10 de jul. de 2015

Se você não desistir o sucesso virá

             Kelio Vilarindo Pereira, natural de Porto Nacional - Tocantins - poderia entrar no Livro dos Recordes: repetiu  sete vezes a 1ª séria  do ensino fundamental. Ele não conseguia entender o conteúdo das aulas. Teve de enfrentar as críticas dos familiares e  as brincadeiras de mau gosto dos colegas. Mas ele não desistiu. Agora, aos 32 anos,  acaba de receber o diploma no curso de Serviço Social na Universidade do Norte do Paraná e se prepara para enfrentar uma  pós-graduação.
            Todos temos sonhos, mas nem sempre estamos dispostos a pagar o preço exigido. É perigoso acolher alternativas mais baratas.. Os que optaram por  este caminho afundaram no mar do anonimato. Seus  nomes foram esquecidos, enquanto a História guardou os nomes dos  que superaram as dificuldades..
            Demóstenes,  o maior orador  da antiguidade grega, era gago. Venceu a dificuldade, colocando seixos na boca enquanto discursava diante das ondas do mar. Giuseppe Verdi, só depois de dois insucessos, foi admitido no Conservatório de Milão. O grande estadista, Winston Churchill, com bom humor, lembrava que ninguém sabia tanto do segundo ano primário, curso que ele repetiu três vezes. William Kennedy passou por 17 editoras até ver publicado seu  romance  Vernônia.
            Henri Ford  dizia aos seus empregados: se você acha que pode, ou se você acha que não pode, sempre terá razão. E Jean Cocteau, da Academia Francesa, comentou  a vida de um vitorioso: ele não sabia que era impossível, foi lá e o fez.
            Kelio V. Pereira, ao comentar seu sucesso, aponta duas causas: a família e pessoas que o ajudaram a  abrir  novos caminhos. Mesmo assim ele insiste: a pessoa tem  de querer vencer suas própria dificuldades, senão ele nunca sairá do lugar.
            Para inventar a lâmpada elétrica, Tomás Edison fez duas mil tentativas. Um repórter quis saber: o senhor nunca sentiu a vontade de desistir com tantos fracassos? A resposta; eu nunca fracassei; cada tentativa errada, eu dizia :aí está um jeito que não dá certo. Quando um erro nos ensina alguma coisa, ele valeu a pena.  Bem aproveitado, o erro é um excelente mestre.
            Quando nosso projeto é grande, não podemos ter muita pressa. Um cedro demora 80 anos para chegar  à maturidade, mas a aboboreira precisa apenas  de dois meses. Nunca podemos dizer: mais tarde, agora é cedo demais. Também é uma desculpa admitir: agora é tarde demais.  Se o  sonho é importante,  comece hoje.

Frei Aldo ColomboSobre o autor

Frei Aldo Colombo

Aldo Colombo é Frei Capuchinho,  nasceu em  Rolante, RS. Atualmente  reside Garibaldi, como vigário paroquial e superior da fraternidade e articulista do Jornal Correio Riograndense, e com varias publicações. Escreve textos para as emissoras da  Redesul de Rádio.

9 de jul. de 2015

Ser uma pessoa religiosa ou de fé: distinções

Fonte: domtotal.com
Se faltar discernimento, prevalecerá a disputa entre religião e fé e não o encontro entre ambas.
É muito comum confundir experiência religiosa com experiência de fé.
 
Por Dom José Antônio Peruzzo*
Impressiona o elevado grau de religiosidade disseminada por toda a parte. Desde os tempos do iluminismo se anunciava o fim da religião. Contudo, por mais que a genialidade humana seja pródiga em sua força inventiva, quando tudo estaria a sugerir que a família humana seria mais feliz e justa, ainda assim enumeram-se as contradições da história. Homens e mulheres, carentes e abastados, parecem sempre mais inquietos. Uns pela falta, outros pelo excesso. E Deus é sempre lembrado. Em muitos casos, infelizmente, até para legitimar a violência.
É muito comum confundir experiência religiosa com experiência de fé. Também se fazem verdadeiros hibridismos entre religião e espiritualidade. Embora sejam questões conexas, se faltar discernimento, prevalecerá muito mais a disputa entre religião e fé do que o encontro entre estas duas dimensões. A religião refere-se ao sagrado, ao inacessível, dotado de onipotência. A pessoa religiosa se expressa com ritos e cultos. Faz suas ofertas e apresenta seus pedidos. Em muitas situações envolve um grande fascínio. Tem forte componente emotivo. Também faz parte da experiência religiosa a adesão a um corpo doutrinal. Mas ainda não chega a ser uma vivência de encontro com um Deus amoroso. Neste sentido, até as nossas novenas, vez por outra, podem carecer de maiores discernimentos. Elas correm o risco de serem apenas exercícios de religiosidade, o que é ambíguo.
A experiência de fé tem fundas raízes na religião. Mas traz consigo alguns elementos diferenciadores. A fé pede atitudes de relação, de confiança, de obediência. Não se trata de relação submissa, nem confiança cega. Tampouco se pensa em obediência fanatizada. Na experiência de fé conta muito, decisivamente, a liberdade pessoal. Compreendamos o sentido de “obediência”. Vem do latim ob-audire. A primeira parte (ob) é prefixo que indica “diante de”, “por causa de”. Audire quer dizer ouvir. Daí o termo obediência.
Agora voltemos à fé. Homem ou mulher de fé não é aquele(a) que tem certezas intelectuais. Tampouco é fé aquela atitude psicológica parecida com pensamento positivo. Estas são virtudes humanas, mas que ainda não integram ou constroem relações de confiança. Tem fé quem se dispõe aderir e vincular sua liberdade em favor de alguém que confere sentido à vida presente e futura. Porque adere também ouve, também ora, também obedece (ob-audire). Claro, a fé tem uma dimensão religiosa porque comporta abrir-se à eternidade, ao infinito, ao onipotente. Mas mais do que aspectos de ritos, valem os vínculos de relação.
Agora podemos retomar a frase do evangelho. O mais sério problema dos discípulos não era o vento tempestuoso. Não era a ameaça das ondas. Era a sua pouca confiança. O mar agitado era poderoso. O vento forte era ameaçador. Aos discípulos parecia mais lógica a certeza vinda de um milagre expectado do que a confiança na força, na autoridade e na palavra que de Jesus tinham ouvido. Eles eram homens religiosos. Mas ainda não tinham fé. O vento e o mar se curvaram ante a voz de Jesus. Os discípulos, porém, se apavoraram.
Segue que para chegar a ser uma pessoa de fé o caminho a percorrer não é o das elaborações filosóficas. Não são os raciocínios complicados que me levam à obediência a Deus. Se se trata de relação e de confiança, então a disposição à oração é o passo primeiro. É por isso que encontramos no mesmo evangelho de Marcos uma sublime oração de súplica: “Senhor, vem em socorro à minha fé” (Mc 9,24).
CNBB 08-07-2015
*Dom José Antônio Peruzzo é arcebispo de Curitiba (PR

