25 de abr de 2016

A misericórdia na visão Franciscana

Publicado por Frei Rui Apoliano | 13/04/2016 - 00:01
Introdução

Em Francisco de Assis, a misericórdia tem um alcance extraordinário. Refere-se, sobretudo, ao amor-compaixão que abarca o ser humano e todas as criaturas. É a expressão singular daquela ternura que supera os muros e as fronteiras do mundo egocêntrico. É algo que afeta e atinge o outro na sua totalidade. É um amor visceral, que se comove e se move, com dinâmica própria, na direção do homem irmão e da mulher irmã. Ultrapassa as formas e  estruturas instituídas. Procura o  outro,  independentemente de suas situações e condições sociais, econômicas, políticas, culturais e religiosas. Assim, estamos diante de uma expressão significativa inspirada na proposta do Evangelho, assumida por esse homem, que decidiu abrir mão de todos os privilégios, por força do amor maior.

1- “E eu tive misericórdia com eles”

O   percurso de conversão de Francisco está carregado de marcas e experiências importamtes. Desde o seu lugar, desde a sua família, ele passou por rupturas e mudanças pessoais sensíveis. As rupturas familiares, as renúncias aos prazeres da juvuntude, o abandono do círculo de amigos, os refúgios nos lugares solitários... Tudo isso são reflexos das mudanças internas e externas de Francisco.
As biografias nos relatam uma série de encontros significativos que nortearam o deslocamento, essa reviravolta na vida do jovem de Assis. Entre esses, o mais destacado é o encontro com o leproso (e demais leprosos). Essa experiência ficará impressa na vida do Poverello. Diante do desfigurado ele se deparara com a concretude do Crucificado, com quem se comunicara na capela de São Damião.  A experiência da sua conversão desencadeará a seriedade do seu  trabalho de restauro, desde a sua interioridade. Em seguida, trabalhará em favor de restaurar a verdadeira Igreja do Senhor.

A iniciativa de Deus mudará o rumo da vida do jovem da cidade de Assis. Novos horizontes serão abertos. O lugar de Francisco passará a ser outro, completamente diferente. A sua inserção entre os leprosos será um fator determinante na sua resposta ao chamado do Senhor e, ao mesmo tempo,  adquirirá um comprometimento específico no seu itinerário de conversão.

O Testamento acentua com força a iniciativa de Deus e a experiência do Poverello: “Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como estivesse em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles e enquanto me retirava deles, justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo. E depois disto demorei só bem pouco e abandonei o mundo.” (Test 1-3).

A leitura e o encontro com o Evangelho  (1Cel 22) levam Francisco a encontrar-se com o Cristo, vivo e crucificado, na pessoa do leproso. À época, essa determinação  significara o resgate do ser humano, deformado, sem nome, nem lugar na esfera social. O leproso não era considerado gente. Era um “selvagem” de chocalho no pescoço que provocava medo, nojo.

O caminho de Francisco está determinado por  mudanças sensíveis. Depois daquele encontro objetivo, ele vive  novo modo de pensar, perceber e sentir a vida. Tudo aconteceu por iniciativa do Senhor. Foi conduzido por Deus a fazer uma experiência radical da misericórdia. Superou, então, as barreiras do medo e do preconceito. Aproximou-se do irmão, relacionando-se com ele horizontalmente, frente a frente. Esse encontro significou, também, acolhimento da realidade humana, nua e crua. Foi nessa carne deteriorada que Francisco superou a amargura e a repugnância.

Por extensão, veremos que o confronto de Francisco com  as feridas  e as moléstias da realidade social do seu tempo transformara seu espírito de grandeza. Seus ideiais de prestígio e ascendência social, o status quo, mudaram de eixo e adquiriram nova roupagem. Não usará mais as vestes identificatórias de classe social,  luxuosas,  mas os “farrapos” dos marginalizados, dos mendigos, dos leprosos. Já em sua ida a Roma Francisco assumira essa mudança de vestes, quando se misturou aos mendigos, vestindo-se como eles (2 Cel 8; LTC 10; LM 1,6)). Esse confronto sugere o despojamento que cada franciscano e franciscana, hoje, precisa realizar.

A misericórdia é um jeito de andar na contramão das relações formais e preestabelecidades. É um não-conformar-se com as estrutras que marginalizam e jogam para o canto o irmão e a irmã, às vezes considerado inútil, cujo sustento custa muito caro às instituições do  sistema capitalista. A misericórdia implica uma mudança de mentalidade, um modo de entender e sentir a realidade e o mundo. Comprende  um olhar diferente, não a partir de uma organização social definida, mas a partir de um amor desentranhável da profunda humanidade de cada um.  Um olhar que não esbarra nas aparências, nos padrões estéticos, nos “modelos perfeitos” de homem ou de mulher.

Movido de  compaixão, Francisco apeou do seu cavalo (imagem representativa do orgulho, presunção, superioridade), abraçou e beijou o leproso (1Cel 17; LTC 11; LM 1,6). Não se trata de uma iniciativa organizada ou programada, mas de uma ternura insopitável. Desde então, não olhava o outro segundo  valores  das  aparências.  Ao contrário, sentia o outro próximo em toda a sua grandeza. A misericórdia de Francisco levou-o a perceber que o leproso é maior que a sua lepra; que o homem é maior que seus limites e que o irmão e a irmã são maiores que seus pecados. Porque o amor devolve ao ser humano o tratamento à altura da sua  dignidade.

Em suma, a experiência do Crucificado tornou Francisco capaz de coloca-se ao lado dos desfigurados do mundo.   Amadureceu  seu modo de pensar, sentir e perceber o outro, não mais com repugnância, mas sim com a vertigem de reconhecer um ser semelhante a Cristo, senão o próprio Cristo. Passou a tratar os sem lugar na esfera social – leprosos, bandidos, vagabundos... – como irmãos. E aquilo que antes lhe parecia amargo, transformou-se em doçura.  A  misericórdia superara o indiferença e o egoísmo do seu coração. O franciscano e a franciscana de hoje precisam fazer o mesmo caminho: “Sede misericordiosos como vosso Pai celeste é misericordioso” (Lc 6, 36).

2- “Não haja no mundo irmão que pecar, o quanto puder pecar, que, após ter visto teus olhos, nunca se afaste sem a tua misericórdia...”

A carta que São Francisco enviou a um Ministo, escrita entre os anos de 1221 e 1223,  é um extraordinário documento sobre a misericórdia,  estabelece grande ensinamento e nos aproxima do coração do Poverello. Nela, encontramos a chave evangélica para o exercício contínuo do amor fraterno no seio das fraternidades e no meio do mundo. Cada franciscano e franciscana não pode esquivar-se diante do irmão e da irmã que precisa de misericórdia. É  a missão mais relevante herdada pelos filhos e filhas de São Francisco de Assis.
O coração da Carta é este: “E nisto quero reconhecer se tu amas o Senhor e a mim, servo dele e teu. se fizeres isto: não haja no mundo irmão que pecar, o quanto puder pecar, que, após ter visto teus olhos, nunca se afaste sem a tua misericórdia, caso buscar misericórdia. Se não buscar misericórdia, pergunta-lhe se quer obter misericórdia. E se depois ele pecar mil vezes diante de teus olhos, ama-o mais do que a mim, para trazê-lo ao Senhor; e tenha sempre misericórdia desses irmãos.” (CtaM 9-11)

Os conselhos de Francisco se fundamentam na experiência da misericórdia do Senhor para com a sua pessoa. Considerava-se o maior pecador do mundo. Numa ocasião, Frei Masseo perguntou-lhe: “´Por que todo o mundo anda atrás de ti (...)? Não és homem belo de corpo, não és de grande ciência, não és nobre: donde vem, pois, que todo o mundo anda atrás de ti?´ E São Francisco disse: `(...) Isto recebi dos olhos de Deus altíssimo, os quais ... não encontraram entre os pecadores nenhum mais vil nem mais insuficiente, nem maior pecador do que eu...´” (Fioretti 10).

