28 de fev de 2014

Papa não quer condenação de casais separados

"Devemos ficar perto dos irmãos e irmãs que sofreram o fracasso do amor em suas vidas", insistiu o chefe da Igreja católica.
O tema dos divorciados que voltam a se casar é fonte de atritos dentro do Vaticano
O Papa Francisco, que prometeu aproximar a Igreja Católica da vida moderna, disse nesta sexta-feira (28) que os casais que fracassaram em manter o matrimônio não devem ser condenados. A declaração acontece num momento em que a Igreja católica está em pleno debate sobre os divorciados que voltaram a se casar. "Quando o amor fracassa, e fracassa muitas vezes, devemos sentir a dor desse fracasso, acompanhar a pessoa que tenha sentido o fracasso de seu amor", afirmou o Papa durante a missa diária que realiza no Vaticano. "Não devemos condená-los! É preciso caminhar com eles!", afirmou Francisco. "Devemos ficar perto dos irmãos e irmãs que sofreram o fracasso do amor em suas vidas", insistiu o chefe da Igreja católica. Francisco insistiu, ao mesmo tempo, na beleza do matrimônio cristão, da união de um homem com uma mulher, "a obra-prima da criação". O tema dos divorciados que voltam a se casar é fonte de atritos dentro do Vaticano. A questão principal se remete ao direito dos divorciados que voltam a contrair matrimônio de participar na parte mais sagrada da missa católica, a comunhão. Em conformidade com as regras atuais, isso é proibido, mas na prática essa exclusão não é aplicada. O cardeal Philipe Barbarin, arcebispo de Lyon, na França, afirmou à rádio Vaticano que uma reunião de cardeais de todo o mundo que aconteceu este mês na Santa Sé dedicou "de 80 a 90%" do tempo a discutir esta questão. Inúmeros casais em países ocidentais, assim como teólogos e bispos, pedem que a regra atual seja modificada. Em compensação, o cardeal alemão Ludwig Mueller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, afirmou que é impossível mudar as regras e que as pessoas devem deixar de pensar no casamento como "uma festa em uma igreja". O cardeal hondurenho Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga, membro do conselho de oito cardeais formado pelo sumo pontífice para assessorá-lo, adotou uma postura mais branda e pediu a Mueller que fosse "mais flexível". Um estudo da cadeia de língua espanhola Univisión em 12 países de maioria católica estabeleceu que 75% dos europeus, 67% dos latinos e 59% dos americanos não estão de acordo com a Igreja católica neste tema, enquanto que na África apenas 19% dos entrevistados são contra. Trata-se de uma questão que provoca uma grande angústia em muitos casais católicos, que dizem ser tratados como fieis de segunda categoria. A questão de permitir que os divorciados que contraíram matrimônio pela segunda vez recebam a sagrada comunhão afetaria milhões de católicos em todo o mundo. Apenas nos Estados Unidos, 25% dos casais católicos acabam pedindo divórcio. Alguns teólogos e clérigos pediram mudanças para facilitar a anulação dos casamentos quando for possível alegar que o matrimônio aconteceu por pressão social ou que não foi plenamente compreendido. Um novo casamento seria então autorizado, em conformidade com as regras da Igreja católica, e se permitiria que o casal recebesse a sagrada comunhão. Outra possibilidade seria o modelo ortodoxo, que permite que alguns divorciados se casem novamente na Igreja e recebam a sagrada comunhão, mas no segundo casamento só seria uma bênção, e não considerada um sacramento.
Fonte: http://www.domtotal.com/noticias/detalhes.php?notId=725482

