2 de set de 2015

Jesus, a luz do mundo

 Ir. Afonso Murad
A imagem da “luz” ajuda a compreender vários aspectos da nossa vida. Quando um bebê vem ao mundo, diz-se que sua mãe “deu à luz”. A morte, ao contrário, é representada como “não ver mais a luz”. Se durante a vida uma pessoa se destaca com sucesso no estudo ou na profissão, comenta-se que ela “brilhou”. Quando alguém mostra inteligência e conhecimento amplo ao enfrentar enormes desafios, falamos que ela é “brilhante”. Quando você precisa tomar uma decisão e está confuso(a), busca alguém que lhe “dê uma luz”. O caminho espiritual, em diversas religiões, é traduzido como a peregrinação em direção à Luz, processo de iluminação.
O nosso dia a dia também é marcado literalmente pela luz, nas suas mais distintas formas. Acendem-se as lâmpadas da casa para ver melhor as coisas e as pessoas. Projeta-se a luz próxima ao espelho para alguém se arrumar, observar os detalhes do seu corpo e se embelezar. A tela do computado e da TV lançam-nos múltiplas imagens em movimento, com luz. No ambiente de trabalho precisamos de luz nas salas, no escritório, no banheiro, no corredor, onde estivermos. Ao caminhar à noite, nas praças e parques, necessitamos de boa iluminação pública, o que nos dá sensação de segurança.
Nas culturas pré-modernas, a luz estava associada ao calor. Luz do sol, que iluminava e aquecia. Luz do fogo, que espantava o medo da noite, esquentava nas noites frias e fascinava pela sua beleza. Hoje sabemos que a energia do sol, com luz e calor, é fundamental para garantir a continuidade dos ciclos básicos da vida no nosso planeta.
A luz deve ser utilizada de forma equilibrada. Estar submetido(a) a intensos raios de luz, por tempo prolongado, causa estresse e cansaço. Estirar o corpo diante de raios solares no pico do dia traz efeitos danosos para a pele. Dirigir um facho de luz diretamente para os olhos nos atordoa. A luz é boa, na medida certa.
A luz  evoca beleza, prazer e poesia. Como é bonito estar em meio à natureza e acompanhar delicadamente os tons de cores que vem ao entardecer, com o por do sol. Vislumbrante é o nascer da lua, com sua luz amarelada e prateada. Suave e delicada é a luz indireta no quarto, que nos prepara para uma noite tranquila. Maravilhosa é a luz que torna mais intensas as cores das paisagens!
O evangelista São João utiliza da imagem da luz, para dizer quem é Jesus e mostrar os efeitos de sua mensagem em nós. No prólogo, o evangelista proclama: “Na Palavra, que estava desde o princípio junto de Deus, havia a Vida. E a vida era a luz dos homens (e das mulheres). A luz brilha nas trevas, mas as trevas não conseguiram dominá-la (Jo 1,14-15)”. O Filho de Deus, que veio morar entre nós, fazendo-se carne de nossa carne, história na nossa história, é luz que traz vida. Não somente a vida biológica, mas sobretudo aquela que significa agir conforme o bem, combater o fechamento sobre si mesmo e seus desejos egoístas, que chamamos de “pecado”.
O ser humano anseia compreender o que acontece consigo e com os outros, esforça-se para comunicar conceitos, emoções e descobertas.  Escuta, interpreta, cria pontes de comunicação e diálogo. Neste sentido, o filho de Deus encarnado, Jesus Cristo, é Palavra de luz. Ele ilumina a mente, a inteligência e os sentimentos das pessoas. Faz com que as nossas buscas não se percam no vazio solitário, mas se transformem em encontros.
Jesus diz : “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminha nas trevas, mas tem a luz da vida (Jo 8,12)”. A presença de Jesus, ao mesmo tempo, toca o coração de cada um e se expande para a sociedade humana, de forma a iluminar, aquecer e transformar as atitudes, os hábitos, os comportamentos, as ideologias, a política, a economia, as estruturas sociais. Nesta linha, compreende-se a importância do tema “Igreja e sociedade”, da Campanha da Fraternidade deste ano. A pessoa e a mensagem de Jesus não são uma lanterna de bolso para tentar suprir carências individuais na escuridão das crises. Antes, o evangelho se mostra como uma grande luz, que apela para mudanças, impulsiona o ser humano para ser mais, aquece as relações, dá sentido, confere cor e sabor à existência pessoal e coletiva. Aí está a missão da Igreja, comunidade de cristãos e cristãs: que a luz de Jesus crie comunidades vivas, se espalhe como sol do meio-dia, penetre profundamente no tecido social, estimule os seres humanos a desenvolver o seu lado luminoso.
A luz de Jesus é espiritual, pois toca as dimensões mais profundas do humano, onde Deus se manifesta e fala ao coração e à mente da gente. Por vezes, é como a luz suave do quarto de dormir, que apazigua e nos prepara para o sono. Outras vezes, assemelha-se à luz da cozinha ou da sala, necessárias para se ver com clareza as pessoas e as coisas. Sempre é como a luz e o calor revigorantes do sol. E esta luz espiritual tem uma dimensão ética inegável.
“A luz veio ao mundo, mas as pessoas preferiram as trevas à luz, pois suas obras eram más. Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima dela, para que as suas ações não sejam denunciadas. Mas quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus” (Jo 3, 19-21). A luz de Jesus revela quem somos. Desmascara as falsas verdades, os esquemas enganosos. Por isso, quem age de forma sombria, com segundas intenções, tem medo da luz de Jesus. E quem pratica o bem, sendo religioso ou não, se sente atraído por sua presença luminosa.
O evangelho nos faz um convite: caminhemos na luz com o Cristo. No espírito da quaresma, tomemos consciência que podemos ser melhores do que somos hoje. Há dimensões da vida que ainda estão na penumbra, escondidas, resistentes à luz. Não tenhamos medo de reconhecer nossas sombras, quando nos aproximamos de sua luz. Diante de Jesus podemos mostrar nossas ambiguidades, fraquezas, limitações, incoerências. Ele nos acolhe assim, nos toma pela mão e nos conduz para a Luz Maior. Com Jesus e sua comunidade, de santos e pecadores, peregrinos de caminhos e tortuosos e belos, nos tornamos “filhos e filhas de luz” (Ef 5,9-11). E assim cultivamos a bondade, a sinceridade e a justiça, discernindo o que agrada a Deus e nos faz mais humanos.
(Publicado no boletim da Paróquia N.S.Rainha, de Belo Horizonte)

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