Certamente, a Carta a um Ministro faz  alusão a  muitas passagens dos evangelhos, como referências fundamentais  para o bom exercício da misericórdia.  Pois, sabemos muito bem, que ele costumava discenir as coisas e as situações da vida fraterna a partir dos conselhos evangélicos. À luz do Evangelho, ele crescia no amor e acolhia o irmão como dom precioso de Deus para si mesmo e para os demais (Test 14-15). Por isso, essa carta pode estar inspirada na resposta de Jesus à pergunta de Pedro: “quantas vezes devo perdoar ao meu irmão?” (Mt 18,21-22). A lógica evangélica não julga o outro com base em sistemas numéricos, mas com base no amor incondicional. Do mesmo modo, aquele gesto de Maria de Betânia, que não poupou perfume (Jo 12,1-11), não se prendeu a cálculos matemáticos. O amor  foi tão intenso (e o é, quando é expresso gratuita e informalmente) que se dilatou. Não se importou com os parâmetros da contenção. O amor não é econômico. Esbanja toda sua essência e alcança a todos.

Como São Francisco o fez, enquanto guardião e servo dos irmãos, assim o Ministro devia fazer: trilhar o mesmo caminho, isto é, se o irmão “não buscar misericórdia, pergunta-lhe se quer obter misericórdia. E se depois ele pecar mil vezes diante de teus olhos, ama-o mais do que a mim, para trazê-lo ao Senhor” (CtaM 10-11). Podemos dizer, então, que o Ministro foi exortado por Francisco a afigurar-se ao pastor que saiu à procura da ovelha perdida “e quando a encontra, com muita alegria a coloca nos ombros.” (Lc 15,3-7). O Ministro deveria assumir este serviço: dar o ombro, muitas vezes, ao irmão “difícil”. Ou ainda, afigurar-se à mulher que varre toda a casa à procura de uma dracma perdida, cujo valor estava além do fator econômico  (Lc 15,8-10). O irmão está acima de qualquer condicionamento ou limite existencial. O mesmo se diga da figura do “pai misericordioso” (Lc 15,11-32), que o Ministro devia encarnar: sair ao encontro do irmão quando este ainda estiver distante e, por causa do amor fraterno, envolvê-lo em seus braços (Lc 15,20), trazendo-o para o Senhor, amando-o com intensidade. 

Em nome da misericórdia, o Ministro não pode perder a esperança de recuperar o irmão. A história da salvação é a história da misericórdia, cujo responsável maior é Deus. Ele não se cansa de perdoar. O interesse  do pastor, a diligência da mulher e a misericórdia do pai correspondem à ternura de Deus para com o ser humano. Francisco compreendeu o carinho do Senhor e usou de misericórdia com cada irmão. A experiência de fraternidade nos permite viver a capacidade misericordiosa de perdoarmos  e sermos perdoados. A intenção de Francisco é realizar um mundo fraterno ou reinventar o mundo, a partir da vivência de fraternidade.

3- “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai”

Na mesma perspectiva evangélico-franciscana, caminha, hoje, o Papa Francisco. Ao proclamar o Ano jubilar da Misericórdia, com a bula Misericordiae Vultus, ele procura recuperar na Igreja o valor quase esquecido da misericórdia. Aliás, esse assunto é uma marca significativa do seu pontificado. Seus discursos e reflexões abordam constantemente o tema.
Logo no início do seu ministério, no Angelus do quinto domingo da quaresma, 17 de março de 2013, refletindo sobre o evangelho do dia (Jo 8, 1-11), dizia: “(...) Impressiona o comportamento de Jesus: não ouvimos palavras de desprezo, não ouvimos palavras de condenação, mas apenas palavras de amor, de misericórdia, que convidam à conversão: `Também Eu não te condeno. Vai e doravante não tornes a pecar´ (v. 11). Irmãos e irmãs, o rosto de Deus é o de um pai misericordioso, que sempre tem paciência. (..)  Um pouco de misericórdia torna o mundo menos frio e mais justo. Precisamos  compreender bem esta misericórdia de Deus, este Pai misericordioso que tem tanta paciência com a sua humanidade” Não esqueçamos esta verdade: Deus nunca Se cansa de nos perdoar; nunca! mas nós às vezes cansamo-nos de pedir perdão. Não nos cansemos jamais, nunca nos cansemos!”.

Alguns trechos da bula que destacamos a seguir reafirmam a reflexão supracitada. São trechos que nos mergulham na dinâmica amorosa de Deus. O Papa acentua, em primeiro lugar, a fonte e origem da misericórdia (n. 1). Depois, caracteriza o sentido e ressonância da misericórdia: “Precisamos sempre  contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o acto último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado.” (n. 2).

Frente à realidade contemporânea, com tantos desafios, a Igreja reassume o compromisso de ser sinal do amor de Deus  mundo atual, compromisso assumido na abertura do Concílio Vaticano II. Citando São João XXIII, o Papa Francisco expressa: « Nos nossos dias, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade. (…)” (n. 4). Trata-se de um modo de ser, sentir e agir em relação às feridas que tanto machucam  o coração das pessoas.

Adentrando no espírito da palavra, o Papa afirma: “Em suma, a misericórdia de Deus não é uma ideia abstrata, mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho, até ao mais íntimo das suas vísceras. É verdadeiramente caso para dizer que se trata de um amor « visceral ». Provém do íntimo como um sentimento profundo, natural, feito de ternura e compaixão, de indulgência e perdão.” (n. 6).

Na prática, a misericórdia implica mudança de atitudes. Implica algo concreto, principalmente, no que diz respeito ao zelo fraterno: “Falar mal do irmão, na sua ausência, equivale a deixá-lo mal visto, a comprometer a sua reputação e deixá-lo à mercê das murmurações. Não julgar nem condenar significa, positivamente, saber considerar o que há de bom em cada pessoa e não permitir que venha a sofrer pelo nosso juízo parcial e a nossa pretensão de saber tudo. Mas isto ainda não é suficiente para se exprimir a misericórdia. Jesus pede também para perdoar e dar.” (n. 14).

E ainda mais, o cristão precisa sair da sua “zona de conforto” e perceber de perto a realidade que fere e ameaça constantemente a vida: “Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-las  para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo (...)Em cada um destes « mais pequeninos », está presente o próprio Cristo. A sua carne torna-se de novo visível como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga ... a fim de ser reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por nós.” (n. 15).

O desejo do Papa neste Ano Jubilar é atingir a todos: “Quanto desejo que os anos futuros sejam permeados de misericórdia para irmos ao encontro de todas as pessoas,  levando-lhes a bondade e a ternura de Deus! A todos, crentes e afastados, possa chegar o bálsamo da misericórdia como sinal do Reino de Deus já presente no meio de nós.

” (n. 5). Trata-se de uma proposta sem fronteiras: “A misericórdia possui uma valência que ultrapassa as fronteiras da Igreja. Ela relaciona-nos com o judaísmo e o islamismo, que a consideram um dos atributos mais marcantes de Deus. Israel foi o primeiro que recebeu esta revelação, permanecendo esta na história como o início duma riqueza incomensurável para oferecer à humanidade inteira.” (n. 23).