19 de jun. de 2015

CNBB se opõe à redução da maioridade penal

Fonte: domtotal.com
Entidade revela o temor de que algumas violações aos direitos da criança deixem de ser crime.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou, nesta quinta-feira (18), nota em que afirma que a redução da maioridade penal representará uma ameaça a direitos hoje previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
No documento, a entidade revela o temor de que, se aprovada pelo Congresso Nacional, a medida acarrete um “efeito dominó”, fazendo com que algumas violações aos direitos da criança e do adolescente, como a venda de bebidas alcoólicas, abusos sexuais, entre outras, deixem de ser crime.
“Seria uma consequência natural, já que reduzir a idade de responsabilização penal para 16 anos terá implicações enormes sobre a vida social. Poderá valer para a compra de bebidas alcoólicas, direção de carros, trabalho. Abrimos um leque enorme”, disse o secretário-geral da entidade, Dom Leonardo Steiner, sustentando que, em outros países, a medida não surtiu os efeitos esperados. “Não podemos cair na tentação de nos desvencilharmos de nossos problemas sociais e de nossos jovens”.
Para a CNBB, é um equívoco afirmar que o estatuto não estabelece punições aos adolescentes que cometem atos infracionais. No documento, a entidade lembra que, no Brasil, os jovens podem ser responsabilizados penalmente já a partir dos 12 anos - idade abaixo da estipulada pela maioria dos países industrializados. Na avaliação da CNBB, reduzir a maioridade penal dos atuais 18 anos para 16 anos não resolverá a violência.
Segundo o presidente da CNBB, Dom Sergio da Rocha, embora ao ser sancionado, há 25 anos, o ECA tenha sido saudado como uma das melhores leis do mundo em relação à criança e ao adolescente, as medidas socioeducativas nele previstas não foram devidamente aplicadas ao longo dos anos, não sendo possível afirmar que a lei contribui para a impunidade.
“Embora tenha sido tão bem acolhido, o ECA não foi levado a sério como deveria. Hoje, teríamos de revalorizar e verificar a responsabilidade do Poder Público”. Na nota, a CNBB ainda sustenta que "as medidas socioeducativas previstas no estatuto foram adotadas a partir do princípio de que todo adolescente infrator é recuperável, por mais grave que seja o delito que ele tenha cometido. Esse princípio está de pleno acordo com a fé cristã”, menciona a nota.
Vice-presidente da CNBB, Dom Murilo Krieger destacou que, em momentos de comoção, quando é grande a cobrança por respostas rápidas para problemas como a criminalidade. “Nesses momentos, diante de alguns fatos tristes envolvendo adolescentes, nascem mitos e equívocos, como a ideia de que a redução solucionará o problema da falta de segurança. Com isso nos desobrigamos de buscar soluções educativas. O que queremos é criar uma consciência e demonstrar que o problema é bem mais amplo, que os jovens têm direito a uma nova oportunidade”.
Agência Brasil

18 de jun. de 2015

Reordenando os Sentimentos

 Fonte: http://capuchinhos.org.br/caprs/artigos/detalhes/reflexoes/reordenando-os-sentimentos
Publicado por Frei Jaime João Bettega
Reordenando os sentimentos, incrementando tudo com uma boa dose de esperança. Vai dar certo! “As coisas que temos nos ajudam a viver. O que damos aos outros pode mudar nossa vida.” Ao longo dos dias, as necessidades vão surgindo. O que é básico sempre se dá um jeito. A sensibilidade permite uma atenção para com os outros. Impossível viver bem sabendo que o semelhante não tem o necessário. Estender a mão para dar e para receber é um movimento inspirador.
A profundidade da vida vai acontecendo entre trocas e laços que culminam em abraços! Ter algumas coisas é questão de dignidade. Todos deveriam ter o necessário. Enquanto esse sonho não se realiza, a solidariedade vai adequando ações e promoções. Ainda bem que muitas pessoas já fizeram a experiência de dar ou doar-se. As mudanças da vida acontecem pela caridade.
O excesso de apego nunca resultará em satisfação. O egoísmo carrega consigo a infelicidade. Em alguns momentos, talvez, não se tenha nada para dar. Mesmo assim, pode-se fazer muito: acolher, escutar, silenciar, ficar por perto, surpreender. Sair de si e ir ao encontro é um exercício básico, questão até de sobrevivência. A leveza dos dias está alicerçada na bondade. Pessoas do bem se encontram, exalam o odor da alegria e da realização. Impossível querer ser feliz sem participar desse movimento, que tem o amor ao próximo como a melhor melodia.
Pensar só em si é facilitar aquela tristeza que vai adoecendo a esperança e escurecendo o horizonte. Que bom saber que o que damos aos outros vai mudando nossa vida. É fantástico viver assim. Bênçãos! Paz e Bem! Santa Alegria! Abraços!
Sobre o autor

Frei Jaime BettegaFrei Jaime Bettega

 Frei Jaime tem formação em Filosofia, Teologia, Administração de Empresas, Pós Graduação em Gestão de Pessoas e Mestrado em Administração, com enfoque na Espiritualidade nas Organizações. Professor de Ética Organizacional do curso de Administração de Empresas da UCS.,  Coordenador da Legião Franciscana de Assistência aos Necessitados (Lefan) e é o fundador do Projeto Mão Amiga, que auxilia crianças carentes.
Apresentação do programa, na rádio São Francisco SAT (560 AM)e Articuladro do Jornal Correio Riograndense e colunista no Pioneiro.

16 de jun. de 2015

Cuidar de quem nos cuidou

Publicado por Frei João Carlos Romaninini | 17/05/2015 - 10:33 
Autor: Frei Jaime Bettega
 
