
Primeiramente, deixemos claro que Deus é transcendente, é
inacessível, é mistério para o ser humano. Desse modo, nunca poderá ser
experimentado como algo na forma de um "objeto", como se dá
normalmente no conhecimento e no amor humano. Deus é quem nos sustenta na
existência, quem nos
faz conhecer, quem nos possibilita amar. "Se vivemos pelo
Espírito, andemos também sob o impulso do Espírito" (Gl 5,13; ver
2Cor 3,6; Rm 8,2). A ação salvífica de Deus em nós, que nos leva "para
fora" de nós mesmos em direção ao outro, que nos faz realizar o amor, é
onde Deus pode, de algum modo, ser por nós "atingido",
"experimentado". Porém, como o amor acontece sempre entre pessoas, é
nessa relação interpessoal que Deus se faz presente e, de certo
modo, percebido pelo ser humano.
Este estar-voltado-para-o-outro, que caracterizamos como amor
fraterno, pode constituir a atitude fundamental do que
ama e, neste caso, ele significa a totalidade da pessoa que se doa,
identificando-se com sua orientação profunda de vida. Esse amor pode ser também
apenas mais uma opção naquele que se encontra ainda no processo de libertação de sua liberdade
profunda, ato este que busca em sua própria realidade esta libertação, pois sua
razão de ser é o "outro", e não o próprio eu. De qualquer modo, é
somente aí que a pessoa humana tem uma experiência do que seja amor,
a saber, confiança total no outro e aceitação do risco que isto
implica. Somente aí tem ela ( a pessoa) uma experiência de Deus, enquanto
acolhe seu dinamismo salvífico, enquanto capta a ação do Espírito Santo que a capacita
para este acolhimento. Somente aí sabe a pessoa o que significa então amor
a Deus. O amor autêntico a Deus não pode prescindir da experiência do
amor humano autêntico.
Assim podemos concluir que o ágape cristão é
simultânea e necessariamente amor a Deus e amor ao próximo. Por tudo o que ele
implica e exige tem o amor fraterno uma referência total e intrínseca ao
amor a Deus, à nossa liberdade profunda, à nossa justificação. Ele é, de fato,
acontecimento salvífico por excelência, pois todos os outros atos de virtude
estão apenas preparando, expressando ou fazendo crescer esse amor fraterno. O
próprio ato de amor a Deus, formulado posteriormente, está fundamentado nessa
experiência mais primordial do amor fraterno. Só nela sabemos o que é amor, o
que é a doação total e confiante ao mistério do outro. Só nela sabemos quem é
Deus, que nos ama e se entrega a nós em seu Espírito. Só nela sabemos se esse
amor a Deus é autêntico ou se não passa de palavras vazias.
Pela caridade o cristão ama com o mesmo amor com que Deus ama.
Essa comunhão de vida com Deus é que lhe dá o conhecimento de Deus. Essa vida,
que é a mesma vida no seio da Trindade, é real, embora escondida. O cristão
vive as mesmas realidades humanas que outros, mas as vive no dinamismo do amor.
É a maneira divina de vivê-las. Mas a vivência da caridade não é fácil nem
imediata. Supõe oração e exige mudança no modo de olharmos os outros. Dar sem
esperança de volta, dar gratuitamente como fez Jesus, sem reivindicar direito
algum. "Amai-vos como eu vos amei" (Jo 13,34).
Daí podemos concluir que, do ponto de vista salvífico, que é o
mais central para a fé cristã, o amor fraterno (que inclui
necessariamente o amor a Deus) se reveste de tal importância que todos os
demais atos bons, todas as demais expressões cristãs lhe são subordinadas e
dele recebem sentido e pertinência. Como expressa magistralmente Santo
Agostinho: "O fim de tudo é a caridade, e Deus é caridade. Este é o fim, o
objetivo. O resto é caminho. Não te prendas ao caminho com o risco de não
chegares ao fim. Busca onde passar, não onde ficar".