Acima de tudo, enquanto caminha pelas estradas do mundo, com a participação afetiva e efetiva de cada um dos seus membros, inclusive de todos os franciscanos e franciscanas, sendo portadores da Boa Nova, “A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa. A Esposa de Cristo assume o comportamento do Filho de Deus, que vai ao encontro de todos, sem excluir ninguém.” (n. 12). 

Conclusão

São Francisco de Assis completou sua peregrinação terrena reconciliado com todos e todas as criaturas. O Cântico das Criaturas é reflexo de um espírito reconciliado. Soube acolher a misericórdia de Deus. Soube amar ao próximo de maneira incondicional. Soube viver o perdão de forma densa e profunda. Reconheceu, portanto, a ação do Senhor em sua vida e na vida daqueles que sabem perdoar. Por causa disso louva e agradece: “Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por teu amor, e suportam enfermidades e tribulações. Bem-aventurados os que as suportam em paz, que por ti, Altíssimo, serão coroados.” (Cântico das Criatuas, 10-11).
Depois de um percurso de profundas mudanças, o Poverello terminou sua vida numa grande ação de graças pela benevolência do Altíssimo e Sumo  Bem, a Ternura e a Simplicidade: “Vós sois o Bem, o Bem universal, o sumo bem, Senhor e Deus, vivo e verdadeiro. Vós sois a delícia do amor... Vós sois a Humildade. Vós sois a Paciência. Vós sois a Segurança. Vós sois o Descanso. Vós sois a Alegria e o Júbilo. Vós sois a Justiça e a Temperança. Vós sois a Plenitude e a Riqueza. Vós sois a Beleza. Vós sois a Mansidão. Vós sois o Protetor. Vós sois o Guarda e o Defensor. Vós sois a Fortaleza. Vós sois o Alívio. Vós sois nossa Esperança. Vós sois nossa Fé. Vós sois nossa inefável Doçura. Vós sois nossa eterna Vida, Ó Grande e Maravilhoso Deus, Senhor Onipotente, Misericordioso Redentor.” (Louvores ao Deus Altíssimo).

Enquanto franciscanos e franciscanas não deixemos que a tirania das aparências marginalize o irmão e a irmã. Não deixemos que a economia esmague a riqueza da vida fraterna, que tem como maior valor os dons espirituais de cada irmão e irmã (EP 85). Não deixemos que o individualismo ofusque a cordialidade. Não permitamos que a intolerância nos impeça de praticar a misericórdia. Somos todos irmãos e irmãs dados uns aos outros por Deus, para construirmos fraternidade, lugar de misericórdia.
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FONTES

FONTES FRANCISCANAS E CLARIANAS. http://centrofranciscano.capuchinhossp.org.br/fontes

BÍBLIA SAGRADA, Edição pastoral. http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_INDEX.HTM

PAPA FRANCISCO. Misericordiae Vultus. http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/bulls/documents/papa-francesco_bolla_20150411_misericordiae-vultus.html

PAPA FRANCISCO

Angelus. Praça de São Pedro,
domingo, 17 de março de 2013. https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/angelus/2013.index.3.html

BOFF, Leonardo. O Papa Frrancisco resgata o bom-senso de Jesus. https://leonardoboff.wordpress.com/2016/02/28/o-papa-francisco-resgata-o-bom-senso-de-jesus/

GUERRA, Frei Flávio, ofm. São Francisco e os leprosos: “Fiz misericórdia com eles”. http://www.franciscanos-rs.org.br/sao-francisco-e-os-lerosos-fiz-misericordia-com-eles-e-nos/

GUIMARÃES, Almir Ribeiro. Francisco da cidade de Assis: Na escola evangélica da venturosa desapropriação. http://www.franciscanos.org.br/?page_id=24944

IRIARTE, Lázaro. La vía de la conversión en San Francisco de Asís: «El Señor me llevó entre los leprosos». http://www.franciscanos.org/selfran11/iriarte.html

URIB, Fernando. El proceso vocacional de Francisco de Asís: Los seis encuentros que determinaron su vida. http://www.franciscanos.org/formacion/uribe.htm

Frei Luiz Pinheiro SampaioSobre o autor

Frei Luiz Pinheiro Sampaio

Luiz Pinheiro Sampaio, Sacerdote. Nasceu na cidade de Novo Oriente, Ceará, aos 27 de maio de 1964. Membro de uma família de raízes e valores católicos, ingressou na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (OFMCap).

Iniciou sua formação religiosa no ano de 1988, quando começou os estudos de Filosofia, em Goiânia (GO), tendo obtido a licenciatura pela então Universidade Católica de Goiás (UCG). Entre os anos de 1992 e 1995, cursou Teologia em Campo Grande (MS). Posteriormente, nessa mesma cidade, em 2009, iniciou o curso de Letras, na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Problemas com a visão, levaram-no a interromper os estudos, no início do segundo período letivo.

Ordenado sacerdote no ano de 2003, trabalhou em várias localidades, como Nova Fátima (GO), Piracanjuba (GO), Caseara (TO), Campo Grande (MS), Ceilândia (DF). Atualmente, exerce seu ministério na capital de Goiás.

26 de out de 2015

Vender? Nunca!

Publicado por Frei João Carlos Romanini | 13/07/2015 - 11:49 
 
A domesticação de animais iniciou-se há milhares de anos, uma prática pré-histórica. Consiste em adaptar por seleção os animais preferidos, tidos como adequados e proficientes para perfazer as necessidades humanas. Por essas e por outras razões a domesticação é benéfica à civilização. Ao mesmo tempo em que animais, aves e seres são tidos como criaturas dóceis e úteis à convivência humana, é necessário sublinhar seu uso responsável.
Permanecem como elementos de preocupação que a domesticação não deixa de ser prejudicial à natureza, à ecologia, à seleção natural, à evolução biológica, etc. São percebíveis sintomas como a redução da biodiversidade, extermínio de espécies, desequilíbrios ecológicos, mudanças climáticas, abandono do habitat natural, entre outros. Por outro lado, a domesticação propõe elementos de melhor qualidade de vida humana e relações ecológicas e sociais. Influencia opções que se aproximam do espírito de preservação da natureza e do ambiente.
O relacionamento do ser humano com seus animais domesticados é fonte de alegria e autenticidade. Provoca sentimentos que incentivam comportamentos de encanto por todas as criaturas e renunciam ao ato de explorar e de destruir a natureza. Então, a domesticação tem sua face benéfica ao mundo e ao ser humano, mas maléfica ao provocar impactos no equilíbrio da natureza quando feita em grande escala.
Isto tudo é evidente, mas um testemunho pode transcender ao fato da domesticação e revelar um pouco da essência do ser humano. Num telejornal de domingo à noite um repórter foi às ruas e propôs a mendigos, sem-teto e moradores instalados debaixo de pontes e de galpões de resíduos recicláveis a compra de seus cachorros.
Tal como entrevistava uns e outros, logo entravam em cena sob a mesma pergunta: você venderia seu cachorro? Em meio ao cenário de abandono e de miséria as respostas põem em contato com a essência do ser humano: “vender nunca, por preço nenhum. É a minha alegria. É meu companheiro. Não tem dinheiro que pague”. Respostas que ultrapassavam de longe a uma mera avaliação intelectual ou um cálculo econômico pelos bichos.
O filósofo alemão Immanuel Kant (1724 – 1804) diz que “podemos julgar o coração de um homem pela forma como ele trata os animais”. Em meio a tantos ataques à natureza, as respostas dos mendigos e do filósofo não podem ser desvalorizadas para a tomada de consciência e de atitudes. Antes, importa pensar e espelhar-se na postura de São Francisco de Assis, que cantava louvores a Deus por todas as criaturas, até mesmo pelos mais minúsculos dos animais.
Miguel Debiasi
Sobre o autor

Miguel Debiasi

Miguel Debiasi, é membro da Província dos Freis Capuchinhos do Rio Grande do Sul,  Mestre em Filosofia e Teologia  Autor  de textos, artigos e crônicas. publicou o livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015 pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Atualmente é pároco da Paroquia Cristo Rei de Marau e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014.