Fonte:  http://capuchinhos.org.br/caprs/artigos/detalhes/espiritualidade/cuidar-de-quem-nos-cuidou
Ver os pais envelhecendo é maravilhoso. Perceber o legado que uma geração passa à outra é provar o doce sabor que a vida oferece.
Os espaços já estavam devidamente preparados. Havia uma certa expectativa. Ambientes vazios sempre aguardam por alguém. A Casa São Frei Pio, em Caxias do Sul, que há tempo cuida da saúde dos frades, passou a ter uma nova ala destinada a idosos em situação de vulnerabilidade. Ao
todo serão 20 leitos. A manhã daquela terça-feira, um dia que parecia igual aos demais, se transformou num fato que mereceu registro histórico: a chegada dos primeiros idosos.
Alguns acompanhados por familiares, outros não. No olhar, a esperança e no corpo, as marcas dos anos vividos. Um misto de alegria e de emoção tomou conta de todos.
O enorme convento ampliava sua finalidade: cuidar de quem certamente cuidou dos outros.
O número de idosos tem crescido, enquanto que o número de filhos por família assinala uma sensível diminuição. Chegar ao entardecer da vida é algo natural. É um direito poder envelhecer dignamente. Ser cuidado está implícito na existência pessoal e familiar. Nenhum idoso atrapalha o ritmo de vida dos mais jovens. Pelo contrário, é uma presença que fortalece laços e confirma a história. O surgimento de casas que abrigam pessoas de idade avançada se tornou quase uma necessidade. Porém, os laços de afeto não deveriam jamais ser interrompidos.
Cuidar de quem nos cuidou é uma nobre missão. Oportunidade ímpar de retribuir tudo o que foi recebido. Em alguns momentos, as dificuldades até se intensificam, mas o amor filial é capaz de suportar até o que parece ser impossível. Ver os pais envelhecendo é maravilhoso. Perceber o legado que uma geração passa à outra é provar o doce sabor que a vida oferece. A convivência entre avós e netos é simplesmente fantástica, pois imprime jovialidade àqueles que já somaram algumas décadas de vida. No entanto, há casos bem mais exigentes, onde a presença de cuidadores se faz necessária.
A cultura do cuidado precisa ser recuperada. Há uma facilidade em terceirizar as obrigações mais corriqueiras. Muitos não querem ter incomodação, nem limitação da liberdade. Aproveitar a vida é o emblema mais badalado. Um dia, porém, as limitações da velhice alcançarão os que hoje vivem a jovialidade. Quem não cuidou dos seus, é bem provável que também não seja cuidado. Todos os filhos deveriam se preparar para ser, um dia, pais de seus próprios pais.


Sobre o autor

Frei Jaime BettegaFrei Jaime Bettega

 Frei Jaime tem formação em Filosofia, Teologia, Administração de Empresas, Pós Graduação em Gestão de Pessoas e Mestrado em Administração, com enfoque na Espiritualidade nas Organizações. Professor de Ética Organizacional do curso de Administração de Empresas da UCS.,  Coordenador da Legião Franciscana de Assistência aos Necessitados (Lefan) e é o fundador do Projeto Mão Amiga, que auxilia crianças carentes.
Apresentação do programa, na rádio São Francisco SAT (560 AM)e Articuladro do Jornal Correio Riograndense e colunista no Pioneiro.

10 de jun. de 2015

Nós votamos, eles elegem

Só um imbecil pensa que empresas realmente 'doam' a candidaturas.
fonte: domtotal.com
Frei Betto
Haverá eleição presidencial nos EUA em 2016. Como no Brasil, lá também o povo vota, mas quem elege é o dinheiro. Os pré-candidatos estadunidenses já paparicam os grandes doadores de campanhas: Sheldon Adelson, dono de cassinos, nos últimos 12 anos doou US$ 120 milhões aos republicanos; George Soros, especulador, US$ 44 milhões aos democratas. Os irmãos David e Charles Koch, do ramo petroquímico, se dispõem a arrecadar US$ 900 milhões para os republicanos; e tantos outros bilionários se mobilizam. Na corrida ao Planalto, em 2014, nossos candidatos arrecadaram, juntos, R$ 586 milhões. A campanha de Dilma abocanhou R$ 318 milhões, mais da metade do total. Zerou todas as despesas e ainda sobraram R$ 169 mil. Aécio arrecadou R$ 201 milhões, e ficou dependurado na dívida de R$ 15 milhões. Até 1997, no Brasil era proibido empresas financiarem campanhas eleitorais. O PSDB quebrou a boa norma e fez aprovar a lei eleitoral nº 9.504, que permite financiar candidatos sem que o dinheiro passe pelos partidos. Só um imbecil pensa que se trata de "doação". É, de fato, investimento. Empresas e bancos "emprestam" grana à espera de retorno assegurado pelo desempenho político do eleito. Não há papel assinado, exceto quando a doação é ao partido. Se o candidato perde, o investidor contabiliza na folha de "perdas e danos". E nada impede de o candidato embolsar parte do recurso recebido. Se é eleito, sabe que deverá ser leal a seus "investidores", caso contrário será castigado nas próximas eleições e ficará a pão e água... Os maiores investidores procuram formar bancadas, como a do BBB (bola, bala e Bíblia), assim como há bancadas do agronegócio, da bebida alcoólica, dos frigoríficos etc. São 39 os países que, hoje, proíbem empresas de financiarem eleições, entre eles Portugal, França, Canadá, México, Colômbia e Peru. Além da grana "por fora" de empresas e bancos, no Brasil há ainda a grana do Fundo Partidário. Até abril deste ano era de R$ 290 milhões. Dilma, apesar do ajuste fiscal, triplicou-o. Agora é de R$ 868 milhões. Também ela investe na base aliada... Em época de eleições, você já escutou "Interrompemos a nossa programação para o programa eleitoral gratuito." Mentira. Não é gratuito. O valor do tempo cedido por rádios e TVs à campanha eleitoral é abatido no imposto de renda das emissoras. Em 2014, elas ganharam R$ 840 milhões de isenções fiscais. E o mais intrigante: a União é, constitucionalmente, a proprietária do sistema radiotelevisivo brasileiro. E, no entanto, paga para utilizá-lo em campanhas de interesse público. O STF decidiu por 6 a 1, em maio de 2014, proibir doação de empresas a campanhas eleitorais. Porém, o juiz Gilmar Mendes, contrário à decisão, apelou para o recurso de "pedido de vistas" e enfiou o processo debaixo do braço. E não há lei que o apresse. Na verdade, ele queria ganhar tempo para transferir a decisão para o Congresso. Acreditava que deputados e senadores, capitaneados por Eduardo Cunha, vetariam a proibição. Resta à sociedade civil pressionar para que os nossos políticos tenham vergonha na cara e decência no bolso. E, na próxima eleição, votar com mais consciência.

Frei Betto é escritor e religioso dominicano. Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Foi assessor especial da Presidência da República entre 2003 e 2004. É autor de "Batismo de Sangue", e "A Mosca Azul", entre outros.

Nós o Crucificamos!!!