22 de fev de 2014

A carícia essencial que resgata nossa humanidade



 Leonardo Boff (*)
 A carícia constitui uma das expressões supremas da ternura sobre a qual discorremos no artigo anterior. Por que dizemos carícia essencial? Porque queremos distingui-la da carícia como pura moção psicológica, em função de uma benquerença fugaz e sem história . A carícia-moção não envolve o todo da pessoa. A carícia é essencial quando se transforma numa atitude, num modo-de-ser que qualifica a pessoa em sua totalidade,  na psiqué,  no pensamento, na vontade, na interioridade, nas relações.
O órgão da carícia é, fundamentalmente, a mão: a mão que toca, a mão que afaga, a mão que estabelece relação, a mão que acalenta, a mão que traz quietude. Mas a mão é mais que a mão. É a pessoa inteira que através da mão e na mão revela um modo-de-ser carinhoso. A carícia toca o profundo do ser humano, lá onde se situa seu Centro pessoal. Para que a carícia seja verdadeiramente essencial precisamos cultivar o Eu profundo, aquela busca do mais íntimo e verdadeiro em nós e não apenas o ego superficial da consciência sempre cheia de preocupações.
A carícia que emerge do Centro confere repouso, integração e confiança. Daí o sentido do afago. Ao acariciar a criança, a mãe lhe comunica a experiência mais orientadora que existe: a confiança fundamental na bondade da vida; a confiança  de que, no fundo, apesar das tantas distorções, tudo tem sentido; a confiança de que a paz  e não o pesadelo é a realidade mais verdadeira; a  confiança na acolhida  no grande Útero.
Assim como a ternura, a carícia exige total altruísmo, respeito pelo outro e renúncia a qualquer outra intenção que não seja a  da experiência de querer bem  e de amar. Não é um roçar de peles, mas um investimento de carinho e de amor através da mão e da pele, pele que é o nosso eu concreto.
O afeto não existe sem a carícia, a ternura e o cuidado. Assim como a estrela precisa de uma aura para brilhar, da mesma forma o afeto necessita da carícia  para sobreviver. É a carícia da pele, do cabelo, das mãos, do rosto, dos ombros, da intimidade sexual que confere concretude ao afeto e ao amor. É a qualidade da carícia que impede o afeto de ser mentiroso, falso ou dúbio. A carícia essencial é leve como um entreabrir suave da porta. Jamais há carícia na violência de arrombar portas e janelas, quer dizer, na invasão da  intimidade da pessoa.
Disse com precisão o psiquiatra colombiano  Luis Carlos Restrepo que escreveu um belo livro  sobre “O direito à ternura”(Vozes 1998): “A mão, órgão humano por excelência, serve tanto para acariciar como para agarrar. Mão que agarra  e mão que acaricia são duas facetas extremas das possibilidades de encontro inter-humano”.
Numa reflexão cultural mais ampla, a mão que agarra corporifica o modo-de-ser dos últimos quatro séculos, da assim chamada modernidade. O eixo articulador do paradigma moderno é a vontade de agarrar tudo para possuir e dominar. Todo o Continente latino ameriano foi agarrado e praticamente dizimado pela invasão militar e religiosa dos ibéricos. E veio a Africa, a China, todo o mundo que se pôde agarrar, até a Lua.
Os modernos agarraram dominando a natureza, explorando seus bens e serviços sem qualquer consideração de  respeito de seus limites e sem dar-lhe tempo de repouso para poder se reproduzir. Hoje colhemos os frutos envenenados desta prática sem qualquer cuidado e ausente de todo sentimento de carícia para com o que vive e é vulnerável.
Agarrar é expressão do poder sobre, da manipulação, do enquadramento do outro ou das coisas  ao meu modo-de-ser. Se bem repararmos,  não ocorreu uma mundialização, respeitando as culturas em sua rica diversidade. O que ocorreu foi a ocidentalização do mundo. E na sua forma mas pedestre: uma hamburguerização do estilo de vida norte americano imposto a todos os quadrantes do planeta.
A mão que acaricia representa a alternativa necessária: o modo-de-ser-cuidado, pois “a carícia é uma mão revestida de paciência que toca sem ferir e solta para permitir a mobilidade do ser com quem entramos em contato” (Restrepo).
É urgente nos dias de hoje resgatar nos seres humanos, a dimensão da carícia essencial. Ela está dentro de todos nós, embora encoberta por grossa camada de cinza de materialismo, de consumismo e de futilidades. A carícia essencial nos devolve a nossa humanidade perdida. Em seu sentido melhor  reforça também o preceito ético mais universal: tratar humanamente cada ser humano, quer dizer, com compreensão, com acolhida, com cuidado e com a carícia essencial.
 (*) Leonardo Boff é autor de O cuidado necessário, Vozes 2012.
Fonte: http://www.franciscanos.org.br/?p=52938#sthash.H1wfFrqj.dpuf