2 de set de 2015

Jesus, a luz do mundo

 Ir. Afonso Murad
A imagem da “luz” ajuda a compreender vários aspectos da nossa vida. Quando um bebê vem ao mundo, diz-se que sua mãe “deu à luz”. A morte, ao contrário, é representada como “não ver mais a luz”. Se durante a vida uma pessoa se destaca com sucesso no estudo ou na profissão, comenta-se que ela “brilhou”. Quando alguém mostra inteligência e conhecimento amplo ao enfrentar enormes desafios, falamos que ela é “brilhante”. Quando você precisa tomar uma decisão e está confuso(a), busca alguém que lhe “dê uma luz”. O caminho espiritual, em diversas religiões, é traduzido como a peregrinação em direção à Luz, processo de iluminação.
O nosso dia a dia também é marcado literalmente pela luz, nas suas mais distintas formas. Acendem-se as lâmpadas da casa para ver melhor as coisas e as pessoas. Projeta-se a luz próxima ao espelho para alguém se arrumar, observar os detalhes do seu corpo e se embelezar. A tela do computado e da TV lançam-nos múltiplas imagens em movimento, com luz. No ambiente de trabalho precisamos de luz nas salas, no escritório, no banheiro, no corredor, onde estivermos. Ao caminhar à noite, nas praças e parques, necessitamos de boa iluminação pública, o que nos dá sensação de segurança.
Nas culturas pré-modernas, a luz estava associada ao calor. Luz do sol, que iluminava e aquecia. Luz do fogo, que espantava o medo da noite, esquentava nas noites frias e fascinava pela sua beleza. Hoje sabemos que a energia do sol, com luz e calor, é fundamental para garantir a continuidade dos ciclos básicos da vida no nosso planeta.
A luz deve ser utilizada de forma equilibrada. Estar submetido(a) a intensos raios de luz, por tempo prolongado, causa estresse e cansaço. Estirar o corpo diante de raios solares no pico do dia traz efeitos danosos para a pele. Dirigir um facho de luz diretamente para os olhos nos atordoa. A luz é boa, na medida certa.
A luz  evoca beleza, prazer e poesia. Como é bonito estar em meio à natureza e acompanhar delicadamente os tons de cores que vem ao entardecer, com o por do sol. Vislumbrante é o nascer da lua, com sua luz amarelada e prateada. Suave e delicada é a luz indireta no quarto, que nos prepara para uma noite tranquila. Maravilhosa é a luz que torna mais intensas as cores das paisagens!
O evangelista São João utiliza da imagem da luz, para dizer quem é Jesus e mostrar os efeitos de sua mensagem em nós. No prólogo, o evangelista proclama: “Na Palavra, que estava desde o princípio junto de Deus, havia a Vida. E a vida era a luz dos homens (e das mulheres). A luz brilha nas trevas, mas as trevas não conseguiram dominá-la (Jo 1,14-15)”. O Filho de Deus, que veio morar entre nós, fazendo-se carne de nossa carne, história na nossa história, é luz que traz vida. Não somente a vida biológica, mas sobretudo aquela que significa agir conforme o bem, combater o fechamento sobre si mesmo e seus desejos egoístas, que chamamos de “pecado”.
O ser humano anseia compreender o que acontece consigo e com os outros, esforça-se para comunicar conceitos, emoções e descobertas.  Escuta, interpreta, cria pontes de comunicação e diálogo. Neste sentido, o filho de Deus encarnado, Jesus Cristo, é Palavra de luz. Ele ilumina a mente, a inteligência e os sentimentos das pessoas. Faz com que as nossas buscas não se percam no vazio solitário, mas se transformem em encontros.
Jesus diz : “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminha nas trevas, mas tem a luz da vida (Jo 8,12)”. A presença de Jesus, ao mesmo tempo, toca o coração de cada um e se expande para a sociedade humana, de forma a iluminar, aquecer e transformar as atitudes, os hábitos, os comportamentos, as ideologias, a política, a economia, as estruturas sociais. Nesta linha, compreende-se a importância do tema “Igreja e sociedade”, da Campanha da Fraternidade deste ano. A pessoa e a mensagem de Jesus não são uma lanterna de bolso para tentar suprir carências individuais na escuridão das crises. Antes, o evangelho se mostra como uma grande luz, que apela para mudanças, impulsiona o ser humano para ser mais, aquece as relações, dá sentido, confere cor e sabor à existência pessoal e coletiva. Aí está a missão da Igreja, comunidade de cristãos e cristãs: que a luz de Jesus crie comunidades vivas, se espalhe como sol do meio-dia, penetre profundamente no tecido social, estimule os seres humanos a desenvolver o seu lado luminoso.
A luz de Jesus é espiritual, pois toca as dimensões mais profundas do humano, onde Deus se manifesta e fala ao coração e à mente da gente. Por vezes, é como a luz suave do quarto de dormir, que apazigua e nos prepara para o sono. Outras vezes, assemelha-se à luz da cozinha ou da sala, necessárias para se ver com clareza as pessoas e as coisas. Sempre é como a luz e o calor revigorantes do sol. E esta luz espiritual tem uma dimensão ética inegável.
“A luz veio ao mundo, mas as pessoas preferiram as trevas à luz, pois suas obras eram más. Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima dela, para que as suas ações não sejam denunciadas. Mas quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus” (Jo 3, 19-21). A luz de Jesus revela quem somos. Desmascara as falsas verdades, os esquemas enganosos. Por isso, quem age de forma sombria, com segundas intenções, tem medo da luz de Jesus. E quem pratica o bem, sendo religioso ou não, se sente atraído por sua presença luminosa.
O evangelho nos faz um convite: caminhemos na luz com o Cristo. No espírito da quaresma, tomemos consciência que podemos ser melhores do que somos hoje. Há dimensões da vida que ainda estão na penumbra, escondidas, resistentes à luz. Não tenhamos medo de reconhecer nossas sombras, quando nos aproximamos de sua luz. Diante de Jesus podemos mostrar nossas ambiguidades, fraquezas, limitações, incoerências. Ele nos acolhe assim, nos toma pela mão e nos conduz para a Luz Maior. Com Jesus e sua comunidade, de santos e pecadores, peregrinos de caminhos e tortuosos e belos, nos tornamos “filhos e filhas de luz” (Ef 5,9-11). E assim cultivamos a bondade, a sinceridade e a justiça, discernindo o que agrada a Deus e nos faz mais humanos.
(Publicado no boletim da Paróquia N.S.Rainha, de Belo Horizonte)

6 de ago de 2015

Irmã Teresa, a freira mais radical do mundo, sacode a Espanha

Irmã Teresa Forcades
Irmã Teresa Forcades
O mosteiro de St. Benet está entre os mais belos e tranquilos lugares. Para chegar lá, você precisa rumar pelas paisagens lindas da montanha sagrada de Montserrat.
A irmã Teresa Forcades, estrela improvável de programas de entrevistas, do Twitter e do Facebook, tem tido dificuldade em parar de pregar. Tão grande é a demanda por seu tempo e sua bênção que o email de seu secretário aqui no mosteiro sempre retorna uma resposta automática de que a caixa de entrada está cheia.
Irmã Teresa parece sempre estar em pelo menos dois lugares ao mesmo tempo. Ela tem os olhos brilhantes, é confiante, quase alegre. Sua inglês perfeito – aprimorado nos anos que estudou na Universidade de Harvard – parece de alguma forma fora de lugar nos claustros humildes deste local sereno.
Não há nenhum político parecido com ela. Ela nunca está sem o hábito de freira e diz que tudo que faz vem de uma profunda fé cristã e devoção. No entanto, tem sido crítica da Igreja e dos homens que a dirigem.
Os seguidores de seu movimento, Proces Constituint, com aproximadamente 50 mil catalães, são principalmente esquerdistas não-crentes. Ela não quer um cargo e diz que não vai criar um partido político, mas é inegavelmente uma figura política em uma missão – derrubar o capitalismo internacional e alterar o mapa de Espanha.
Seu programa de 10 pontos, elaborado com o economista Arcadi Oliveres, pede:
• A estatização de todos os bancos e medidas para coibir a especulação financeira
• O fim de cortes de empregos, salários mais justos e pensões, menos horas de trabalho e pagamentos para os pais que ficam em casa
• Uma “democracia participativa” genuína e medidas para coibir a corrupção política
• Habitação decente para todos e um fim a todas as execuções de hipotecas
• A reversão de cortes de gastos públicos e renacionalização de todos os serviços públicos
• Direito de um indivíduo ser dono de seu próprio corpo, incluindo o direito da mulher de decidir sobre o aborto
• Políticas econômicas “verdes” e a nacionalização das empresas de energia
• O fim da xenofobia e a revogação das leis de imigração
• Meios de comunicação públicos sob controle democrático, incluindo a internet
• “Solidariedade” internacional, sair da Otan e a abolição das forças armadas em uma futura Catalunha livre
Com um talento natural para falar em público, e mente afiada de uma militante, ela não teria superado a vida monástica? Suas irmãs não estariam cansadas das visitas constantes, eu me pergunto?
Ela interrompe a nossa primeira entrevista para cumprimentar uma delegação de ativistas pela independência da Catalunha, que vieram prestar homenagem ao mosteiro. Enquanto espero, as irmãs que param para conversar não têm dúvida de que o seu talento e sua fama são “dons de Deus” e que ela está abrindo caminho para um futuro mais jovem e mais feminista para a Igreja Católica.
Elas são apenas três dezenas de mulheres que vivem uma vida tranqüila de oração, mas esta é a base do poder político da Irmã Teresa. Ela é a embaixatriz delas para o mundo secular, e muitas vezes turbulento, para além da montanha. Diferentemente da maioria dos partidos políticos, movidos pela rivalidade, o círculo íntimo de Irmã Teresa a ama incondicionalmente.
Quando eu viajo para vê-la buscando apoio para o novo movimento em uma praça da cidade, o lugar está lotado. Ela agarra a multidão com idéias radicais que assustam muitos políticos tradicionais na Espanha. Ela admira Gandhi e algumas das políticas do falecido Hugo Chávez, na Venezuela, e de Evo Morales, da Bolívia.
Mas é o modelo econômico secular das monjas beneditinas, criando bens úteis para vender, que ela cita mais apaixonadamente.
Depois de um intervalo de duas semanas, eu subo a estrada sinuosa para o mosteiro para uma última visita. Irmã Teresa foi a uma conferência religiosa no Peru, onde é inverno, e voltou para casa com um resfriado. Bispos fiéis ao Vaticano têm criticado suas posições radicais sobre tudo, do aborto aos bancos.
Tornou-se uma batalha por onde passa. Pelo menos por enquanto, seu bispo em casa não a proibiu de continuar.
Na capela, ela cumprimenta minha esposa e os dois filhos pequenos calorosamente. Ela me disse que, quando era adolescente, abraçou o celibato.
É outra contradição que percebo: ela está perdendo uma vida em que pode amar livremente e tudo o mais que isso implica?
Ela me diz que se apaixonou três vezes desde que se tornou freira, mas sua devoção a Deus e ao mosteiro continua forte como sempre.
“Enquanto a minha vida religiosa for cheia de amor, eu vou estar aqui”, ela diz. “Mas no momento em que esta vida se transformar num sacrifícios… Então é será meu dever abandoná-la.”
Por ora, ao que parece, o caso de amor da Catalunha com talvez a figura política mais improvável do mundo vai muito bem.
Publicado originalmente na BBC.
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10 de jul de 2015

Se você não desistir o sucesso virá

             Kelio Vilarindo Pereira, natural de Porto Nacional - Tocantins - poderia entrar no Livro dos Recordes: repetiu  sete vezes a 1ª séria  do ensino fundamental. Ele não conseguia entender o conteúdo das aulas. Teve de enfrentar as críticas dos familiares e  as brincadeiras de mau gosto dos colegas. Mas ele não desistiu. Agora, aos 32 anos,  acaba de receber o diploma no curso de Serviço Social na Universidade do Norte do Paraná e se prepara para enfrentar uma  pós-graduação.
            Todos temos sonhos, mas nem sempre estamos dispostos a pagar o preço exigido. É perigoso acolher alternativas mais baratas.. Os que optaram por  este caminho afundaram no mar do anonimato. Seus  nomes foram esquecidos, enquanto a História guardou os nomes dos  que superaram as dificuldades..
            Demóstenes,  o maior orador  da antiguidade grega, era gago. Venceu a dificuldade, colocando seixos na boca enquanto discursava diante das ondas do mar. Giuseppe Verdi, só depois de dois insucessos, foi admitido no Conservatório de Milão. O grande estadista, Winston Churchill, com bom humor, lembrava que ninguém sabia tanto do segundo ano primário, curso que ele repetiu três vezes. William Kennedy passou por 17 editoras até ver publicado seu  romance  Vernônia.
            Henri Ford  dizia aos seus empregados: se você acha que pode, ou se você acha que não pode, sempre terá razão. E Jean Cocteau, da Academia Francesa, comentou  a vida de um vitorioso: ele não sabia que era impossível, foi lá e o fez.
            Kelio V. Pereira, ao comentar seu sucesso, aponta duas causas: a família e pessoas que o ajudaram a  abrir  novos caminhos. Mesmo assim ele insiste: a pessoa tem  de querer vencer suas própria dificuldades, senão ele nunca sairá do lugar.
            Para inventar a lâmpada elétrica, Tomás Edison fez duas mil tentativas. Um repórter quis saber: o senhor nunca sentiu a vontade de desistir com tantos fracassos? A resposta; eu nunca fracassei; cada tentativa errada, eu dizia :aí está um jeito que não dá certo. Quando um erro nos ensina alguma coisa, ele valeu a pena.  Bem aproveitado, o erro é um excelente mestre.
            Quando nosso projeto é grande, não podemos ter muita pressa. Um cedro demora 80 anos para chegar  à maturidade, mas a aboboreira precisa apenas  de dois meses. Nunca podemos dizer: mais tarde, agora é cedo demais. Também é uma desculpa admitir: agora é tarde demais.  Se o  sonho é importante,  comece hoje.

Frei Aldo ColomboSobre o autor

Frei Aldo Colombo

Aldo Colombo é Frei Capuchinho,  nasceu em  Rolante, RS. Atualmente  reside Garibaldi, como vigário paroquial e superior da fraternidade e articulista do Jornal Correio Riograndense, e com varias publicações. Escreve textos para as emissoras da  Redesul de Rádio.

9 de jul de 2015

Ser uma pessoa religiosa ou de fé: distinções

Fonte: domtotal.com
Se faltar discernimento, prevalecerá a disputa entre religião e fé e não o encontro entre ambas.
É muito comum confundir experiência religiosa com experiência de fé.
 
Por Dom José Antônio Peruzzo*
Impressiona o elevado grau de religiosidade disseminada por toda a parte. Desde os tempos do iluminismo se anunciava o fim da religião. Contudo, por mais que a genialidade humana seja pródiga em sua força inventiva, quando tudo estaria a sugerir que a família humana seria mais feliz e justa, ainda assim enumeram-se as contradições da história. Homens e mulheres, carentes e abastados, parecem sempre mais inquietos. Uns pela falta, outros pelo excesso. E Deus é sempre lembrado. Em muitos casos, infelizmente, até para legitimar a violência.
É muito comum confundir experiência religiosa com experiência de fé. Também se fazem verdadeiros hibridismos entre religião e espiritualidade. Embora sejam questões conexas, se faltar discernimento, prevalecerá muito mais a disputa entre religião e fé do que o encontro entre estas duas dimensões. A religião refere-se ao sagrado, ao inacessível, dotado de onipotência. A pessoa religiosa se expressa com ritos e cultos. Faz suas ofertas e apresenta seus pedidos. Em muitas situações envolve um grande fascínio. Tem forte componente emotivo. Também faz parte da experiência religiosa a adesão a um corpo doutrinal. Mas ainda não chega a ser uma vivência de encontro com um Deus amoroso. Neste sentido, até as nossas novenas, vez por outra, podem carecer de maiores discernimentos. Elas correm o risco de serem apenas exercícios de religiosidade, o que é ambíguo.
A experiência de fé tem fundas raízes na religião. Mas traz consigo alguns elementos diferenciadores. A fé pede atitudes de relação, de confiança, de obediência. Não se trata de relação submissa, nem confiança cega. Tampouco se pensa em obediência fanatizada. Na experiência de fé conta muito, decisivamente, a liberdade pessoal. Compreendamos o sentido de “obediência”. Vem do latim ob-audire. A primeira parte (ob) é prefixo que indica “diante de”, “por causa de”. Audire quer dizer ouvir. Daí o termo obediência.
Agora voltemos à fé. Homem ou mulher de fé não é aquele(a) que tem certezas intelectuais. Tampouco é fé aquela atitude psicológica parecida com pensamento positivo. Estas são virtudes humanas, mas que ainda não integram ou constroem relações de confiança. Tem fé quem se dispõe aderir e vincular sua liberdade em favor de alguém que confere sentido à vida presente e futura. Porque adere também ouve, também ora, também obedece (ob-audire). Claro, a fé tem uma dimensão religiosa porque comporta abrir-se à eternidade, ao infinito, ao onipotente. Mas mais do que aspectos de ritos, valem os vínculos de relação.
Agora podemos retomar a frase do evangelho. O mais sério problema dos discípulos não era o vento tempestuoso. Não era a ameaça das ondas. Era a sua pouca confiança. O mar agitado era poderoso. O vento forte era ameaçador. Aos discípulos parecia mais lógica a certeza vinda de um milagre expectado do que a confiança na força, na autoridade e na palavra que de Jesus tinham ouvido. Eles eram homens religiosos. Mas ainda não tinham fé. O vento e o mar se curvaram ante a voz de Jesus. Os discípulos, porém, se apavoraram.
Segue que para chegar a ser uma pessoa de fé o caminho a percorrer não é o das elaborações filosóficas. Não são os raciocínios complicados que me levam à obediência a Deus. Se se trata de relação e de confiança, então a disposição à oração é o passo primeiro. É por isso que encontramos no mesmo evangelho de Marcos uma sublime oração de súplica: “Senhor, vem em socorro à minha fé” (Mc 9,24).
CNBB 08-07-2015
*Dom José Antônio Peruzzo é arcebispo de Curitiba (PR

19 de jun de 2015

CNBB se opõe à redução da maioridade penal

Fonte: domtotal.com
Entidade revela o temor de que algumas violações aos direitos da criança deixem de ser crime.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou, nesta quinta-feira (18), nota em que afirma que a redução da maioridade penal representará uma ameaça a direitos hoje previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
No documento, a entidade revela o temor de que, se aprovada pelo Congresso Nacional, a medida acarrete um “efeito dominó”, fazendo com que algumas violações aos direitos da criança e do adolescente, como a venda de bebidas alcoólicas, abusos sexuais, entre outras, deixem de ser crime.
“Seria uma consequência natural, já que reduzir a idade de responsabilização penal para 16 anos terá implicações enormes sobre a vida social. Poderá valer para a compra de bebidas alcoólicas, direção de carros, trabalho. Abrimos um leque enorme”, disse o secretário-geral da entidade, Dom Leonardo Steiner, sustentando que, em outros países, a medida não surtiu os efeitos esperados. “Não podemos cair na tentação de nos desvencilharmos de nossos problemas sociais e de nossos jovens”.
Para a CNBB, é um equívoco afirmar que o estatuto não estabelece punições aos adolescentes que cometem atos infracionais. No documento, a entidade lembra que, no Brasil, os jovens podem ser responsabilizados penalmente já a partir dos 12 anos - idade abaixo da estipulada pela maioria dos países industrializados. Na avaliação da CNBB, reduzir a maioridade penal dos atuais 18 anos para 16 anos não resolverá a violência.
Segundo o presidente da CNBB, Dom Sergio da Rocha, embora ao ser sancionado, há 25 anos, o ECA tenha sido saudado como uma das melhores leis do mundo em relação à criança e ao adolescente, as medidas socioeducativas nele previstas não foram devidamente aplicadas ao longo dos anos, não sendo possível afirmar que a lei contribui para a impunidade.
“Embora tenha sido tão bem acolhido, o ECA não foi levado a sério como deveria. Hoje, teríamos de revalorizar e verificar a responsabilidade do Poder Público”. Na nota, a CNBB ainda sustenta que "as medidas socioeducativas previstas no estatuto foram adotadas a partir do princípio de que todo adolescente infrator é recuperável, por mais grave que seja o delito que ele tenha cometido. Esse princípio está de pleno acordo com a fé cristã”, menciona a nota.
Vice-presidente da CNBB, Dom Murilo Krieger destacou que, em momentos de comoção, quando é grande a cobrança por respostas rápidas para problemas como a criminalidade. “Nesses momentos, diante de alguns fatos tristes envolvendo adolescentes, nascem mitos e equívocos, como a ideia de que a redução solucionará o problema da falta de segurança. Com isso nos desobrigamos de buscar soluções educativas. O que queremos é criar uma consciência e demonstrar que o problema é bem mais amplo, que os jovens têm direito a uma nova oportunidade”.
Agência Brasil

