30 de jan de 2013

A ética e a amazenagem de tecidos humanos

Comentado por Márcio Fabri
Stored human tissue: an ethical perspective on the fate of anonymous, archival material (Armazenagem de tecidos humanos: lei, ética e medicina no destino de material anônimo arquivado)
Autores: D.G.Jones; R.Gear; K.A.Galvin
Revista: Journal of Medical Ethics 2003, 29: p. 343-347
(Comentado por: Prof. Márcio Fabri dos Anjos, Diretor do Instituto de Ética Teológica do Centro Universitário Nossa Senhora Assunção

Resumo/comentário:

Este estudo mostra a rápida evolução ocorrida nestas últimas décadas no que se refere às questões legais, éticas e médicas na armazenagem e uso de tecidos humanos, centrando-se sobre o destino de material anônimo arquivado. Fazemos aqui uma seleção de tópicos que nos parecem interessantes no texto, deixando detalhes para uma busca pessoal de quem o quiser, no próprio artigo.

O interesse em pesquisas médicas e no ensino acadêmico polarizou por muito tempo a atenção nesta área, deixando, em certo sentido, um vazio ético na obtenção de tecidos e órgãos de cadáveres. Mas nos anos 90 vieram à tona inquéritos envolvendo retenção de tecidos e órgãos em exames post mortem; apareceram também escândalos nos Estados Unidos, envolvendo departamentos de anatomia, bancos de tecidos, empresas de biotecnologias e crematórios. Estes novos fatos recolocam as questões éticas no assunto.

De modo geral, entre os princípios éticos mais invocados nesta área aparecem: o respeito pela pessoa falecida e por seus familiares; o papel do consentimento livre e esclarecido; as diversidades culturais na consideração do cadáver; o aspecto da gratuidade, especialmente através de doação de órgãos e tecidos. O tratamento dado a cadáveres e tecidos afeta particularmente as pessoas vivas, porque evoca as relações simbólicas com as pessoas falecidas, e este parece também um aspecto relevante. Nestes princípios a obtenção de cadáveres, tecidos, órgãos e partes do corpo, encontra já bons critérios para ser conduzida eticamente.

Além das questões éticas da obtenção surge hoje outra interrogação que não pode passar despercebida: a ética sobre o uso de material humano arquivado ao longo de tantos anos, especialmente a partir do final do século 19. De fato, existe hoje um enorme acervo de tal material, além de verdadeiras coleções que foram se constituindo, que têm sido bases para instituições educacionais e de pesquisa. A natureza do material de arquivo remete basicamente a materiais retidos para servirem de futuras referências. A necessidade de estabelecer causas de morte, diagnósticos a serem completados e o acompanhamento da evolução de patologias, são exemplos deste caso. A variedade do arquivo é grande: lâminas histológicas, sangue, órgãos, embriões, fetos e cadáveres de pessoas adultas, entre tantos outros.

A questão do material arquivado se torna quantitativamente maior se forem considerados os arquivos de museus.

Referem os autores que só na Inglaterra, em 1999, uma estimativa apontava para 104.300 órgãos, partes do corpo e fetos ou natimortos, retidos em instituições de exames patológicos post mortem. A estes se somam ainda 480.600 amostras de tecidos armazenadas em museus ou outros tipos de arquivos.

A história dos caminhos éticos e legais para a obtenção destes materiais é, na maioria dos casos, obscura. Um conceito ético chave no caso do material de arquivo é a manutenção de seu anonimato: ou seja, que o material não seja identificado por referência a indivíduos conhecidos. Mas este critério é apenas um critério inicial.

Há problemas éticos na armazenagem destes materiais de arquivo?
Algumas posições dignas de nota:
- Na retenção, uso ou disposição destes materiais sejam consideradas as percepções dos familiares e os valores históricos e educacionais dos tecidos humanos.
- Pesquisa com materiais anônimos e não identificáveis já existentes não deveria ser classificada como pesquisa com seres humanos (National Bioethics Advisory Commission, dos Estados Unidos). Nessa linha, argumenta-se que não se devem sacralizar as amostras, mas distingui-las das pessoas – que merecem proteção de sua autonomia e privacidade. A garantia viria com o anonimato das amostras.