18 de fev de 2014

Argentina teve 340 campos de concentração

O funcionamento dos cubículos para onde eram levados os presos políticos é o tema do livro Poder e Desaparecimento, da cientista política Pilar Calveiro
por Marsílea Gombata
fonte:www.cartacapital.com.br
pilar calveiro
Ex-militante e presa política, Pilar leciona
 no México atualmente
Nu, encapuzado, acorrentado pelos pés e obrigado a permanecer agachado. Sem poder se mexer ou falar, as horas iam ficando cada vez mais pesadas na escuridão das chamadas “cuchetas” – cubículos de 80 centímetros de altura, sem teto e de paredes de divisórias de madeira. A estrutura vazada permitia aos guardas monitorar todos os prisioneiros simultaneamente dentro da Escola de Mecânica da Armada, que funcionou como uma espécie de "campo de concentração" da ditadura na Argentina. O espaço controlado pela Marinha argentina era o exemplo daquilo que funcionava, ao mesmo tempo, como criação periférica e medular do regime.
O que mais angustiava os presos sem detenção legal era a incerteza em relação ao que estava por vir, como descreve a cientista política Pilar Calveiro em Poder e Desaparecimento (Boitempo).
O livro, que reconstrói minuciosamente o aparato de centros de desaparecimento forçado, pode ser comparado a É Isto um Homem? de Primo Levi, sobre os campos de concentração nazistas ou mesmo A World Apart: The Journal of a Gulag Survivor, de Gustav Herling, sobre os gulags soviéticos. Diferentemente de ambos, escritos em primeira pessoa, Poder e Desaparecimento repassa o período dos anos de chumbo argentinos em terceira pessoa para dar um tom mais analítico a características macabras da ditadura, como as maternidades improvisados para prisioneiras grávidas darem à luz antes de serem assassinadas, e seus filhos (eram cerca de 500), doados pelos militares sem o consentimento da família. O ato era chamado de “transferência”: os prisioneiros eram levados a estradas, campos ermos e aos famosos voos da morte - ou seja, eram lançados ao mar ainda vivos.
Além dos 30 mil desaparecidos, a ditadura argentina contou com 340 campos de concentração a extermínio, que funcionaram de 1976 a 1982. Há registros deles em 11 das 23 províncias do país. Além disso, estima-se que tenham passado por esses centros entre 15 e 20 mil pessoas, das quais 90% foram assassinadas.
“Um desaparecido é alguém sobre quem não se registra a detenção e, por isso, não há possibilidade de se identificar o que aconteceu com essa pessoa. Um desaparecido é, portanto, uma pessoa com a qual se pode fazer qualquer coisa. Além das torturas, ele estava sujeito a tudo o que se pode imaginar, pois, no fim, seu corpo iria desaparecer e ser eliminado”, explica.
Diante de um passado envolto em tantos pesadelos, o que levou a prisioneira “362” da Esma a revolver tantas dores? “Eu precisava entender o que havia acontecido”, explicou a CartaCapital. “Tratei de estudar ciência política para entender como esse fenômeno se espalhou pela Argentina.”
Colaboração civil. Atual professora da Universidade Autônoma de Puebla, no México, onde se exilou nos anos 70, Pilar lembra que a ditadura comumente chamada de militar não envolveu apenas a repressão de agentes das três armas, como também poderosos setores da sociedade argentina.
Como ressalta no livro, "as Forças Armadas foram se tornando o núcleo duro e homogêneo do sistema, com capacidade para representar e negociar com os setores decisivos seu próprio acesso ao governo. A grande burguesia agroexportadora, a grande burguesia industrial e o capital monopolista se tornaram seus aliados, alternada ou simultaneamente. (...) Esse traço foi fundamental no marco de uma nação na qual as classes dominantes não tinham conseguido forjar uma aliança estável e os partidos políticos atravessavam uma profunda crise de representação em uma sociedade complexa e ambivalente.”

11 de fev de 2014

PSD, PMDB, DEM e PP são os partidos com mais opositores à PEC


Fonte:  http://www.trabalhoescravo.org.br/noticia/75
Levantamento da Repórter Brasil aponta que 23 dos 29 que se opuseram à PEC do Trabalho Escravo pertencem a quatro partidos. Todos eles desrespeitaram a orientação das suas bancadas
Por Daniel Santini.
Brasília - Quatro partidos concentram 23 dos 29 deputados federais que votaram contra a Proposta de Emenda Constitucional 438/2001, a PEC do Trabalho Escravo, na última quarta-feira, 22. Contrariando a orientação de seus líderes, que defenderam publicamente a aprovação, oito integrantes do PSD, sete do PMDB, quatro do DEM e quatro do PP se declararam publicamente contra a medida que determina o confisco de propriedades em que for flagrado trabalho escravo e seu encaminhamento para reforma agrária ou uso social. Após praticamente oito anos parada, a proposta obteve nesta semana 360 votos, bem mais dos que os 308 necessários para sua aprovação.
As informações são parte de um levantamento feito pela ONG Repórter Brasil. A proposta agora será apreciada no Senado Federal, onde deve ser discutida também sua regulamentação. O governo se comprometeu a criar uma comissão mista formada por cinco senadores e cinco deputados para discutir o trâmite necessário para a expropriação e confisco. Os parlamentares que têm se oposto ao combate à escravidão insistem que é necessária a revisão do Artigo 149 do Código Penal, que define e detalhe este crime. Confira abaixo os que se declararam abertamente contrários à PEC e, no final deste texto, a relação completa dos parlamentares, incluindo os que estavam presentes, mas se abstiveram de votar e os que não compareceram ao plenário. 
Veja lista completa da votação em trabalhoescravo.org.br