                             Júlio Lázaro Torma
                            " Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!"
                                                                         ( Lc 23, 34)
   No último domingo ocorreu em São Paulo, a parada do orgulho gay. E no meio do protesto um ato que ofendeu algumas facções radicalizadas e fundamentalistas do cristianismo.
    Onde uma transexual fez a performance de Jesus crucificado e sob a cabeça estava  a inscrição de " Basta Homofobia GLBT", onde alguns se sentiram ofendidos pelo ato da transexual. Eu como cristão e católico praticante não me ofendi com a imagem da crucificação.
    Para mim ela além de ser um protesto foi um grito para nos chamar a dura realidade dos crucificados do nosso tempo e do nosso país que está cada vez mais retrogrado, conservador e fundamentalista.
     Jesus é crucificado diariamente em nosso país e assume muitos rostos, como tem dito os nossos bispos latino americanos, diversas vezes nas suas conferências em Puebla, Santo Domingo e Aparecida, de que Jesus tem diversos rostos, como sem terra, sem teto, desempregados, indígenas, negros, mulheres, imigrantes, refugiados, presidiários, menores abandonados e porque não dizer também os homossexuais.
    Pessoas estas que são estigmatizadas pela sociedade e por nós cristãos. Quantas vezes nós não os estigmatizamos e não demos o nosso testemunho de cristãos.
   Como nos fala Mohandas Karamchan Gandhi, " Eu seriá cristão, sem dúvida, se os cristãos o fossem vinte e quatro horas por dia". O que não acontece e nós não mostramos aos outros a verdadeira mensagem e imagem de Jesus que viveu e pregou o Amor.
   Jesus em sua vida terrena não andou no meio de pessoas de bem, mas foi para o meio dos marginalizados da sociedade de seu tempo como as prostitutas, pecadores, leprosos e os cobradores de impostos ( corruptos), aqueles que eram considerados " esse povinho maldito que não conhece a Lei" ( Jo 7, 49) pelos lideres religiosos de seu tempo. E que morreu como um amaldiçoado entre dois ladrões.
   O gesto da transexual condenado pelos religiosos como uma blasfêmia a fé cristã, por aqueles que sempre condenaram as encenações da paixão feita pelos católicos. Ali naquele gesto está o desespero de toda a comunidade GLST, que são diáriamente assassinados nas ruas e esquinas do nosso país. O Brasil é um dos países que mais assassinam e humilham homossexuais no mundo.
   É um grito para nós cristãos a nos chamar a dura realidade, onde pregamos o amor de um lado e ao mesmo tempo incentivamos o ódio e a marginalização dos outros, os chamando e considerando como doentes, e querendo a sua cura.
   Nos esquecemos que " Deus nos fez a sua imagem e semelhança", " para que neles se manifestem as obras de Deus" e " que todos nós somos filhos e filhas de Deus" (  Gn 1,27; Jo 9,3 ; I Jo 3, 1ss).
    Onde muitos desses irmãos e irmãs, foram expulsos das Igrejas, comunidades cristãs, rejeitados pelas famílias em nome da moral e dos bons costumes e sofrem toda a forma de violência e atrocidades.
    Devemos entender que quem sofre se sente como Jesus na cruz e se identifica com ele. O gesto da transexual na cruz deve ser visto como um apelo para nós cristãos de nos converter e ver no outro a imagem do crucificado.
    Que é crucificado diariamente nos irmãos sofredores por causa do nosso ódio.
    Vivemos num país de maioria cristã a onde não vivemos de fato e nem de direito o maior mandamento deixado por Ele, " Amem -se vos uns aos outros, assim como eu amei vocês" (  Jo 14, 12).
    Onde está o testemunho de amor de nós cristãos, diante da dor desses irmãos?, como podemos ser cristãos se em cada 24 horas um homossexual é morto no Brasil; uma em cada 3 mulheres já tenha sofrido algum tipo de abuso sexual?. E recebemos o triste prêmio de que 39% de assassinatos de transexuais acontece em nosso país, algo em que nós cristãos devemos nos envergonhar e pedir perdão por este pecado que branda aos céus.
   Em que o grito dos crucificados, desesperados  do socorro que não vem de nenhuma parte, cuja única esperança é o céu, como fez Jesus na cruz.
    A cruz é um simbolo da fé, da resistência, de sofrimento e da presença de Jesus Cristo no meio do povo. Mais que um símbolo, a cruz ajuda a construir uma mística de resistência aos sofrimentos inerentes á vida de quem sofre e uma comparação com as perseguições e a luta de Jesus com os poderosos de seu tempo para mostrar um caminho novo.
   Hoje os homossexuais são também a feição sofredora de Cristo, o Senhor, que nos questiona e nos interpela, querendo ser ouvido, escutado, amado e respeitado como são.
   Jesus no olhar e no rosto desfigurado dos homossexuais nos chama a dura realidade, " Em verdade eu vos declaro, todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos foi a mim que fizestes" ( Mt 25, 45).
   Como podemos dizer que amamos a Deus que não vemos se nós desprezamos, ferimos e somos causa de queda para os irmãos, que vemos.
   Está mais do que na hora de nós cristãos deixarmos de ser hipócritas e pedir perdão pelas vezes que ferimos o outro por causa de sua orientação sexual e gênero, somos causadores de sofrimento e morte.
    O protesto de transexual crucificada não me ofende como cristão, mas me chama a conversão de ver o outro como um irmão e irmã, o outro eu que merece o meu respeito e amor. De que devemos acolher e respeitar o outro como ele é.
   E mostrar aos homossexuais que Deus os ama e os fez a sua imagem e semelhança e que não os excluí na sua família,pois Deus é Amor.
    Pois nós crucificamos Jesus hoje de novo no irmão que sofre todo o tipo de discriminação.

5 de jun. de 2015

Festa de Quinta- ferira.

 FESTA DE CORPUS CHRISTI
                                              Júlio Lázaro Torma
                                              " Elevo o cálice da minha salvação,
                                                invocando o nome santo do Senhor"
                                                                  ( Sl 115 ( 116), 13)
  Celebramos a Festa de Corpus Christi, onde lembramos solenemente o mistério da Eucaristia, o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo.
   Em cada Missa e celebração, o celebrante nos recorda " Felizes os convidados para a ceia do Senhor", somos convidados a nos sentar na mesa Sagrada, sentar a mesa é nós ter afinidade com o dono da casa, que nos convida a sentarmos na sua mesa.
   Para os primeiros cristãos, a " Missa" e " Eucaristia", eles chamavam de " Ceia do Senhor" e também a " mesa do Senhor". Eles tinham ainda muito presente na memória que celebrar a Eucaristia não é senão atualizar a ceia que Jesus compartilhou com os seus discípulos na véspera de sua execução.
   Mas como nos falam os exegetas, aquela " última ceia", foi só a última de uma longa cadeia de refeições e ceias que Jesus costumava celebrar com todo o tipo de pessoas.
   Para o povo hebreu a mesa, a refeição é o local sagrado, onde se reúne a família para cear e agradecer o alimento que é o dom de Deus. A mesa principalmente no sábado era o local da refeição, da celebração, de rezar, ouvir palavra de Deus e de conversar longamente após a ceia.
   O hebreu não ceava com qualquer um, não se sentava com qualquer um. Não se come com estranhos ou desconhecidos. Muito menos com os pecadores e pessoas impuras.
    Como dividir o pão com pessoas que não conhecem a  Deus e vivem longe de sua palavra e seus mandamentos.
    Jesus em sua vida, vai contra a corrente, na contra mão, ele se senta na mesa, com os pecadores, com as prostitutas, cobradores de impostos, pessoas consideradas indigestas pela sociedade e pela religião oficial de seu tempo.
    Onde Jesus mostra o amor de Deus para com o seu povo. Pois para com ele não a distinção e que todos são chamados a sentar na mesa do amor e que a sua mesa é acessível a todos. E que a mensagem de Deus é para todos. E que todos cabem dentro do coração amoroso de Deus.
    Passados vinte séculos da Instituição da Eucaristia, a celebração da Eucaristia, virou algo piedoso e até celeto, onde são convidados a sentar a mesa, os " piedosos, os puros" e as vezes dizemos, ' quem esta preparado se aproximem do altar" e excluímos os outros, parecendo que estamos julgando quem pode chegar perto e fazer parte da vida de Jesus.
    Nos esquecemos as palavras de Jesus: " que quem precisa de médico são os doentes e não os são" ( Mt 9,12), como vamos julgar os outros e não deixamos que se aproximem da mesa sagrada?
     Todos nós somos convidados a " ceia do Senhor" e a " sentar a mesa". Mesa esta que não deve haver exclusão, e que todos principalmente os pecadores, humilhados, fracos e abatidos devem se aproximar da " grande ceia do amor", que continua acessível á todos como sempre.
    A  Eucaristia é para pessoas abatidas e humilhadas que anseiam por paz e alívio; para pecadores que buscam perdão e consolo, para pessoas que vivem o coração faminto de amor e amizade ( José Antonio Pagola).
    Jesus não vem ao altar para os justos, mas para os pecadores, não para os sãos mas para os doentes ( Mt 9, 12-13).
         Mc 14, 12-16,22-26