- A pesquisa com material de arquivo é ética mesmo na falta de consentimento dos sujeitos, desde que, entre outras, seja garantido o mais cedo possível o anonimato das pessoas às quais o material se refere, protegendo-as assim de qualquer inconveniente; e que seja obtido o consentimento em casos de dúvida sobre o caráter invasivo da pesquisa (Royal College of Physicians - Reino Unido). Tais provisões não se aplicam ao material totalmente anônimo de arquivos.

O que fazer com os materiais anônimos de arquivo?
Quando se trata de material realmente anônimo de arquivo (não há familiares a serem consultados) e o material está nas mãos de quem legalmente os possui. O que seria melhor fazer segundo o interesse da comunidade humana e respeitando as pessoas de quem os materiais provêm? Há inicialmente quatro opções:

1. Incinerar o material para evitar maus usos e abusos. Esta opção obviamente não considera os bons usos que eventualmente se podem fazer em educação e pesquisa.
2. Acentuar o uso educativo para a manutenção dos tecidos. Entretanto, permanece a questão sobre materiais que não sirvam ou que só remotamente possam servir para estes fins.
3. Considerar seu uso em pesquisas. A justificativa depende do grau de utilidade para a pesquisa, o que varia. De qualquer forma, estão aqui incluídos os casos de retenção de material para inquéritos legais posteriores.
4. Manter o armazenamento com os devidos cuidados e respeito, mesmo que de imediato sejam pequenos seus benefícios, mas considerando possibilidades de futuras evoluções das ciências.
Nenhuma das opções acima aceita que os tecidos humanos possam ser guardados indefinidamente, ou que possam ser utilizados para fins contrários à ética: a questão é o que pode e o que não pode ser feito com tais tecidos.

Consentimento x Propriedade
É praticamente um consenso: a ética no uso de tecidos humanos é presidida pela autonomia dos sujeitos e passa pelo adequado consentimento. Mas na essência do debate sobre a ética do uso de materiais de arquivo está exatamente a ausência do consentimento de um sujeito presente. Na discussão sobre consentimento foi apontada recentemente uma possível ambigüidade: a mistura entre o modelo de consentimento com o modelo de propriedade. Isto se verificaria no caso de parentes, com respeito a um falecido.

Os parentes têm o direito de concordar ou discordar com a invasão do corpo do falecido. Isso, entretanto, difere do consentimento do sujeito e se aproxima do modelo de propriedade. As aplicações desta distinção levariam a dizer que a autonomia exercida pelo consentimento, quando verificado, transferiria dos sujeitos para as instituições (de pesquisa, ensino ou terapia) os direitos de propriedade dos tecidos. As instituições naturalmente se submeteriam ao uso ético de tais direitos. Nenhum interesse de propriedade se sobrepõe eticamente ao consentimento, mas que no caso dos arquivos, está ausente. Assim, valeria o direito de propriedade a ser exercido de modo ético.

Bem próxima de tal posição persiste um problema ético encontrado na obtenção de novos materiais de arquivo, sem o consentimento dos sujeitos; ou um uso ulterior não previsto em um consentimento obtido. Tal ambigüidade ética se torna ainda maior quando se dirige para fins comerciais.

Os autores concluem que "amostras de arquivo deveriam ser tratadas com o mesmo cuidado e respeito como se tivessem sido doadas [...]. Isto é possível se as pessoas encarregadas do material agem mais como curadores do que como proprietários, com a responsabilidade pela armazenagem das amostras, por seu uso apropriado, e pela qualidade da pesquisa desenvolvida sobre eles."

Algumas propostas conclusivas dos autores apontam na seguinte direção: que todas as coleções, mesmo as de museus, sejam gradativamente registradas, autorizadas e de alguma forma monitoradas pela sociedade; que se regule de modo uniforme eliminando distinções entre coleções de patologia e de anatomia, e formando a relação de um arquivo conjunto; forme-se pessoal especializado para a curadoria das coleções; comissões de ética devidamente autorizadas supervisionem o uso ético das coleções.

Veja o índice completo desta edição do Journal of Medical Ethics

Clarissas no Brasil


As Clarissas encontram em Santa Clara de Assis (1194-1253) a sua mãe, mestra e fundadora. Seus escritos e suas palavras são uma herança riquíssima, um tesouro vivido e transmitido através dos séculos, em inúmeras fundações, e que possuem uma indiscutível atualidade. A marcante espiritualidade clariana exerce uma força de atração significativa em todos os continentes. Através da mística clariana e de seu caminho de espiritualidade compreendemos nossa missão como um serviço à Igreja. Somos “colaboradoras do próprio Deus e sustentáculo dos membros vacilantes de seu inefável Corpo”. Nossa vida claustral clariana continua o empenho de irradiar o testemunho da Pobreza, da vida orante e contemplativa, da sororidade e da clausura. Foi o que Clara, em seu tempo, irradiou com uma claridade nítida e visível.