10 de fev de 2014

Por mais e melhores unidades de conservação

  Autor: Jean Timmers e Aldem Bourscheit   -   
Fonte: http://www.institutocarbonobrasil.org.br/artigos/noticia=736307

A população mundial e a demanda associada por alimentos, commodities e energia tendem a crescer de forma vertiginosa nas próximas décadas. Sem mudança nos padrões de produção e de consumo, a pressão sobre os grandes remanescentes globais de vegetação nativa, no sudeste asiático, na África central e na Amazônia sul americana, ampliará os impactos socioambientais.
O Brasil, como abrigo de enorme variedade de animais, plantas e ecossistemas que nos proporcionam um dos climas mais agradáveis do planeta, água pura e em grande quantidade, terras férteis e paisagens paradisíacas, precisa garantir meios concretos para a manutenção de seu patrimônio natural, beneficiando inclusive a produção no campo, o abastecimento das cidades, a geração de energia e as populações tradicionais.
Uma das ferramentas globalmente adotadas e realmente efetivas para a conservação da vida e dos chamados serviços ambientais é o estabelecimento de uma rede ampla e sólida de unidades de conservação, terrestres e marinhas. No país, a base para essa tarefa estratégica é a Lei 9.985 / 2000, que regulamentou parte do Artigo 225 da Constituição Federal de 1988.
Engrossando o caldo, parques nacionais e outras unidades de conservação servem não só à manutenção da biodiversidade, mas também protegem cenários e culturas, fornecem serviços como regulação do clima e água em quantidade e qualidade para abastecimento humano e produção de energia, por exemplo, ajudam a combater o desmatamento (que voltou a crescer na Amazônia) e também geram renda em bases sustentáveis.
Se alguém ainda duvida do papel econômico das unidades de conservação, basta conferir em http://migre.me/hIpS7 os números do estudo A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade (Pnuma, MMA, Ipea, Embaixada Britânica e GIZ).
Além disso, municípios de 18 estados recebem atualmente mais de R$ 400 milhões ao ano por meio do ICMS Ecológico. Só o Parque Nacional do Iguaçu (PR) possibilita o repasse de aproximadamente R$ 10 milhões aos municípios em seu entorno. Sem contar os R$ 17 milhões revertidos todo ano aos cofres da União com bilheteria.
Todavia, um futuro mais promissor para as unidades de conservação brasileiras depende de um cenário político menos desfavorável e de ações estratégicas e conjuntas entre governos, sociedade civil e setor privado. O já citado Parque Nacional do Iguaçu, um dos mais conhecidos e visitados do país, pode ser cortado ao meio por uma estrada pavimentada caso seja aprovado um irresponsável projeto de lei.
Mas o fato não é isolado. No Congresso Nacional e Assembleias Legislativas estaduais se acumulam projetos de lei e outras iniciativas de visão curta e distorcida que irresponsavelmente atacam o sistema nacional de áreas protegidas e, como em um passe de mágica, pretendem desconstituir, reduzir ou jogar para baixo o nível de proteção de inúmeras unidades de conservação. Tais tentativas de drible são tortas, inclusive porque unidades de conservação são propostas e criadas com base em exaustivos estudos socioambientais e consultas públicas, até serem decretadas pelo Executivo.
Outro fator que entrava a consolidação do sistema nacional deunidades de conservação é seu baixo índice de regularização fundiária. Não por falta de recursos, mas pela carência de um debate franco, aberto e democrático sobre os melhores caminhos para a solução do problema. Alguns estados brasileiros, como Minas Gerais, vêm testando novos modelos para a regularização fundiária, por exemplo com recursos da compensação ambiental.
É fundamental que avancemos com medidas que contribuam efetivamente para a consolidação e para a ampliação da rede de unidades de conservação, protegendo riquezas únicas em todos os biomas do país, seja em terra, seja no mar. Enquanto a Amazônia abriga um índice razoável de áreas protegidas, outras regiões vêm perdendo a cada ano parcelas significativas de sua cobertura vegetal nativa, inclusive a quase dizimada Mata Atlântica.
Metade do Cerrado, do Pampa e da Caatinga desapareceram, enquanto Amazônia e Pantanal já perderam quase 20% de sua vegetação nativa. Enquanto isso, os índices de proteção oficial para a maioria dos biomas ainda são insuficientes para que o Brasil garanta a conservação ampla de sua biodiversidade e honre, por exemplo, compromissos internacionais que determinam que, até 2020, todos os países devam ter pelo menos 17% de suas áreas terrestres e 10% de suas áreas marinhas e costeiras em unidades de conservação. Do bioma marinho, temos apenas 1,4% realmente protegido.
Há muito trabalho a ser feito, em benefício de todos os brasileiros.
Jean Timmers e Aldem Bourscheit, superintendente e especialista em Políticas Públicas do WWF-Brasil*