3 de jun. de 2015

Geração Cabeça Baixa

Publicado por Frei Elton Caires Santos 
GERAÇÃO “CABEÇA BAIXA”
É bom que se diga que a tecnologia não é coisa de hoje. Não foi Bill Gates que lha inventou. Conforme suas origens na Grécia Antiga, a tecnologia é o conhecimento científico (teoria) – teoria quer dizer ver com o espírito - transformado em técnica (habilidade). “A tecnologia envolve um conjunto organizado e sistematizado de diferentes conhecimentos científicos, empíricos e até intuitivos, voltados para um processo de aplicação na produção e na comercialização de bens e serviços” (GRISPUN, 1999, 49). Isso quer dizer que todas as gerações vivem a sua tecnologia. Antigamente, uma geração era definida a cada 25 anos. Nos tempos atuais, no entanto, não é preciso esperar muito e - afirma-se - que a cada 10 anos surge uma nova geração. Nesse sentido, a história registrou a Geração Baby Boomer (os nascidos após a Guerra de 1945), a Geração X (geração diretas já e o fim da ditadura), a Geração Y (a geração da tecnologia e da inovação a qualquer custo) e a Geração Z (os jovens nascidos na década de noventa do século passado, cujo perfil é imediatista, com características nano tecnológicas). Como uma espécie de subgrupo da geração Y e Z, surge a “Geração Cabeça Baixa”. Não entenda “cabeça baixa” como uma atitude de respeito ao interlocutor, atenção aos mais velhos ou uma obediência cega, muito pelo contrário. A Geração “Cabeça Baixa” é imposição, é aquela que não olha no olho porque não tira o olho do seu brinquedo eletrônico (iphone, ipad, tablet e todas as mídias digitais). Essa geração está estabelecendo uma relação interpessoal com as coisas e uma relação coisificada com as pessoas. Que paradoxo! Não se levanta a cabeça para falar com o outro porque o entretenimento privativo é a regra maior. Afinal de contas, hoje, no Brasil, por exemplo, tem mais celular habilitado do que gente registrada nos Cartórios de Pessoas Naturais. Foi-se observado – pasmem!- que as pessoas se reúnem em bares, eventos sociais e até casais em momentos de intimidade, mas não são capazes de conversar viva voz, de estabelecer uma comunicação direta, e sim mediante as ferramentas digitais oferecidas pelo mercado, muitas vezes em tom de exibicionismo, exclusividade e, por conseguinte, status. Hoje, já é possível observar uma roda de amigos e cada um – em silêncio – com o seu instrumento eletrônico mais moderno, última geração, teclando com aqueles que estão longe. E aqueles que estão próximos? A verdade é que não basta ser alfabetizado e conhecer os “ícones” para dominar a tecnologia, precisa-se, de fato, de uma educação tecnológica que deixe on line as pessoas de longe e, sobretudo, as pessoas de perto. Portanto, a “Geração Cabeça Baixa” está encurvada diante de si mesma ou, o que é pior, está adorando o digital em detrimento do analógico, o ser humano. Aqui, analógico quer dizer, a terapia do abraço, da atenção, do cafuné, do bom dia, do “verdadeiro mundo real”, da pessoa humana em “tempo real”. Por isso, é preciso viver de cabeça erguida, com os olhos fixos na verdadeira vida, que está n’ Ele, o Ressuscitado, vivo e glorioso. Com isso, faz-se eco a um bordão de um famoso radialista chamado Newton Moura Costa, que hoje surge como um apelo: “Levante a cabeça. Não esmoreça. Pra frente é que se anda!”
Sobre o autor

Frei José Jorge Rocha

Professor na Universidade Católica do Salvador, Formador do Pós-Noviciado I e II, Guardião da Fraternidade Frei Urbano em Salvador-BA.

1 de jun. de 2015

Qual utopia? O que fazer?

Por: Frei Betto
fonte: http://www.cnlb.org.br/portal/qual-utopia-o-que-fazer/

Essas duas interrogações movimentam os grupos de oração que assessoro. Diante da depressão cívica que assola o Brasil, há que recorrer à lâmpada de Diógenes e buscar luz no fim do túnel.

Utopia significa quimera, o que não se pode alcançar. Eduardo Galeano a comparou ao horizonte: quanto mais se caminha rumo a ele, mais ele se afasta. No entanto, ele norteia os nossos passos. O termo foi cunhado por Thomas Morus, santo católico, no livro de mesmo título publicado na Inglaterra, em 1516.