25 de jan de 2013

A Missão de Jesus


                                             Júlio Lázaro Torma*
                                         " Hoje se cumpriu está passagem da Escritura"
                                                                                      ( Lc 4,21)
   Estamos no Terceiro Domingo do Tempo Comum e dentro do Ano da Fé proclamada pelo Papa Bento XVI na Carta Apostólica Porta Fidei ( At 14,27), que " Terá inicio a 11 de outubro de 2012, no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, e terminará na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo,a 24 de novembro de 2013"( Bento XVI,Porta Fidei nº 4).
  Em nossas comunidades cristãs vamos ler, meditar e rezar, nas Celebrações Eucarística e da Palavra, sobre o inicio da missão de Jesus em nosso meio na sinagoga de Nazaré.
  Aqui acontece a  Teofania, agora no ambiente religioso, sagrado na sinagoga,as outras na gruta de Belém aos pastores e magos ( Lc 2,1-20: Mt 2,1-12), rio Jordão ( Lc 3,21-22), nas bodás de Caná ( Jo 2,1-11), ambientes profanos periféricos e as margens do sagrado onde Jesus se manifesta o seu amor e missão.
  As comunidades lucanas endereçam e fazem a dedicatória a Teófilo ( Lc 1,3; At 1,1), extranho personagem. Teo= Deus. Filo= Amigo( Amigo de Deus).Teófilo é cada um de nós,é todo o cristão e toda a humanidade que é chamada a ser amigo de Deus e que a sua mensagem de Libertação se destiná a todos de todas as épocas sem distinções.
  Jesus se manifesta públicamente em Nazaré na Galiléia no meio de seu povo, numa aldeia humilde,perdida de 20 casas, que não há nenhuma referência no Primeiro Testamento.
  Ele na sinagoga apresenta o seu programa de vida, tirado do livro do Profeta Isaías 61,1ss.Passagem escrito no período da Reconstrução de Israel no período pós exílio babilônico 538-175 a.C pelo Terceiro Isaías ( 470 a.C), nos capítulos 56-66.
  Onde ele anuncia a sua missão o inicio dos comprimentos das profecias anunciadas pelos profetas que desejavam ver e não puderam ter está oportunidade.
  Jesus apresenta o resumo de toda a sua prática ( Lc 4,14-15).Ele vive no meio do povo,participando da vida e da fé do povo.Ensinando nas sinagogas da Galiléia da periferia da Palestina.Para as comunidades lucanas o Espírito que age a vida e a missão de Jesus e o seu espírito profético.
  O Espírito Santo impulsiona Jesus a anunciar a sua missão e opção preferencial pelos pobres.Que faz com que os seus críticos tentam mata-lo jogando do penhasco abaixo( Lc4,29).
  Ele é enviado a anunciar aos pobres a boa nova da noticia, não por serem bons mas por serem abertos a mensagem libertadora e diferente dos ricos e poderosos que são fechados em sua ganância,aos bens e acreditam que já estão salvos por serem ricos.
  Ao proclamar um ano de Graça do Senhor ( Lc 4,19) e declarar a sua realização, Jesus retoma a tradição bíblica do Jubileu ( Lv 25,10-17), que se realiza na sua vida,paixão e ressurreição.
  No contexto bíblico No Ano da graça exige a recuperação da propriedade( terra, casa), não desonestidade na venda e compra,anulação das dividas, liberdade aos escravos e oprimidos.
  Neste Ano da Fé somos chamados anunciar a boa noticia, proclamar um ano de graças do Senhor e viver o seguimento de Jesus e de seu reino que também é nosso, onde somos seus cidadãos.
  O programa de Jesus exige uma opção radical e preferencial pelos pobres e excluidos que são cidadãos do Reino e seus principais destinatários.Como batizados movidos pela ação do Espírito Santo devemos profeticamente denunciar as estruturas injustas e opressoras que geram morte, que fazem ricos cada vez mais ricos a custa de pobres cada vez mais pobres.Como batizados devemos anunciar e construir um mundo novo mais justo,solidário e fraterno.
  Como Igreja somos agentes da esperança, partilha, da reconciliação da humanidade para consigo mesma e com toda a criação, pois só assim haverá a igualdade, fraternidade, liberdade e a comunhão e podemos ser de fato seguidores discípulos de Jesus de Nazaré. Bom final de semana e boas meditações
                                 Lc 1,1-4;4,14-21
_________________________
  * Membro da Equipe Arquidiocesana da Pastoral Operária de Pelotas/RS

