obrigado por ter lugar para mim em Teu Coração e na Tua Casa. Te agradeço pois entendo que estarei contigo para sempre, pois sou Teu filho. Aleluia."
Mário Fernandez

15 de ago. de 2011

Deus mora lá na nossa rua.

Quando dona Cora Coralina, a nossa grande poetisa da vida cotidiana, sugeriu ao presidente da República, que instituísse "O Dia nacional do Vizinho”, em nenhum lugar, havia ainda esta iniciativa. Atualmente, existe o "Dia europeu da Vizinhança”, celebrado no final de maio. A Argentina festeja o seu "Dia de los vecinos” no 11 de junho. O Brasil consagra como Dia dos Vizinhos o 20 de agosto, data do aniversário natalício da inesquecível dona Cora. Esta valorização da vizinhança se torna mais importante, em cidades maiores, nas quais edifícios substituem casas. Ali, embora, frequentemente, as pessoas se encontrem no mesmo elevador, muitas vezes, não se conhecem. Não é o mero fato de morar no apartamento ou na casa ao lado, que torna alguém vizinho. A pessoa pode viver durante anos em um lugar, se queixando da agitação, do calor, da poeira ou da insegurança. Outros têm plena consciência destes problemas e lutam para vencê-los, mas, assim mesmo, casam com a rua ou praça onde moram. Quando pessoas da mesma rua ou do mesmo condomínio pressentem em outras, esta relação vital com o lugar em que moram, aí se fortalece uma proximidade de convivência que é a vizinhança. Para ser bem vivida, esta precisa de uma educação para o diálogo e a convivência entre diferentes. Cora Coralina dizia: "Vizinho é mais do que parente, porque é o primeiro a saber das coisas que acontecem na vida da gente”.
Em tempos anteriores à televisão e aos shoppings, nas cidades do interior, ou em bairros residenciais, toda noite, as pessoas costumavam sentar à porta de casa, para conversar e conviver. Normalmente, a roda de conversa acabava se abrindo também aos vizinhos e vizinhas. Assim, se formavam verdadeiras rodas de discussão, com assuntos como educação de filhos, relacionamentos conjugais e futebol. Hoje, a televisão e a cultura do shopping substituíram estes ritos de convivência, mas não resolvem o problema da solidão dos mais velhos e da futilidade de quem olha o mundo apenas pela janela do consumo descartável.
Há mais de 50 anos, o educador Paulo Freire propôs um método de alfabetização e educação de adultos que partia da vizinhança. Formava círculos de diálogo e cultura entre vizinhos. Ali, as pessoas aprendiam a expressar sua posição sobre a vida e os problemas que enfrentavam. Mesmo perseguido pela ditadura militar, este método de conscientização se espalhou pelo Brasil, por outros países da América Latina e até em Angola e Cabo Verde, na África. Na mesma linha, na segunda metade dos anos 60, em várias regiões do Brasil, homens e mulheres de fé cristã, começaram a se reunir como vizinhos, para orar, ouvir juntos um texto bíblico, conversar sobre problemas da vida e fortalecer a solidariedade mútua. Foi o começo das comunidades eclesiais de base. Mais tarde, várias Igrejas evangélicas organizaram grupos semelhantes, como "Igreja em células” e "Igreja em quadros”, comunidades de convivência e proximidade, instrumentos de comunhão entre as pessoas.
Há mil razões para se valorizar a prática da vizinhança. Quem crê em Deus como Luz e fonte de vida, o contempla, não como alguém exterior a nós e que de fora intervém neste mundo, mas como presença íntima e profunda, no coração de toda pessoa humana, especialmente de quem se abre ao amor, independentemente de sua pertença religiosa. Um teólogo evangélico dizia: "Deus está em mim para você e em você para mim. Eu o encontro em você e, se quiser, você pode encontrá-lo em mim”. Por isso, podemos olhar nossos vizinhos e vizinhas, como sinais da presença divina. Eles são humanos e têm seus defeitos e limitações, mas se os olharmos assim, pouco a pouco, se transformarão, principalmente se perceberem que, de fato, cremos: através deles e no mais íntimo de cada um/uma, Deus mora lá na nossa rua.