18 de jun de 2015

Reordenando os Sentimentos

 Fonte: http://capuchinhos.org.br/caprs/artigos/detalhes/reflexoes/reordenando-os-sentimentos
Publicado por Frei Jaime João Bettega
Reordenando os sentimentos, incrementando tudo com uma boa dose de esperança. Vai dar certo! “As coisas que temos nos ajudam a viver. O que damos aos outros pode mudar nossa vida.” Ao longo dos dias, as necessidades vão surgindo. O que é básico sempre se dá um jeito. A sensibilidade permite uma atenção para com os outros. Impossível viver bem sabendo que o semelhante não tem o necessário. Estender a mão para dar e para receber é um movimento inspirador.
A profundidade da vida vai acontecendo entre trocas e laços que culminam em abraços! Ter algumas coisas é questão de dignidade. Todos deveriam ter o necessário. Enquanto esse sonho não se realiza, a solidariedade vai adequando ações e promoções. Ainda bem que muitas pessoas já fizeram a experiência de dar ou doar-se. As mudanças da vida acontecem pela caridade.
O excesso de apego nunca resultará em satisfação. O egoísmo carrega consigo a infelicidade. Em alguns momentos, talvez, não se tenha nada para dar. Mesmo assim, pode-se fazer muito: acolher, escutar, silenciar, ficar por perto, surpreender. Sair de si e ir ao encontro é um exercício básico, questão até de sobrevivência. A leveza dos dias está alicerçada na bondade. Pessoas do bem se encontram, exalam o odor da alegria e da realização. Impossível querer ser feliz sem participar desse movimento, que tem o amor ao próximo como a melhor melodia.
Pensar só em si é facilitar aquela tristeza que vai adoecendo a esperança e escurecendo o horizonte. Que bom saber que o que damos aos outros vai mudando nossa vida. É fantástico viver assim. Bênçãos! Paz e Bem! Santa Alegria! Abraços!
Sobre o autor

Frei Jaime BettegaFrei Jaime Bettega

 Frei Jaime tem formação em Filosofia, Teologia, Administração de Empresas, Pós Graduação em Gestão de Pessoas e Mestrado em Administração, com enfoque na Espiritualidade nas Organizações. Professor de Ética Organizacional do curso de Administração de Empresas da UCS.,  Coordenador da Legião Franciscana de Assistência aos Necessitados (Lefan) e é o fundador do Projeto Mão Amiga, que auxilia crianças carentes.
Apresentação do programa, na rádio São Francisco SAT (560 AM)e Articuladro do Jornal Correio Riograndense e colunista no Pioneiro.

16 de jun de 2015

Cuidar de quem nos cuidou

Publicado por Frei João Carlos Romaninini | 17/05/2015 - 10:33 
Autor: Frei Jaime Bettega
 
Fonte:  http://capuchinhos.org.br/caprs/artigos/detalhes/espiritualidade/cuidar-de-quem-nos-cuidou
Ver os pais envelhecendo é maravilhoso. Perceber o legado que uma geração passa à outra é provar o doce sabor que a vida oferece.
Os espaços já estavam devidamente preparados. Havia uma certa expectativa. Ambientes vazios sempre aguardam por alguém. A Casa São Frei Pio, em Caxias do Sul, que há tempo cuida da saúde dos frades, passou a ter uma nova ala destinada a idosos em situação de vulnerabilidade. Ao
todo serão 20 leitos. A manhã daquela terça-feira, um dia que parecia igual aos demais, se transformou num fato que mereceu registro histórico: a chegada dos primeiros idosos.
Alguns acompanhados por familiares, outros não. No olhar, a esperança e no corpo, as marcas dos anos vividos. Um misto de alegria e de emoção tomou conta de todos.
O enorme convento ampliava sua finalidade: cuidar de quem certamente cuidou dos outros.
O número de idosos tem crescido, enquanto que o número de filhos por família assinala uma sensível diminuição. Chegar ao entardecer da vida é algo natural. É um direito poder envelhecer dignamente. Ser cuidado está implícito na existência pessoal e familiar. Nenhum idoso atrapalha o ritmo de vida dos mais jovens. Pelo contrário, é uma presença que fortalece laços e confirma a história. O surgimento de casas que abrigam pessoas de idade avançada se tornou quase uma necessidade. Porém, os laços de afeto não deveriam jamais ser interrompidos.
Cuidar de quem nos cuidou é uma nobre missão. Oportunidade ímpar de retribuir tudo o que foi recebido. Em alguns momentos, as dificuldades até se intensificam, mas o amor filial é capaz de suportar até o que parece ser impossível. Ver os pais envelhecendo é maravilhoso. Perceber o legado que uma geração passa à outra é provar o doce sabor que a vida oferece. A convivência entre avós e netos é simplesmente fantástica, pois imprime jovialidade àqueles que já somaram algumas décadas de vida. No entanto, há casos bem mais exigentes, onde a presença de cuidadores se faz necessária.
A cultura do cuidado precisa ser recuperada. Há uma facilidade em terceirizar as obrigações mais corriqueiras. Muitos não querem ter incomodação, nem limitação da liberdade. Aproveitar a vida é o emblema mais badalado. Um dia, porém, as limitações da velhice alcançarão os que hoje vivem a jovialidade. Quem não cuidou dos seus, é bem provável que também não seja cuidado. Todos os filhos deveriam se preparar para ser, um dia, pais de seus próprios pais.


Sobre o autor

Frei Jaime BettegaFrei Jaime Bettega

 Frei Jaime tem formação em Filosofia, Teologia, Administração de Empresas, Pós Graduação em Gestão de Pessoas e Mestrado em Administração, com enfoque na Espiritualidade nas Organizações. Professor de Ética Organizacional do curso de Administração de Empresas da UCS.,  Coordenador da Legião Franciscana de Assistência aos Necessitados (Lefan) e é o fundador do Projeto Mão Amiga, que auxilia crianças carentes.
Apresentação do programa, na rádio São Francisco SAT (560 AM)e Articuladro do Jornal Correio Riograndense e colunista no Pioneiro.

10 de jun de 2015

Nós votamos, eles elegem

Só um imbecil pensa que empresas realmente 'doam' a candidaturas.
fonte: domtotal.com
Frei Betto
Haverá eleição presidencial nos EUA em 2016. Como no Brasil, lá também o povo vota, mas quem elege é o dinheiro. Os pré-candidatos estadunidenses já paparicam os grandes doadores de campanhas: Sheldon Adelson, dono de cassinos, nos últimos 12 anos doou US$ 120 milhões aos republicanos; George Soros, especulador, US$ 44 milhões aos democratas. Os irmãos David e Charles Koch, do ramo petroquímico, se dispõem a arrecadar US$ 900 milhões para os republicanos; e tantos outros bilionários se mobilizam. Na corrida ao Planalto, em 2014, nossos candidatos arrecadaram, juntos, R$ 586 milhões. A campanha de Dilma abocanhou R$ 318 milhões, mais da metade do total. Zerou todas as despesas e ainda sobraram R$ 169 mil. Aécio arrecadou R$ 201 milhões, e ficou dependurado na dívida de R$ 15 milhões. Até 1997, no Brasil era proibido empresas financiarem campanhas eleitorais. O PSDB quebrou a boa norma e fez aprovar a lei eleitoral nº 9.504, que permite financiar candidatos sem que o dinheiro passe pelos partidos. Só um imbecil pensa que se trata de "doação". É, de fato, investimento. Empresas e bancos "emprestam" grana à espera de retorno assegurado pelo desempenho político do eleito. Não há papel assinado, exceto quando a doação é ao partido. Se o candidato perde, o investidor contabiliza na folha de "perdas e danos". E nada impede de o candidato embolsar parte do recurso recebido. Se é eleito, sabe que deverá ser leal a seus "investidores", caso contrário será castigado nas próximas eleições e ficará a pão e água... Os maiores investidores procuram formar bancadas, como a do BBB (bola, bala e Bíblia), assim como há bancadas do agronegócio, da bebida alcoólica, dos frigoríficos etc. São 39 os países que, hoje, proíbem empresas de financiarem eleições, entre eles Portugal, França, Canadá, México, Colômbia e Peru. Além da grana "por fora" de empresas e bancos, no Brasil há ainda a grana do Fundo Partidário. Até abril deste ano era de R$ 290 milhões. Dilma, apesar do ajuste fiscal, triplicou-o. Agora é de R$ 868 milhões. Também ela investe na base aliada... Em época de eleições, você já escutou "Interrompemos a nossa programação para o programa eleitoral gratuito." Mentira. Não é gratuito. O valor do tempo cedido por rádios e TVs à campanha eleitoral é abatido no imposto de renda das emissoras. Em 2014, elas ganharam R$ 840 milhões de isenções fiscais. E o mais intrigante: a União é, constitucionalmente, a proprietária do sistema radiotelevisivo brasileiro. E, no entanto, paga para utilizá-lo em campanhas de interesse público. O STF decidiu por 6 a 1, em maio de 2014, proibir doação de empresas a campanhas eleitorais. Porém, o juiz Gilmar Mendes, contrário à decisão, apelou para o recurso de "pedido de vistas" e enfiou o processo debaixo do braço. E não há lei que o apresse. Na verdade, ele queria ganhar tempo para transferir a decisão para o Congresso. Acreditava que deputados e senadores, capitaneados por Eduardo Cunha, vetariam a proibição. Resta à sociedade civil pressionar para que os nossos políticos tenham vergonha na cara e decência no bolso. E, na próxima eleição, votar com mais consciência.

Frei Betto é escritor e religioso dominicano. Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Foi assessor especial da Presidência da República entre 2003 e 2004. É autor de "Batismo de Sangue", e "A Mosca Azul", entre outros.

Nós o Crucificamos!!!

                             Júlio Lázaro Torma
                            " Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!"
                                                                         ( Lc 23, 34)
   No último domingo ocorreu em São Paulo, a parada do orgulho gay. E no meio do protesto um ato que ofendeu algumas facções radicalizadas e fundamentalistas do cristianismo.
    Onde uma transexual fez a performance de Jesus crucificado e sob a cabeça estava  a inscrição de " Basta Homofobia GLBT", onde alguns se sentiram ofendidos pelo ato da transexual. Eu como cristão e católico praticante não me ofendi com a imagem da crucificação.
    Para mim ela além de ser um protesto foi um grito para nos chamar a dura realidade dos crucificados do nosso tempo e do nosso país que está cada vez mais retrogrado, conservador e fundamentalista.
     Jesus é crucificado diariamente em nosso país e assume muitos rostos, como tem dito os nossos bispos latino americanos, diversas vezes nas suas conferências em Puebla, Santo Domingo e Aparecida, de que Jesus tem diversos rostos, como sem terra, sem teto, desempregados, indígenas, negros, mulheres, imigrantes, refugiados, presidiários, menores abandonados e porque não dizer também os homossexuais.
    Pessoas estas que são estigmatizadas pela sociedade e por nós cristãos. Quantas vezes nós não os estigmatizamos e não demos o nosso testemunho de cristãos.
   Como nos fala Mohandas Karamchan Gandhi, " Eu seriá cristão, sem dúvida, se os cristãos o fossem vinte e quatro horas por dia". O que não acontece e nós não mostramos aos outros a verdadeira mensagem e imagem de Jesus que viveu e pregou o Amor.
   Jesus em sua vida terrena não andou no meio de pessoas de bem, mas foi para o meio dos marginalizados da sociedade de seu tempo como as prostitutas, pecadores, leprosos e os cobradores de impostos ( corruptos), aqueles que eram considerados " esse povinho maldito que não conhece a Lei" ( Jo 7, 49) pelos lideres religiosos de seu tempo. E que morreu como um amaldiçoado entre dois ladrões.
   O gesto da transexual condenado pelos religiosos como uma blasfêmia a fé cristã, por aqueles que sempre condenaram as encenações da paixão feita pelos católicos. Ali naquele gesto está o desespero de toda a comunidade GLST, que são diáriamente assassinados nas ruas e esquinas do nosso país. O Brasil é um dos países que mais assassinam e humilham homossexuais no mundo.
   É um grito para nós cristãos a nos chamar a dura realidade, onde pregamos o amor de um lado e ao mesmo tempo incentivamos o ódio e a marginalização dos outros, os chamando e considerando como doentes, e querendo a sua cura.
   Nos esquecemos que " Deus nos fez a sua imagem e semelhança", " para que neles se manifestem as obras de Deus" e " que todos nós somos filhos e filhas de Deus" (  Gn 1,27; Jo 9,3 ; I Jo 3, 1ss).
    Onde muitos desses irmãos e irmãs, foram expulsos das Igrejas, comunidades cristãs, rejeitados pelas famílias em nome da moral e dos bons costumes e sofrem toda a forma de violência e atrocidades.
    Devemos entender que quem sofre se sente como Jesus na cruz e se identifica com ele. O gesto da transexual na cruz deve ser visto como um apelo para nós cristãos de nos converter e ver no outro a imagem do crucificado.
    Que é crucificado diariamente nos irmãos sofredores por causa do nosso ódio.
    Vivemos num país de maioria cristã a onde não vivemos de fato e nem de direito o maior mandamento deixado por Ele, " Amem -se vos uns aos outros, assim como eu amei vocês" (  Jo 14, 12).
    Onde está o testemunho de amor de nós cristãos, diante da dor desses irmãos?, como podemos ser cristãos se em cada 24 horas um homossexual é morto no Brasil; uma em cada 3 mulheres já tenha sofrido algum tipo de abuso sexual?. E recebemos o triste prêmio de que 39% de assassinatos de transexuais acontece em nosso país, algo em que nós cristãos devemos nos envergonhar e pedir perdão por este pecado que branda aos céus.
   Em que o grito dos crucificados, desesperados  do socorro que não vem de nenhuma parte, cuja única esperança é o céu, como fez Jesus na cruz.
    A cruz é um simbolo da fé, da resistência, de sofrimento e da presença de Jesus Cristo no meio do povo. Mais que um símbolo, a cruz ajuda a construir uma mística de resistência aos sofrimentos inerentes á vida de quem sofre e uma comparação com as perseguições e a luta de Jesus com os poderosos de seu tempo para mostrar um caminho novo.
   Hoje os homossexuais são também a feição sofredora de Cristo, o Senhor, que nos questiona e nos interpela, querendo ser ouvido, escutado, amado e respeitado como são.
   Jesus no olhar e no rosto desfigurado dos homossexuais nos chama a dura realidade, " Em verdade eu vos declaro, todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos foi a mim que fizestes" ( Mt 25, 45).
   Como podemos dizer que amamos a Deus que não vemos se nós desprezamos, ferimos e somos causa de queda para os irmãos, que vemos.
   Está mais do que na hora de nós cristãos deixarmos de ser hipócritas e pedir perdão pelas vezes que ferimos o outro por causa de sua orientação sexual e gênero, somos causadores de sofrimento e morte.
    O protesto de transexual crucificada não me ofende como cristão, mas me chama a conversão de ver o outro como um irmão e irmã, o outro eu que merece o meu respeito e amor. De que devemos acolher e respeitar o outro como ele é.
   E mostrar aos homossexuais que Deus os ama e os fez a sua imagem e semelhança e que não os excluí na sua família,pois Deus é Amor.
    Pois nós crucificamos Jesus hoje de novo no irmão que sofre todo o tipo de discriminação.