23 de jan de 2013

Andes estão perdendo glaciares em taxas alarmantes devido às mudanças climáticas, alertam cientistas

  Autor: Fernanda B. Müller   -  
 Fonte: Instituto CarbonoBrasil

Os dados preocupantes que mostram o degelo no Ártico e em outras partes do mundo podem nos dar a sensação de que os efeitos do aquecimento global sobre a cobertura de gelo são distantes de nós, porém pesquisas recentes mostram que sim, na América Latina os glaciares também estão retraindo.
Um novo estudo, o mais abrangente já publicado considerando os Andes tropicais, mostra que a taxa de degelo na região é mais acelerada do que a média global, colocando em sério risco fontes de água para a população de cidades como La Paz, na Bolívia.
O objetivo do estudo ‘Estado atual das geleiras nos Andes tropicais: uma perspectiva multi-secular sobre a evolução dos glaciares e das mudanças climáticas’, publicado no periódico The Cryosphere, é fornecer um panorama dos estudos sobre as geleiras nos Andes tropicais através da reunião de pesquisas realizadas na área nas últimas décadas.
“Em termos de mudança na área da superfície e na espessura, mostramos que a retração dos glaciares nos Andes tropicais ao longo das últimas três décadas é sem precedentes desde a extensão máxima alcançada na Pequena Era do Gelo (entre meados do século XVII e início do século XVIII)”, alerta um grupo de pesquisadores franceses e latino-americanos.
Eles argumentam que mesmo com alguns ganhos esporádicos de massa em várias geleiras, a tendência é marcadamente negativa nos últimos 50 anos. A média do déficit de massa chega a ser um pouco mais negativa do que a registrada em nível global.
Especialmente distinto em glaciares menores de baixa altitude, o fenômeno pode causar o seu desaparecimento nos “próximos anos/décadas”, notam os pesquisadores.
“Mensurações mensais na Bolívia, Equador e Colômbia mostram que a variabilidade da temperatura na superfície do Oceano Pacífico é o principal fator”, constataram, completando que a temperatura subiu 0,10°C por década nos últimos 70 anos, “uma taxa significativa”.
“A maior frequência de eventos do El Niño e mudanças na sua ocorrência espacial e temporal desde o final da década de 1970, em conjunto com a troposfera em aquecimento sobre os Andes tropicais, também pode explicar grande parte da retração dramática recente nos glaciares desta parte do mundo”.
Figura: (a) Glaciares monitorados nos Andes tropicais. Os glaciares com séries de dados em longo prazo (hexágonos pequenos e vermelhos) foram classificados (Tabela 1 do estudo). Para estes glaciares, registros de espessura (cubos amarelos) e de área (circulo azul) também existem. O hexágono grande e vermelho representa uma amostra de 21 glaciares na Cordilheira Real, Bolívia, para as quais estão disponíveis reconstruções do balanço de massa desde 1963 até 2006 (Soruco et al, 2009a). Outros glaciares cujas mudanças na espessura e/ou área foram monitoradas estão numerados. "MD initiated" indica os glaciares com mensurações de massa iniciando em 2008 (Incachiriasca), 2009 (Coropuna) e 2010 (Quisoquepinia). (b) Circulação geral da atmosfera sobre a América do Sul. O quadro pontilhado mostra a amplitude dos mapas de precipitação em (c) e (d). (c) e (d) significam a intensidade de precipitação por hora (mm h-1) em janeiro (c) e julho (d), respectivamente, entre 1998 e 2010 com base no TRMM (Tropical Rainfall Measurement Mission) Product 3B43 V6.