O resultado a que chegamos nos mostra que o Deus de Jesus
Cristo se encontra menos nos recintos sagrados do que no compromisso
desinteressado do homem com seu semelhante. Essa importante conclusão
vem claramente confirmada no Novo Testamento. O mandamento do amor a Deus
aparece sempre unido ao mandamento do amor ao próximo (Mt 22,39s; Mc
12,31). Mais ainda, o nosso comportamento diante do nosso semelhante
necessitado será critério decisivo para nossa salvação, pois Deus
com ele, de certo modo, se identifica, como nos mostra a cena do juízo final
(Mt 25,34-46).
Daí as afirmações incisivas do apóstolo Paulo de que o amor
fraterno é a realização plena da lei (Rm 13,8-10; Gl 5,14), o vínculo da
perfeição (Cl 3,14), o carisma supremo (ICor 12,31). Daí a importância única do
amor fraterno para a fé cristã, como expressa S. Paulo no hino à caridade (ICor
13,1-13). Daí também as profundas conclusões de S. João. Primeiramente, ao afirmar
que Deus nos amou para que nos amássemos uns aos outros ( l Jô 4,11), indicando
assim que respondemos ao amor de Deus amando nosso próximo. Em seguida ao declarar que Deus é
transcendente e que só "está em nós" no amor fraterno. "A Deus,
ninguém jamais contemplou. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós
e seu amor se consuma em nós" ( l j o 4,12). Essa é a obra do Espírito de
Deus em nós ( l j o 4,13). O amor fraterno é assim critério de autenticidade do
nosso amor a Deus. "Quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a
Deus, a quem não vê. É esse o mandamento que dele recebemos: o que ama a Deus,
também ame a seu irmão" ( l Jo 4,20s).
Até aqui vimos que a salvação de Jesus Cristo consistia em
libertar nossa liberdade para o amor (a Deus e ao próximo). No ponto a que
chegamos, podemos precisar mais essa afirmação. A salvação de Jesus Cristo,
enquanto realidade em nós, é a nossa liberdade libertada na doação
concreta do amor fraterno. De fato, a graça só é realidade no ser
humano quando aceita, e esta aceitação se dá no compromisso desinteressado com
o próximo. Só no amor concreto triunfa a ação salvífica de Deus e
simultaneamente se liberta nossa liberdade. "O contrário do amor não é, como muitas vezes
se pensa, o ódio, mas sim o medo de amar, e o medo de amar é o medo de ser
livre" (D. Pedro Casaldáliga).
Também já nos deve ser claro que a expressão "estado de
graça" é incompleta para descrever a atitude profunda cristã. Pois essa
atitude, por se fundamentar no amor fraterno vivido, é uma grandeza viva, num
processo de crescimento ou de diminuição, conforme a nossa reação diante do
próximo necessitado. Seria, portanto, mais bem caracterizada como o dinamismo
do Espírito de Deus acolhido por nós e que nos impele ao amor. Essa é a
nova lei, interna, que nos move de dentro e que é distinta das normas externas,
as quais não deveriam ser multiplicadas para que não voltemos ao Antigo Testamento,
como observava com agudeza Tomás de Aquino (S.Th. I - I I , q.107 a.4).
Portanto, não se trata de "praticar mandamentos", o que poderia nos
levar a conceber de modo demasiado estático a nossa resposta à oferta de Deus.
Trata-se, isto sim, de correr o risco do amor, que é, afinal, o risco de ser
cristão.
Outra conclusão que se impõe diz respeito ao objetivo
último de toda e qualquer ação pastoral da Igreja. Depois dessas
considerações deve ter ficado bem claro que este objetivo só pode ser o de levar
homens e mulheres a viverem, sempre com maior verdade e autenticidade, o amor
fraterno. Uma ação evangelizadora que não seja movida por essa finalidade nem
merece o nome de cristã, por mais que possa impressionar pela sua organização
perfeita, formação teológica, beleza litúrgica ou prática sacramental.
AGOSTINHO, STO. Comentário da Primeira Epístola de São João,
S. Paulo, Paulinas,
1989
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