“Que fazer?” é o titulo do livro de Lênin, editado em 1902 para motivar os comunistas russos à revolução vitoriosa em 1917.
As duas indagações nos interpelam hoje. Responder à primeira não é difícil: queremos outros mundos possíveis, onde não haja injustiça e no qual sejam partilhados os frutos da Terra e do trabalho humano. Só à poderosa minoria que desfruta da desigualdade social não interessa o colapso do capitalismo neoliberal.
Os cristãos, em decorrência de sua fé, têm a obrigação moral de não se conformar com esse mundo. Devemos centrar a esperança no Reino de Deus que, para Jesus, não era apenas uma instância pós-morte, mas um projeto a se realizar no futuro histórico.
Por isso, Jesus foi condenado como prisioneiro político. Pregou, sob o reino de César, outro reino…
Porém, “que fazer?” É mais fácil listar o que “não fazer”: compactuar com a opressão e a corrupção; aceitar discriminações; sobrepor a competitividade à solidariedade; ferir a ética e contrariar os direitos humanos etc.
Quanto ao fazer, cabe a cada um, dentro de seu contexto e segundo suas possibilidades, dar respostas efetivas. Considero tarefa imediata organizar a esperança. Reforçar movimentos sociais que defendem os direitos dos mais pobres, animar jovens a abraçar a utopia, fomentar educação popular na formação de novos protagonistas sociais.
É preciso resistir à tentação de descartar o partido político como mediador entre sociedade civil e Estado. Para equacionar problemas de convivência social, o ser humano ainda não inventou outro recurso melhor do que a política. Quem tem nojo da política é governado por quem não tem. E tudo que os políticos safados esperam é que tenhamos bastante nojo da política.
Para mediar a relação sociedade civil e Estado também não se criou outra instância melhor fora dos partidos. São eles que sistematizam nossos anseios de cidadania em programas e projetos a serem administrados e realizados pelo Estado.
Se um partido desce ladeira abaixo após perder a identidade que o diferenciava, para melhor, dos demais partidos, não haverá quem acione a luta interna para que o partido retorne a seus princípios originários?
Os novos partidos serão capazes de evitar os erros cometidos pelos que trocaram o projeto de Brasil pela ambição de poder?
Repito: é hora de deixar o pessimismo para dias melhores. O mistério pascal ensina que a vida sempre prevalece sobre a morte, ainda que as aparências indiquem o contrário.

 Frei Betto
é escritor e religioso dominicano. Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Foi assessor especial da Presidência da República entre 2003 e 2004. É autor de “Batismo de Sangue”, e “A Mosca Azul”, entre outros.