21 de jan de 2013

Carta Pastoral

AMÉRICA/REPÚBLICA DOMINICANA - No Ano da Fé "pedimos aos homens para valorizar, apreciar e respeitar nossas mulheres": Carta Pastoral dos Bispos pela festa de Nossa Senhora de Altagracia

Santo Domingo (Agência Fides) – Em 21 de janeiro a República Dominicana celebra a festa de Nossa Senhora de Altagracia. No contexto especial deste mês dedicado a Nossa Senhora e do Ano da Fé, a Conferência Episcopal propõe uma ampla reflexão à comunidade nacional com a Carta pastoral intitulada "Permanecei firmes na fé" (1 Cor, 16,13), datada de 21 de janeiro, e enviada à Agência Fides.
"O tema deste ano para o Plano Nacional de Pastoral, que afirma: 'Com a fé e a fraternidade construímos a comunidade’, nos convida a construir e a desenvolver as comunidades e as famílias na fraternidade em numa fé solida”, destaca a carta de 14 páginas. Os Bispos, depois do convite do Santo Padre a viver o Ano da Fé em família, chamou à atenção a situação de deterioração das famílias e do aumento, no país, da criminalidade, da insegurança e do tráfico de droga. Falam também da corrupção pública, dos jogos ilegais e do alcoolismo que está aumentando, e até mesmo da busca individualista do dinheiro fácil e do consumismo.
A Carta pastoral exorta ainda de modo enérgico a lutar contra a violência na família e contra as mulheres, convida a retomar os valores da união familiar, da fé, do amor e do otimismo. "Exortamos os homens a avaliarem, apreciarem e respeitarem as nossas mulheres, que são as nossas esposas, filhas, irmãs, mães, tias, prima e avós; as nossas mulheres que são trabalhadoras, lutadoras, empreendedoras e engajadas pelos valores. Devemos dirigir o olhar a Deus que nos dá a fé como dom, que nos impulsione rumo à busca e à experiência de atitudes que reforçam a vida familiar”, conclui o documento. (CE) (Agência Fides, 18/01/2013)
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Uma Apresentação do Judaísmo

Por: Rabino Alexandre Leone

Conta uma lenda rabínica que, na época do segundo Templo, um grego procurou um sábio judeu de nome Shamai, dizendo-lhe que se ele fosse capaz de enunciar a essência da Torá, enquanto se equilibrava em um só pé, o grego se tornaria um prosélito judeu. Tomando aquilo por uma brincadeira, Shamai, muito conhecido por seu rigor, mandou-o embora. O grego então foi procurar outro sábio chamado Hillel, muito conhecido por sua paciência e bom humor, e lhe fez a mesma proposta. Ao ouvi-la, Hillel abriu um sorriso e, pondo-se sobre um pé só, disse: “Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. O resto é comentário. Vai e estuda” (Essa lenda se encontra no Talmud. Uma tradução pode ser encontrada em "Um tesouro do folclore judaico." AUSUBEL, Nathan. Rio de Janeiro: Koogan, 1989. Coleção Judaica, v. 8. p. 72).

A maioria das pessoas, judias ou não, ao ouvir ou ler essa lenda, é facilmente tentada a se encantar com a resposta de Hillel e encarar Shamai com um olhar bem menos simpático. É verdade que a Halakhá, a lei comunitária judaica que baliza a conduta ética ideal, segue o caminho de Hillel. Há em Shamai, porém, algo de yidishkeit, do modo judaico de agir, que essa lenda não encobre, ainda que demonstre, claramente, a resposta de Hillel como a mais sábia. O Judaísmo tem sido, ao longo de seus quatro mil anos de história, uma experiência coletiva inseparável do Povo Judeu. Essa experiência religiosa e espiritual não deve ser encarada como uma teoria, pois ela permeia a vida cotidiana de pessoas reais e é permeada por ela. Os sábios jamais foram divinizados e encarados como perfeitos, e também os tolos e os malvados jamais foram encarados como não fazendo parte da alma coletiva de Israel. A palavra Israel, por sinal, admite muitas traduções e, se num extremo, pode ser entendida como "O Guerreiro de Deus", num outro, também pode significar "Aquele que Luta Contra Deus". Lutando com e contra Deus, e temos os profetas como testemunhas dessa tensão, forjou-se uma experiência de intimidade do humano com o divino, que por isso mesmo tornou-se universal, ainda que tenha permanecido como experiência particular de um povo.

Três são as bases da experiência religiosa judaica: Deus, Sua Revelação e o Humano. Em termos judaicos, elas aparecem como YHVH (Aquele Que É Foi E Será Cujo Nome É Impronunciável), a Torá (que não revela segredos metafísicos mas, antes, o caminho do humano para sua elevação e, através dela, a de todo o planeta) e a existência dos filhos do Pacto, isto é, Israel (aqueles que tiveram a khutspá (Pronuncia-se o KH como o j em espanhol ou o ch em alemão, como na palavra Bach), a audácia, de lutar com e contra Deus ao mesmo tempo e que carregam na própria carne o sinal dessa união coletiva e intergeracional).