9 de fev de 2014

Ministro da Justiça garante a demarcação da TI Passo Grande do Rio Forquilha; agricultores denunciam ações da elite ruralista

Fonte da notícia: Gapin e Cimi-Sul - equipe Iraí
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, seguido de comissão formada pelo ministro do Desenvolvimento to Agrário, Pepe Vargas, pelo presidente do Incra, Carlos Guedes, pela presidenta da Funai, ai, Maria Augusta Assirati, entre outros assessores dos governos federal e estadual, esteve na manhã do dia 18 de novembro na cidade de Passo Fundo (RS), onde se reuniu com lideranças Kaingang da Terra Indígena Passo Grande do Rio Forquilha (na foto ao lado pode-se ver o acampamento onde os indígenas viviam antes de inciarem o processo de auto demarcação) para tratar da continuidade do processo de demarcação da área em questão.
A reunião foi marcada após a ida de Leonir Franco, Cacique da área indígena, até Brasília para contrapor os argumentos utilizados pelo ministro ao decretar de maneira arbitrária a suspensão da demarcação da TI Passo Grande do Rio Forquilha. Na ocasião, José Cardozo prometeu que viria até a área em conflito para averiguar as informações relatadas pelo Cacique. No entanto, às vésperas do encontro, alegando preocupações com segurança pessoal e da comunidade indígena, transferiu a reunião para a cidade de Passo Fundo.
Já no início da reunião foi anunciado pela mesa de diálogo, composta pelas autoridades federais presentes e pelo secretário estadual Ivar Pavan, que a suspensão da Portaria Declaratória da área nunca esteve em questão e que, em decorrência dos conflitos entre indígenas e agricultores, a Presidência da República estaria criando um programa com fundo específico para providenciar indenizações necessárias aos agricultores que ocupam terras declaradas como indígenas.
Em caráter de conselho, mas em tom de ameaça, o ministro enfatizou várias vezes que a continuidade do processo de demarcação dependeria da paz entre os lados, ou seja, que cessassem imediatamente as campanhas de auto demarcação. Imediatamente os Kaingang rebateram o argumento demonstrando ao ministro que não existe nenhum conflito entre a comunidade indígena e os pequenos agricultores. Exemplificaram que o que existe na verdade é uma série de disputas encomendadas por ruralistas e políticos que possuem base eleitoral e interesses diretos na região. Denunciaram publicamente o secretário de Desenvolvimento Rural do Estado, Ivar Pavan, e o assessor do governador do RS, Milton Viário, que se faziam presentes na reunião, por práticas coercitivas e de má fé contra os indígenas e apontaram com clareza a demora no processo de demarcação como causador direto dos conflitos insinuados pelo ministro.
Ao tentar se defender das acusações, o secretário Pavan acabou ressaltando outro ponto levantado pelos indígenas que se refere às diferentes formas de ocupação da área pelos supostos agricultores. Segundo os indígenas, e reforçado por Pavan, enquanto alguns agricultores ocupam a terra indígena por terem sido assentados injustamente pelo Estado, através de títulos ilegalmente concedidos pelo governo do estado, existem mais de 200 hectares de terra que foram colonizadas ilegalmente por outros proprietários. Esses 200 hectares já haviam sido oferecidos aos indígenas, sob ordem do próprio governador Tarso Genro, por Milton Viário, Ivar Pavan e Fabiano Pereira em reunião fechada, onde adicionados a uma série de direitos básicos referentes à educação, moradia e saúde, foram usados como tentativa de moeda de troca para que os indígenas abdicassem do tamanho total do território a ser demarcado. 
As lideranças Kaingang presentes, entregaram ao ministro um mapeamento das propriedades que se encontram em área indígena e deverão ser indenizadas e garantiram que os pequenos agricultores diretamente afetados pela demarcação querem a indenização e não identificam os indígenas como inimigos. O que ocorre é que a partir de tanta indefinição e demora é impossível que os agricultores tenham certeza de que serão realmente indenizados pelos órgãos responsáveis.
Depois de apontadas uma série de possibilidades concretas de resolução do problema por parte da comunidade, a reunião teve um encaminhamento dúbio. Os representantes governamentais deixaram aberta a possibilidade de reuniões entre Incra, Funai e os pequenos proprietários para que, caso a caso, sejam encontradas soluções para a retirada dos colonos. Enquanto isso, os indígenas cobraram do ministro a continuidade do processo demarcatório porque, como alegaram, na sequência dos estudos, mais precisamente na etapa denominada levantamento fundiário, esse levantamento dos casos será feito e é necessário para garantir de fato a demarcação.