20 de mai. de 2015

Romero, o Bispo que morreu pelos pobres

Artigo de Gustavo Gutiérrez 
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br
Dentro de alguns dias, no dia 23 de maio, Dom Romero será beatificado. A um mês do assassinato, ocorrido em março de 1980, o maior expoente da teologia da libertação, Gustavo Gutiérrez, com lucidez, indicava a exemplaridade da vida e da morte do bispo de El Salvador. Foram necessários 35 anos para que a Igreja oficial chegasse a conclusões semelhantes.
Era assim que o vaticanista italiano Giancarlo Zizola apresentava o artigo abaixo na editoria "Religião e mundo moderno", por ele editada no jornal Il Giorno, publicado em 26-04-1980: "Gustavo Gutiérrez, da Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lima, um dos maiores expoentes da 'teologia da libertação' da América Latina, aprofunda neste artigo o significado da vida e do martírio de Dom Romero, do qual era amigo, oferecendo amplas informações inéditas".
A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
O assassinato de Dom Óscar Arnulfo Romero, arcebispo de San Salvador, é, sem dúvida, uma data na vida da Igreja latino-americana.
Por isso, convém aprofundar o sentido da sua vida e da sua morte, esclarecendo ao mesmo tempo algumas imprecisões produzidas pela pressa da informação.
Dom Romero foi arcebispo de San Salvador por três anos. Um mês depois de ter assumido esse cargo, em março de 1977, era assassinado o padre Rutilio Grande, sacerdote jesuíta e grande amigo de Dom Romero. Atiraram nas costas dele e de dois agricultores, enquanto ia celebrar a missa.
Durante a celebração do funeral do padre Rutilio, Dom Romero mostrou o significado da sua morte, expressão de uma vida dedicada aos irmãos, no amor ensinado por Cristo, afirmando: "Esperamos a voz de uma justiça imparcial, porque, na motivação do amor, a justiça não pode ficar ausente, não pode haver verdadeira paz e verdadeiro amor com base na injustiça, na violência, na intriga". Dom Romero repetiria muitas vezes essa mesma ideia: a paz, a verdadeira paz só pode ser construída sobre a justiça social.
Quatro outros sacerdotes seriam assassinados em El Salvador depois da morte do padre Rutilio. Inúmeros foram os assassinatos cometidos pelas forças repressivas de El Salvador, entre agricultores, operários, pessoas dos vilarejos; o Socorro Jurídico do arcebispado publicava boletins periodicamente, dando números e denunciando a contínua violação dos direitos humanos.
Em Roma, onde recebeu palavras de apoio do Papa João Paulo II – que lhe disse: "Conheço a grave situação do seu país e sei que o seu apostolado é muito difícil" –, Dom Romero afirmava com grande lucidez no dia 30 de janeiro: "O maior perigo diante de tanta violência é que fiquemos insensíveis. Eu tento pensar diante de Deus que um só morto representa uma grave ofensa e que, todas as vezes que um homem ou uma mulher morre, é como matar novamente Jesus Cristo".
Dom Romero tinha uma consciência clara de que devia reconhecer os estigmas sofredores de Cristo nos rostos dos pobres do seu povo. A sua opção por eles é o ângulo concreto e histórico que nos permite compreender o seu compromisso e a sua mensagem, o seu apelo à paz baseada na justiça, a sua leitura do Evangelho.
Dom Romero pregava todos os domingos, e as suas amplas homilias (de uma a duas horas de duração) eram ouvidas com atenção em todo o país e também muito além. Cada homilia tinha três partes: um comentário sobre os textos da missa do dia, uma reflexão cristã que colocava esses textos no rastro de um tema determinado e, por fim, aplicações pastorais, leitura de cartas, análise da situação vivida pelo povo, denúncia das violações dos direitos dos mais pobres.
No dia 17 de fevereiro daquele ano, ele enviou uma carta ao presidente Carter, denunciando a situação existente em El Salvador e o apoio dos Estados Unidos, exigindo que o governo estadunidense, chamado a fazer essas intervenções, se abstivesse de intervir.
Dom Romero muitas vezes recebeu ameaças de morte. O assassinato dos sacerdotes salvadorenhos já era um aviso. No dia 24 de fevereiro, um mês antes da sua própria morte e depois de ter defendido com parcialidade evangélica os direitos dos pobres, ele dizia: "Espero que esse apelo da Igreja não endureça ainda mais o coração dos oligarcas, mas que, ao contrário, mova-os à conversão. Compartilhamos o que eles são e o que eles têm. Não nos calem, mediante a violência, a nós que tornamos presente essa exigência, não continuem a matar aqueles que estão tentando conseguir uma distribuição mais justa do poder e da riqueza de nosso país".
A essa clara denúncia, que não escondia aqueles aos quais se dirigia, ele acrescentava com serenidade e força: "Falo em primeira pessoa, porque esta semana recebi um aviso de que estou na lista daqueles que serão eliminados na próxima semana. Mas estou tranquilamente convicto de que nunca se poderá matar a voz da justiça".
A voz da justiça, não, porque ela continua ressoando em El Salvador. Mas ele, pessoalmente, sim, depois de quatro semanas de ter pronunciado essas palavras. Pode-se dizer, por isso, que Dom Romero arriscava a sua vida todos os domingos; e estava plenamente consciente disso.
Quando lhe disseram que ele tinha que se proteger, ele respondia que não queria ter a proteção que o seu povo não tinha. Ainda no sermão do dia 1º de novembro, ele tinha afirmado com toda a clareza e plena humildade: "Peço as orações de vocês para ser fiel à promessa de não abandonar o meu povo, mas de correr com ele todos os riscos que o meu ministério exige".
Com efeito, para Dom Romero, isso era cumprir o seu serviço como bispo. O exercício do seu ministério assumido com coragem e santidade provocou a bala assassina – uma única – no momento em que começava o ofertório da sua última e incompleta eucaristia, na segunda-feira, 24 de março.
Ele morreu para dar testemunho do Deus vivo na solidariedade com a vida e com os esforços de organização e de libertação dos pobres e dos oprimidos. Dom Romero não ignorava que havia alguns que não compreendiam as exigências do Deus da Bíblia.
No dia 9 de março, ele dizia: "Esta revelação do Deus vivo, caros irmãos, tem muita atualidade hoje, enquanto estamos tentando apresentar uma religião que muitos criticam como se se afastasse da sua espiritualidade".
O bispo mártir, homem de oração, não entendia isso dessa forma. Ao contrário, ele considerava que a fé no Deus de Jesus implica o compromisso com o pobre e com tudo o que exigem os seus direitos mais elementares. É por isso que, na sua rejeição humana e cristã da violência, nem tudo era posto no mesmo plano para ele.
Em inúmeras ocasiões, ele afirmou que a principal razão para aquilo que acontecia em El Salvador estava na secular situação de miséria e de desespero das grandes maiorias, resultado de um sistema opressivo feito em benefício de poucos.
Trata-se da violência e da injustiça institucionalizadas das quais falam Medellín e Puebla. A partir daí, não é possível aceitar tudo, e Dom Romero não o fez, mas importa levar isso em consideração para compreender a exigência e a encarnação do amor e da paz que ele pregava.
A essa situação de violência, soma-se uma repressão cruel. Plenamente consciente de onde vinha a violência, no dia 23 de março, Dom Romero lançou um grito angustiado e exigente: "Em nome de Deus e desse povo sofredor, cujos lamentos sobem ao céu todos os dias, peço-lhes, suplico-lhes, ordeno-lhes: cessem a repressão".
No dia seguinte, à noite, o seu sangue selou a aliança que ele tinha feito com o seu Deus, com o seu povo e com a sua Igreja.
No domingo, 30 de março, ocorreu o funeral do bispo mártir. O povo pobre de El Salvador, vencendo dificuldades e fadigas, veio de todo o país para assistir ao enterro do "monsenhor". Muitas pessoas vieram de fora, entre elas mais de 20 bispos de diferentes lugares do mundo.
O cardeal Corripio, do México, esteve presente em representação do papa; o enviado do Celam (o Conselho Episcopal Latino-Americano) teve um contratempo e não pôde estar presente na celebração. A tensão do momento fez com que só um bispo de El Salvador estivesse presente. Fato sem dúvida doloroso, mas que mostra a difícil e conflituosa situação que se vivia lá.
A poucos minutos do início da homilia do cardeal Corripio, explodiu uma bomba, e tiros foram disparados. Foi um pânico para as 150.000 a 200.000 pessoas presentes, famílias inteiras, inúmeras crianças. A soma dos mortos dessa incrível provocação foi de 30 a 40 pessoas, muitas delas por asfixia.
Na noite daquele domingo, os bispos presentes e outras pessoas se reuniram para pôr em comum o que tinham visto e tudo o que se sabia sobre o episódio durante o funeral. O resultado dessa análise detalhada foi escrito e assinado pelos participantes. Assim, recusou-se a versão dos fatos dada pelo governo salvadorenho e indicou-se o Palácio Nacional como o lugar de onde havia sido lançada a bomba e tinha se disparado sobre a multidão.
Dom Romero, então, só pôde ser enterrado nas circunstâncias em que o povo salvadorenho vive cotidianamente: no meio das balas, do medo que se busca incutir, mas também da reafirmação da vontade de libertação e de crescimento da esperança.
Dom Romero é um mártir da opção feita pela Igreja em Medellín e Puebla. A partir da sua morte, o significado dessa opção apareceria mais claramente. Um mártir que dá testemunho do Deus vivo em meio à morte que os opressores semeiam. Mártir do nosso tempo, cristão incômodo e forte, de vida clara, humilde e serena. A sua morte, infelizmente, não é um fato isolado e nos permitirá compreender muitas outras testemunhas espalhadas neste continente de dor e de opressão, mas também de libertação e de esperança, que é a América Latina.
Sobre o sangue dos mártires, constrói-se a Igreja como comunidade que anuncia na Ressurreição a vitória final. da vida sobre a morte. Sobre o sangue dos mártires, está sendo construída no nosso subcontinente uma Igreja em meio a um povo que luta pela sua libertação.
Dom Romero descrevia assim o seu trabalho, em uma homilia: "O meu trabalho consistiu em manter a esperança do meu povo. Se há um pouco de esperança, o meu dever é alimentá-la".
A sua vida e o seu martírio alimentam e aumentam as esperanças do povo pobre, explorado e cristão da América Latina, dão vida nova e impõem novas exigências para a Igreja ali presente.

17 de mai. de 2015

Dá nos um pouco da Tua àgua

                                      Júlio Lázaro Torma*
                                             " Para que todos sejam um"
                                                               ( Jo 17,21)
    A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos é tradicionalmente celebrada entre os dias 18 e 25 de janeiro. Entre as festas da Cátedra de São Pedro e a Conversão de São Paulo,( hemisfério norte) e em torno de Pentecostes no hemisfério sul.
    Neste ano o tema é tirado do Evangelho de São João, do encontro de Jesus com a samaritana, no poço de Sicar, onde Jesus humildemente pede água;" Dá me de beber" ( Jo 4,7).
   O tema é proposto pelo CONIC ( Conselho de Igrejas Cristãs), que congrega as Igrejas Católica Apostólica Romana, Católica Síriana Ortodoxa, Presbiteriana Unida, Episcopal Anglicana do Brasil, Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.
   Que vem ao encontro da oração de Jesus " para que todos sejam um" ( Jo 17,21) e como fala o Concílio Vaticano II, que a " oração é alma de todo o movimento ecumênico" ( UR 8).
   Dá nos um pouco da tua água, nos remete as palavras de Jesus, " Mas a água que eu lhes der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna" ( Jo 4,14). Esta é a nossa sede a busca de Jesus e de vivermos a unidade dos discípulos de Jesus para sermos de fato um, como Ele e o Pai são.
    A unidade das Igrejas só acontecerá de fato quanto houver amor e acolhida entre a diversidades de religião, etnia e cultura.
   O povo brasileiro é conhecido pela cordialidade e também religioso, onde 86,8% da população se declará cristã.
    Mesmo tempo em que somos a maioria cristã da sociedade, vemos crescer atos que vão contra os princípios ensinados e vividos por Jesus, como a intolerância religiosa principalmente contra as religiões de matriz africanas e indigenas.
    Tais atos tem crescido nos últimos vinte anos praticados por fundamentalistas religiosos.
     O fundamentalismo e a intolerância religiosa são frutos do " mundanismo espiritual leva alguns cristãos a estar em guerra com outros cristãos que se interpõem na sua busca pelo poder, prestígio, prazer ou segurança econômica" ( E.G, 98).
    Enquanto isso a intolerância e a violência estatal e normativa cresce no país, como os atos racistas, xenofóbicos, a violência contra os homossexuais, mulheres, povos indígenas, extermínio da juventude negra e pobre das periferias das cidades, a violência no campo e a intolerância política e religiosa que tem dividido as famílias, pessoas e levado há óbito.
    Como podemos ser um país cristão se não vivemos de fato a mensagem de Jesus?, a intolerância religiosa e o fundamentalismo religioso destrói a mensagem de Jesus e cria uma antipatia naqueles que não conhecem Jesus e nem vivem a sua mensagem.
    Diante da intolerância religiosa nós cristãos discípulos de Jesus somos chamados a testemunhar o Amor de Deus para com a humanidade através da acolhida as mais diversas expressões religiosas, étnicas, culturais e de pensamento, pois o cristão é o mensageiro da Paz e do Amor.
    Mais uma vez o mundo nos pede testemunho e só haverá paz no Brasil e no mundo se houver paz entre as religiões.
     Pois como cristãos de diferentes tradições devemos dar o nosso testemunho de amor e de acolhida, ao mundo,pois como escrevia Tertuliano, sobre os primeiros cristãos, " Vede como se amam".
______________
  * Membro do colegiado da Pastoral Operária Nacional

16 de mai. de 2015

O pluralismo religioso como desafio para a teologia

fonte:  fteixeira-dialogos.blogspot.com.br
Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF

O inclusivismo religioso tem raízes profundas e solidificadas na tradição teológica cristã. É muito difícil romper essa impermeável barreira que obstaculiza a abertura sincera para as outras tradições religiosos, no que elas tem de irredutível e irrevogável. Não há como honrar a singularidade das religiões mantendo uma perspectiva de superioridade, seja explícita ou mais sutil. Nesses últimos decênios temos verificado no âmbito da conjuntura eclesiástica católica uma crescente afirmação de posicionamentos que confirmam essa perspectiva restritiva. Vale mencionar a homilia proferida pelo papa Bento XVI na abertura da Assembléia Especial para o Médio Oriente, em 10 de outubro de 2010. O papa reconhece a presença de uma salvação universal, que passa porém por uma “mediação determinada, histórica: a mediação do povo de Israel, que depois se torna a de Jesus Cristo e da Igreja”. Há uma “porta” definida e necessária para que o evento da salvação aconteça de fato. Essa idéia é recorrente e firmada na tradição católico-romana, com um significativo aporte da reflexão teológica. São poucos os teólogos que se aventuram numa reflexão distinta, e aqueles que o fazem encontram duras barreiras para a continuidade de sua “livre” reflexão. Vivemos, infelizmente, um tempo marcado pela afirmação das identidades, e não da disponibilidade dialogal. O caminho tradicionalmente traçado vai na linha da exigência evangelizadora explícita, ou de uma nova evangelização, para tentar frear a crise que envolve o campo cristão nessa alvorada do terceiro milênio. A recente criação de um Pontifício Conselho para a Nova Evangelização é expressão desse novo momento, como uma exigência que deve animar corações e mentes.
Nós, que acreditamos num pluralismo de princípio caminhamos numa direção distinta. A idéia que nos anima é a do “inacabamento”. Estamos todos envolvidos numa “sinfonia sempre adiada”, para utilizar uma rica expressão de Christian Duquoc. Não há possibilidade de garantia alguma de posse da verdade ou do mistério. A verdade não é algo de que nos apropriamos como garantia, mas um mistério sempre aberto, pelo qual nos devemos deixar possuir (DA 49). Todas as religiões são “fragmentos” animados de forma diversificada por uma Presença Espiritual que é permanente surpresa. Trata-se de uma ilusão imaginar que cada um desses fragmentos está destinado a encontrar o seu acabamento numa dada tradição religiosa. Todos eles estão envolvidos pela maravilhosa liberdade do Espírito, que indica caminhos que são misteriosos e inusitados. Nada mais problemático que defender uma assimetria de princípio. Uma tal assimetria não consegue abarcar a “extraordinária diversidade das tradições” e muito menos honrar a dignidade da diferença. Na perspectiva defendida por aqueles que acreditam numa complementação, realização ou acabamento, o que há de valor nas outras tradições religiosas é sua “capacidade de abrir-se positivamente àquilo que ignoram”. Não se dá aí um respeito à sua identidade única e intransponível.
Para os que defendem um pluralismo de princípio, há uma convicção firmada de que Deus atua na história através de mediações distintas e diversificadas. E isso não prejudica em nada o compromisso que cada um deve assumir com a sua experiência específica de Deus. Como sublinhou Roger Haight, “a experiência cristã do que Deus fez em Jesus Cristo não se afigura diminuída pelo reconhecimento do Deus verdadeiro atuante em outras religiões”. Não há por que concentrar a mediação fundamental da presença salvífica de Deus numa única instância, ou numa única “porta”. O reconhecimento da verdade das religiões implica, necessariamente, uma abertura para percebê-las como canais verdadeiros da presença gratuita e misteriosa de Deus. As religiões são mediadoras da salvação de Deus. Se para o cristianismo a mediação basilar da presença e da salvação de Deus à humanidade vem identificada com a pessoa de Jesus, e isso define existencialmente e confessionalmente a perspectiva cristã, isso não exclui outras formas dessa mediação divina na dinâmica das outras religiões. A mediação pode ser ali um livro, um evento, um ensinamento ou uma práxis. Há, portanto, diversos caminhos de acesso ao Mistério maior, que os cristãos nomeiam como Deus. Há ainda que acrescentar que o reconhecimento da presença do Mistério Maior nos outros confere uma nova perspectiva para a identidade. Não há como firmar a identidade religiosa num tempo plural, excluindo o apelo que vem do mundo do outro. A fé cristã, por exemplo, como mostrou Adolphe Gesché, necessita de uma interface ou de um “lugar fora de sua residência” para o exercício de sua realização. Ela se vê hoje desafiada não apenas pelo diferenciado mundo das religiões, mas também pelo enriquecedor universo das distintas opções espirituais, sejam religiosas ou não.