A liturgia diária tradicional recomenda que, durante as orações da noite e da manhã, sejam recitados um conjunto de trechos da Torá conhecidos como Shemá Israel, Ouve Israel, pois começam com a frase: Ouve Israel YHVH nosso Deus YHVH é único (Deuteronômio, 6:4). A tradição a explica como o testemunho diário da unidade divina. O judeu observante pela manhã, mesmo que esteja sozinho, irá recitá-la em voz alta, alongando-se ao pronunciar a palavra único, com as quatro franjas de seu manto de orações (Tsitsit, franjas colocadas nas quatro pontas do manto de orações, chamado talit, para que sejam vistas – Números, 16:37) nas mãos e de olhos fechados. O fechar dos olhos representa a impossibilidade de ver a Deus, isto é, abarcá-lo ou compreendê-lo racionalmente e também ressalta o papel do ato de escutar, entendido pela tradição como algo feito pelo coração. Quando em comunidade, o recitar, com os olhos fechados, ao ouvir inúmeras outras vozes se entrelaçando, é uma experiência de integração a um todo que transcende o pessoal. Aqui, talvez, esteja a finalidade do testemunho da unidade divina.

O monoteísmo, enquanto experiência religiosa, é a característica básica da religião judaica há quatro mil anos. Isto não implica apenas numa monolatria, que seria a devoção a um deus específico – o Nosso. Antes, é a tomada de consciência da Divindade como única, universalmente. Deus é chamado pelos judeus por vários nomes, cada um ressaltando uma característica que, na experiência politeísta, é personificada em vários deuses. O nome Elohim, por exemplo, que é geralmente traduzido como Deus, num plural majestoso, também pode ser entendido como os deuses. Os vários nomes pelos quais É chamado são, meramente, nomes acessíveis à consciência e à razão humana. O Nome Revelado permanece impronunciável como um sinal da impossibilidade da compreensão da essência de Deus. Ao longo das gerações, a percepção de Deus tem se transformado.

Na Bíblia, a concepção de Deus aparece, muitas vezes, de forma antropomórfica. Muito já se falou sobre este antropomorfismo. As concepções evolucionistas apresentam esse antropomorfismo como uma forma mais primitiva de conceber Deus. Uma leitura mais profunda, porém, deixa claro que tal antropomorfismo já é concebido na Bíblia como, antes de mais nada, algo simbólico. Deus não se parece a nada que exista neste universo e, por isso, nas tábuas da aliança, o segundo mandamento proíbe a feitura de imagens divinas.

Maimônides, na Idade Média, se posiciona claramente de forma anti-antropomórfica, buscando demonstrar que não só as concepções antropomórficas têm a ver com contingências de época e da língua hebraica como vai mais longe: só podemos dar a Deus características na negativa, ou seja, dizer aquilo que Ele não é. No século XV, ao explicar o judaísmo para o imperador da China, os judeus de K’aifengfu descrevem Deus usando termos chineses como T’ien Tao, o Tao Celestial (AUSUBEL, Nathan. Um tesouro do folclore judaico. Rio de Janeiro: Koogan, 1989. Coleção Judaica, v. 8. p.334). Já Moshé Khaim Luzzato, na Itália do século XVIII, descreve Deus como “o Ser primário, sem começo nem fim, que trouxe todas as coisas à existência e continua sustentando-as”. Segundo Luzzato, “a verdadeira natureza de Deus não pode ser compreendida por outro ser que não seja Ele Mesmo” (LUZZATO, M. O caminho de Deus. Anotações de Aryeh Kaplan. Editora Maayanot, 1992. p. 31). Em pleno século XX Martin Buber descreverá Deus como o Tu Eterno, inacessível ao conhecimento, mas acessível através do diálogo e do encontro. Todas essas visões têm, basicamente, dois pontos em comum: a idéia de El-Khai, Deus Vivo, e a idéia de que existe uma ética para o humano, ética que é derivada da existência de Deus.