Por parte da Funai, o órgão afirmou na figura de seu coordenador regional, Roberto Perin, a presença histórica dos indígenas sobre esta área e a seriedade dos laudos e estudos realizados. O próprio ministro, mais uma vez garantindo que não existem possibilidades de revogação da Portaria Declaratória disse ter ciência e certeza de que os estudos realizados pela Funai na área de Passo Grande do Rio forquilha não contém erros e são indubitavelmente verossímeis.
Após o término da reunião, enquanto José Eduardo Cardozo e Pepe Vargas partiram para Porto Alegre para encontrar-se com o conjunto de supostos agricultores, articulados pela Farsul e Fetraf-Sul, denunciados pelos indígenas como causadores de confusão e conflitos, os assessores do ministro da Justiça e do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, junto a Carlos Guedes, presidente do Incra e a Coordenação da Funai de Passo Fundo, se dirigiram à Terra Indígena Passo Grande do Rio Forquilha para ouvir a comunidade e os pequenos agricultores.
Devido ao atraso do ministro na sua chegada em Passo Fundo, muitos dos agricultores que esperavam ansiosos já haviam partido para seus trabalhos cotidianos, porém um grupo de pequenos agricultores permaneceu e garantiu a representatividade destes em meio aos indígenas. Os agricultores falaram abertamente à comitiva governamental. Garantiram que o problema nunca foi deixar a terra, mas sim que desejavam partir com a certeza de que os direitos às indenizações e políticas de compensação fossem cumpridos, para que não perdessem o que acumularam durante suas vidas.
Os pequenos agricultores reclamaram da demora no processo, elencando esta demora como causadora da incerteza de muitos outros agricultores que não estavam presentes no momento. Semelhante ao declarado pelos Kaingang, os pequenos agricultores se declararam amigos dos indígenas e ressaltaram que os conflitos não foram ocasionados pelos ocupantes que se encontram nas áreas a serem demarcadas, mas sim, por elites ruralistas locais que não os deixam participar das reuniões e não os informa sobre o que está realmente acontecendo.
Por fim, houve uma demorada e esclarecedora explicação dos processos indenizatórios por parte da comitiva governamental e os agricultores reafirmaram que estariam satisfeitos com a indenização. Tanto agricultores quanto os Kaingang pediram a continuidade dos estudos e principalmente que se realizasse o levantamento fundiário,a fim de dar maior rapidez à resolução da situação e, por fim, ao clima de incertezas causado pela inércia do ministro da Justiça. A preocupação de ambos os lados é a de que sejam feitas análises de cada caso para estudos de políticas compensatórias e depois de todo este processo ainda tenham de esperar procedimentos oficiais para que a demarcação e os reassentamentos e indenizações possam ser de fato efetuadas.
Quanto à questão da garantia de paz na Terra Indígena Passo Grande do Rio Forquilha, os Kaingang deixaram claro seu posicionamento expresso em documento entregue pelos indígenas ao representante do Ministério da Justiça: não se pode culpabilizar as vítimas por falta de ações efetivas dos próprios órgãos responsáveis. A demora no procedimento demarcatório é o principal gerador de dúvidas e tensões por todos os lados. Ressaltaram ainda que o conflito não se dá entre os pequenos, mas sim por conta de interesses de latifundiários e políticos.
O que a comunidade Kaingang vinha cobrando há muito tempo aconteceu: foram ouvidas as partes diretamente afetadas no processo e as possibilidades de soluções se apresentaram claras e concretas. Os agentes do governo não podem alegar que não sabem o que fazer, nem que providências e que caminho precisam tomar. Está nas mãos do ministro e do governo garantir a aplicação da Constituição Federal e o direito de todos. Só assim haverá a paz que eles cobram de indígenas e de agricultores.
Rio Grande do Sul, 22 de novembro de 2013
Grupo de Apoio aos Povos Indígenas (Gapin)
Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Sul-Equipe Iraí
Fonte: http://cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&action=read&id=7269

O Cristão deve ser sal da terra e luz do mundo

                      Júlio Lázaro Torma*
                       " Uma luz brilha nas trevas para o justo
                         permanece para o bem que fez"
Mateus no seu primeiro livrinho da " JUSTIÇA DO REINO", nos apresenta o sermão da montanha ( 5-7), que faz parte das grandes homilias de Jesus, como a missão dos discípulos(10), parábolas do Reino ( 13), vida em comunidade( 18), polêmico ( 23) e a vinda do Filho do Homem ( 24-25).
  Jesus nos fala nestá parte do sermão da montanha usando as comparações domésticas o sal e a luz do candeeiro. Ao mesmo tempo em que a comunidade materna nos apresenta Jesus no monte, ela nos recorda a subida de Moisés ao monte Horeb para receber as tábuas da Aliança (EX 19-20). Na qual Jesus é o novo Moisés que libertar o seu povo.
  Jesus usa algo do cotidiano das pessoas como a vida doméstica, onde se usa o sal para salgar e dar gosto na comida. Assim como na escuridão da noite se o candeeiro ou a vela para iluminar o lugar em que estamos ou para não nos perder ou sofrer algum acidente dentro de casa.
   Ele ensina que os discípulos devem estar conscientes de que se acham unidos com todos aqueles que anseiam por um mundo novo.Eles não podem se subtrair de suas obras.Não se comprometer com isso é deixar de ser discípulos do Reino. Através do testemunho visível dos discípulos é que os homens podem descobrir a presença e a ação do Deus invisível.
   Como discípulos e discípulas não devemos ser velas apagadas e nem insosso.Quantos cristãos mesmo dentro da Igreja são velas apagadas, que não dão testemunho e que a escondem debaixo da cama?
   Vivemos numa sociedade dita cristã, onde se está em trevas como o desrespeito a dignidade e os direitos humanos dos mais pobres são constantemente violados desrespeitados e mutilando a imagem de Deus que nos fez a sua imagem e semelhança.
   Nós discípulos devemos ser luz e sal da terra, devemos ir a periferia da sociedade e começar a corroer está sociedade centrada em falsos valores e adoradora de falsos ídolos e como o sal salga a comida e corroí a lataria, assim devemos ser nós.
   Ou olhemos a cúpula das Igrejas Ortodoxas em forma de  acebola, simboliza a chama da vela.Várias velas juntas iluminam a escuridão da noite.Muitas vezes nós cristãos acabamos sendo trevas por nossa omissão ou apoio em que damos aos mecanismos de morte e pensamos e agirmos como nos manda o sistema inio em que vivemos e contrária o EVANGELHO.
   Como discípulos devemos dar o nosso testemunho em todos os lugares e momentos de nossa vida, não podemos ser omissos a violência e a qualquer forma de injustiça contra quem quer que seja.
    Vivemos numa época de barulho, poluição sonora e de falsas luzes, as pessoas não querem discursos, mas querem a prática e o testemunho daquilo em que nós falamos e acreditamos.
    Como discípulos devemos ir ao encontro e ao lugar dos pobres e excluídos e a partir deles poderemos ser a luz que ilumina e oi sal  que dá gosto e transforma a sociedade em que vivemos.
        Boas meditações
                     Mt 5, 13-16
________________________
  * Membro do Colegiado Nacional da Pastoral Operária

8 de fev de 2014

Em Brasiléia (AC), pousada de luxo que poderia abrigar imigrantes será demolida

Conjunto abandonado que foi construído com recursos da Caixa Econômica Federal poderia ser utilizado para receber haitianos que hoje ficam em abrigo humanitário
Por Alex Oliveira*
Fotos: Alex Oliveira
Enquanto a discussão sobre o abrigo humanitário de Brasiléia se concentra em fechar a fronteira ou fechar o abrigo, alternativas próximas que poderiam reduzir os efeitos colaterais da alta taxa de imigração seguem mais próximas do que parecem.
Em sessão extraordinária no último dia 15, a câmara dos vereadores de Brasiléia decidiu destruir uma antiga pousada de luxo que já foi cartão postal da cidade. O nome do local: Vila Brasília. Inaugurada no meio de 2006, a pousada esteve em uso por pouco tempo e está abandonada há aproximadamente um ano. Dispõe de uma infra-estrutura desejável a muitos profissionais do turismo: são 13 chalés construídos de acordo com uma arquitetura “amazônica”. Cobertos de palha, têm base de paxiúba. E disfrutam todos de uma projeto detalhado o suficiente para suportar ar-condicionado.
A área comum possui piscina, parque infantil, quadra de areia e restaurante. A instalação elétrica é toda subterrânea e, pelo que indica sua matéria prima, de alta capacidade. Inclui os cabos coaxiais, que traziam o sinal da antena parabólica. Apesar disso, alguns sinais de gambiarras denunciam uma possível redução dessa qualidade. O sistema hidráulico também está todo pronto, incluindo armazenamento, distribuição e esgotamento, além dos hidrantes de segurança. Com os banheiros das suítes e os das áreas comuns, são mais de 30 vasos sanitários, pelo menos 20 pias e uma dezena de mictórios. Tudo já instalado. Há, ainda, uma lavanderia industrial. Cada um desses itens em funcionamento já ultrapassaria, em tamanho e número, a capacidade do atual abrigo humanitário. Mas isso se resume ao que pôde ser visto.
Com uma área coberta de aproximadamente 200 m², a antiga recepção do estabelecimento também conta com banheiros próprios. O espaço de atendimento do restaurante, com mais 200 m², equivaleria ao local onde as refeições são hoje servidas. No entanto, não dependeria de uma lona improvisada, nem do extremo calor por ela provocado, para funcionar. A cozinha industrial já instalada no Vila Brasília e ainda com equipamentos, se também fosse aproveitada, poderia reduzir o custo da comida hoje servida aos imigrantes. Agora financiada pelo governo federal, essa comida provocou, por si só, um processo de licitação.
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Cada um dos 13 chalés, com área coberta de aproximadamente 50 m², estava planejado para receber umas 3 pessoas. Com o propósito da emergência no lugar do luxo, seria tranquilamente capaz de acomodar 10 indivíduos em condições superiores às que são oferecidas pelo atual abrigo. A piscina, com seus 20.000 litros, tem tamanho do trailer da PM que pretende, no abrigo, suprir as necessidade receptivas do local.
Abrigo humanitário
Com 4.000 m² de área total e 1.200 m² sob zinco, o abrigo humanitário de Brasiléia tem uma capacidade de hospedagem alegada de 300 pessoas. Isso significaria uma média de 4 m² de teto disponíveis a cada abrigado. Mas as condições atuais são mais graves: cerca de 1.200 pessoas estariam vivendo no refúgio de Brasiléia, reduzindo o espaço coberto disponível a 1 m² por pessoa. Em outras palavras, se todos ali tivessem um colchão para dormir, não haveria teto para todo mundo.
Ignorados os espaços de cozinha, vestiários, banheiros e bar da piscina, o Vila Brasília tem cerca de 1.000 m² habitáveis, prontos. Pela mesma base de cálculo, seria imediatamente capaz de abrigar 250 imigrantes. Sua área desmatada equivale a mais de 2 refúgios completos e poderia ser aproveitada para estruturas coordenadas, dedicadas à redução do período de permanência dos imigrantes na cidade. A uma distância aproximada de 2,5 km do refúgio atual, o Vila Brasília poderia ser uma alternativa de concentração burocrática.
Já existem propostas pela construção de áreas permanentes para a acomodação de imigrantes, fora do perímetro urbano e mais distantes de Brasiléia. Os custos dessas eventuais construções nunca foram divulgados. Qualquer uma dessas propostas envolveria, ainda, custos logísticos, dado que a acumulação de imigrantes em Brasiléia se deve sobretudo às operações de imigração feitas no entorno. Ponto de fronteira e sede da Receita Federal, o município é vizinho de Epitaciolândia, onde fica a delegacia da Polícia Federal. Toda essa estrutura já montada também seria – ao menos em parte – deslocada para o suposto novo refúgio.
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Resultado de uma parceria entre a prefeitura de Brasiléia e o Governo do Acre, o Vila Brasília surgiu financiado pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) e pela Caixa Econômica Federal. Mas deixou de operar logo que expirou o seu prazo de concessão. Segundo vereadores da cidade, mais de R$ 5 milhões foram gastos na sua construção e operação. O valor supera os R$ 4 milhões alegados por Nilson Mourão como custo estadual da imigração haitiana, na audiência pública de 3 de dezembro de 2013.
Cerca de R$ 50 mil ainda podem ser gastos com a demolição da antiga pousada. A escola pública que seria construída em seu lugar ainda não dispõe de plano de construção ou custo estimado.
* Alex Oliveira é fotógrafo e hoje vive em Brasileia, no Acre, onde além de registrar o cotidiano do abrigo humanitário, trabalha para construir um projeto de ensino de português a imigrantes abrigados no local. Mais do seu trabalho pode ser consultado na página http://www.flickr.com/photos/kblo_bcn.  
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Fonte: http://reporterbrasil.org.br/2014/02/em-brasileia-ac-pousada-de-luxo-quente-poderia-abrigar-imigrantes-sera-demolida/