O fundamento da ética judaica é a Torá. A palavra Torá tem a mesma raiz do verbo “atirar mirando”, que é a mesma da palavra professor. A tradução de Torá por “lei” é uma tradução imprópria: a idéia mais próxima é a de “ensinamento divino”, sendo a lei apenas um aspecto da Torá. Basicamente, a Torá busca ensinar os fundamentos para a santificação da vida humana nesta existência e disto deriva o conceito de trilhar os caminhos de Deus. A Halakhá (A palavra Halakhá vem da mesma raiz do o verbo caminhar e tem como fontes principais a parte legal do Talmud e as Responsas rabínicas), a lei comunitária judaica, que vem a partir das interpretações da Torá, por diversas gerações de rabinos, é também o paradigma da conduta pessoal concreta e traz esta ética aplicada à vida cotidiana, através das gerações. Mais do que uma série de afirmações em forma de credo, a Torá comanda ações neste mundo, isto é, mitsvot ou mandamentos. Por um lado, a Torá é um texto escrito e imutável – esta idéia de imutabilidade é colocada tão em prática que, ainda hoje, o texto é mantido e lido na forma de rolos de pergaminho com um cantilar próprio. A produção manual de um destes rolos da Torá, também chamado de Sefer-Torá, é cuidadosamente estabelecida, com leis que abordam tanto os materiais utilizados como a posição de cada letra na página e mesmo o tipo de pessoa que está apta a escrever um Sefer-Torá.

Por outro lado, a Torá é também a tradição oral (No início da Diáspora, a Torá Oral foi codificada nos tratados da Mishná - século II - e comentada na Guemará - aprox. século V. Essas duas obras formam o Talmud. Após essa publicação, outros Tratados e Responsas rabínicas foram escritos, entre eles os mais famosos são o Mishné Torá de Maimônides - século XII - e o Shulkhan Arukh, de Joseph Caro - século XVI), o ensinamento dos sábios de Israel interpretando a Torá através das gerações. Para cada ponto da vida, da liturgia ao comércio, da vida sexual ao tratamento dispensado aos animais, da guerra às regras de boa convivência, lá o judeu tem uma lâmpada para seus pés e uma luz para seu caminho. Tanto a Torá Escrita como a Torá Oral são, porém, uma única Torá, fruto da revelação do Sinai. A entrega da Torá no monte Sinai é um acontecimento mítico, não fazendo aqui nenhuma diferença, para nossa discussão, o acontecimento do fato histórico ou não. O caráter fundante da revelação do Sinai é ser o símbolo do selamento do Brit, o Pacto de Israel com Deus. É aqui que também reside a característica peculiar da revelação na tradição judaica, seu caráter coletivo, pois Deus se revela inicialmente a todo o povo e ao mesmo tempo. Os místicos afirmam que todo o povo significa que todos os judeus de todas as gerações receberam a Torá no Sinai, o que dá à revelação pessoal sempre um caráter coletivo, pois ela é um eco da revelação do Sinai.

Outra peculiaridade da revelação é que nela Deus não revela Sua essência mas, antes, a Sua vontade. Uma vez entregue aos homens, porém, cumpre a estes interpretá-la através do tipo de consciência de cada geração, pois a Torá “não está no céu” (Deuteronômio, 30:11-14). Este é o argumento básico para a validação da interpretação rabínica.

O Povo Judeu não constitui uma unidade étnica, pois os dois mil anos de Diáspora permitiram o aparecimento de muitos grupos com língua e culturas diferentes dentro do povo judeu. O judeu ashkenazi, branco e de origem européia, se diferencia tanto do judeu etíope quanto o judeu secular americano ou israelense se diferencia dos grupos ultra-ortodoxos. Não se pode dizer também que o povo judeu seja uma comunidade de fiéis, com uma crença em comum, pois, fora um grupo muito reduzido de crenças básicas, conhecemos, hoje em dia, como na verdade sempre houve, resultados muito diferentes daquilo que Hillel chamou de “os comentários”. O que assombra, no entanto, é a possibilidade de nos reconhecermos como os descendentes de Avraham, nosso pai e, ao mesmo tempo, o reconhecimento mútuo entre os vários grupos por fazermos parte de uma grande comunidade: Am Israel (O Povo de Israel). Quando nos reencontramos no século XX nos países da América e, principalmente, em Israel, nos descobrimos como uma microhumanidade de gente proveniente das mais diversas partes do mundo. Mordekhai Kaplan vê no povo judeu uma “nacionalidade ética”, o ideal de uma humanidade pacífica. O pensador Abraham Ioshua Heschel disse, a respeito disto, “os judeus são um povo que, para ser um povo, têm de ser mais do que um povo” (The Earth is the Lord.s and The Shabbath. New York: Ed. Harper & Row Torchbook, 1966. p. 64).

A comunidade tradicional da Diáspora, que se seguiu à destruição de Jerusalém e seu Templo, nos anos 70 pelos romanos, entrou em crise com o surgimento da modernidade. Não deixa de ser interessante que, no mesmo ano em que Colombo saía com suas caravelas, os judeus eram expulsos da Espanha. No Ocidente, a crise da comunidade tradicional se aprofundou com a emancipação dos judeus nos estados burgueses. A partir do século XVIII, num processo cheio de idas e vindas, os judeus conquistaram direitos civis o que, por um lado, criou um problema conhecido no meio judaico como a assimilação, isto é, a perda da identidade judaica em troca do reconhecimento e da participação sociais. Por outro lado, intensificou as reações de preconceito anti-semita, o que gerou ações defensivas dos judeus para com a sociedade em geral que variam de país para país. O Brasil, neste contexto, aparece como um país onde o preconceito anti-semita isolado é fato bastante raro como fenômeno cultural ou de massas.

Dentro do âmbito religioso, a emancipação propiciou o aparecimento de três linhas básicas dentro do judaísmo moderno: a Reforma, uma linha que sustenta a prevalência da modernidade sobre a tradição; o movimento Conservativo, que sustenta a possibilidade do diálogo da tradição com a modernidade uma vez que este foi sempre o caminho da tradição em todas as épocas; e, finalmente, a Ortodoxia, que é uma reação (mais moderada ou mais fundamentalista, dependendo do grupo) à sociedade moderna e seu modo de vida. Muitos pensadores judeus, que se debruçaram sobre questões da espiritualidade do ponto de vista judaico, não podem, no entanto, ser classificados em nenhuma dessas tendências religiosas, entre eles podemos citar: Martin Buber, Franz Rosensweig e Emmanuel Lévinas, apenas para designar os mais conhecidos do público em geral. Há, nesses últimos, uma tensão especial que permeia suas vidas e obras, o pressentimento de que algo para além da Modernidade está para acontecer.

No decorrer do século XX, dois acontecimentos marcaram profundamente o consciente e o inconsciente coletivos do povo judeu e serão, daqui para frente, cada vez mais importantes em sua experiência espiritual: o genocídio de um terço dos judeus do mundo, durante a barbárie nazista, conhecido como o Holocausto, e o aparecimento de uma terceira reunião judaica na Terra de Israel, quase dois mil anos depois da última. Esses dois acontecimentos, únicos na história humana e judaica, levarão, possivelmente, várias gerações para serem melhor compreendidos em toda intensidade de seu significado. Esses acontecimentos deverão ser vistos à luz da nova consciência eco-planetária que agora começa a florescer. A Torá nos ensina a observar os ciclos cósmicos, em nós e na Natureza, e a ver a eterna renovação na vida e na morte. A Tradição, enquanto memória coletiva viva, enriqueceu-se muitíssimo com essas vivências que chegam quase ao limite da existência humana e que clamam pela renovação espiritual. Como dizia Rav Kook : “O antigo se renovará e o novo santificará”.

Publicado em: LEONE, A.G. - Uma Apresentação do Judaísmo, in Revista do 1o Ciclo de Estudos da Religião, UFOP, 1997. P.11-19 (repassado diretamente pelo autor a mim no dia 15 de abril de 2010).
Fonte: http://www.edt.edu.br/artigo-01-06-10.html

19 de jan de 2013

Silêncio e contemplação em Clara de Assis

Na esteira da comemoração dos oitocentos anos do carisma clariano, continuamos a refletir sobre a figura ímpar desta notável fundadora de um estilo original de vida evangélica e contemplativa na Igreja.  Apoiados no texto da Irmã Angela Emmanuela  Scandella, OSC,  Chiara ‘Alta donna di contemplazione’, Sette parole per il nostro ‘oggi’, in  Italia Francescana 2012/1, p. 17ss,  vamos refletir sobre o silêncio e a contemplação. Limitar-nos-emos a citar os elementos evidenciados pela autora. leia mais:


Alexandre de Hales

Oriundo de Hales, Inglaterra, depois de iniciar estudos em mosteiro local, foi Alexandre completá-los em Paris, onde logo também se tornou mestre notável.
Nota-se no seu pensamento a influência agostiniana dos vitorinos (da escika de Saint Victor do monte de S.Genoveva). leia mais: