28 de jul de 2013

Ecologia humana e ecologia ambiental caminham juntas

Cidade do Vaticano,  

Fonte:Zenit.org

A Audiência Geral desta manhã começou às 10h30 na praça de São Pedro, onde o Santo  Padre Francisco encontrou-se com grupos de peregrinos e fieis provenientes da Itália e de outros países. No seu discurso, o Papa centrou a sua meditação no tema "Cultivar e cuidar da Criação", devido à presente Jornada Mundial do Meio Ambiente. A seguir o discurso do Papa: 
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Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje gostaria de concentrar-me sobre a questão do ambiente, como já tive oportunidade de fazer em diversas ocasiões. Também sugerido pelo Dia Mundial do Ambiente, promovido pelas Nações Unidas, que lança um forte apelo à necessidade de eliminar os desperdícios e a destruição de alimentos.
Quando falamos de ambiente, da criação, o meu pensamento vai às primeiras páginas da Bíblia, ao Livro de Gênesis, onde se afirma que Deus colocou o homem e a mulher na terra para que a cultivassem e a protegessem (cfr 2, 15). E me surgem as questões: O que quer dizer cultivar e cuidar da terra? Nós estamos realmente cultivando e cuidando da criação? Ou será que estamos explorando-a e negligenciando-a? O verbo “cultivar” me traz à mente o cuidado que o agricultor tem com a sua terra para que dê fruto e esse seja partilhado: quanta atenção, paixão e dedicação! Cultivar e cuidar da criação é uma indicação de Deus dada não somente no início da história, mas a cada um de nós; é parte do seu projeto; quer dizer fazer o mundo crescer com responsabilidade, transformá-lo para que seja um jardim, um lugar habitável para todos. Bento XVI recordou tantas vezes que esta tarefa confiada a nós por Deus Criador requer captar o ritmo e a lógica da criação. Nós, em vez disso, somos muitas vezes guiados pela soberba do dominar, do possuir, do manipular, do explorar; não a “protegemos”, não a respeitamos, não a consideramos como um dom gratuito com o qual ter cuidado. Estamos perdendo a atitude de admiração, de contemplação, de escuta da criação; e assim não conseguimos mais ler aquilo que Bento XVI chama de “o ritmo da história de amor de Deus com o homem”. Porque isto acontece? Porque pensamos e vivemos de modo horizontal, estamos nos afastando de Deus, não lemos os seus sinais.
Mas o “cultivar e cuidar” não compreende somente a relação entre nós e o ambiente, entre o homem e a criação, diz respeito também às relações humanas. Os Papas falaram de ecologia humana, estritamente ligada à ecologia ambiental. Nós estamos vivendo um momento de crises; vemos isso no ambiente, mas, sobretudo, no homem. A pessoa humana está em perigo: isto é certo, a pessoa humana hoje está em perigo, eis a urgência da ecologia humana! E o perigo é grave porque a causa do problema não é superficial, mas profunda: não é somente uma questão de economia, mas de ética e de antropologia. A Igreja destacou isso muitas vezes; e muitos dizem: sim, é certo, é verdade… mas o sistema continua como antes, porque aquilo que domina são as dinâmicas de uma economia e de uma finança carentes de ética. Aquilo que comanda hoje não é o homem, é o dinheiro, o dinheiro, o dinheiro comanda. E Deus nosso Pai deu a tarefa de cuidar da terra não ao dinheiro, mas a nós: aos homens e mulheres, nós temos esta tarefa! Em vez disso, homens e mulheres sacrificam-se aos ídolos do lucro e do consumo: é a “cultura do descartável”. Se um computador quebra é uma tragédia, mas a pobreza, as necessidades, os dramas de tantas pessoas acabam por entrar na normalidade. Se em uma noite de inverno, aqui próximo na rua Ottaviano, por exemplo, morre uma pessoa, isto não é notícia. Se em tantas partes do mundo há crianças que não têm o que comer, isto não é notícia, parece normal. Não pode ser assim! No entanto essas coisas entram na normalidade: que algumas pessoas sem teto morram de frio pelas ruas não é notícia. Ao contrário, a queda de dez pontos na bolsa de valores de uma cidade constitui uma tragédia. Um que morre não é uma notícia, mas se caem dez pontos na bolsa é uma tragédia! Assim as pessoas são descartadas, como se fossem resíduos.
Esta “cultura do descartável” tende a se transformar mentalidade comum, que contagia todos. A vida humana, a pessoa não são mais consideradas como valor primário a respeitar e cuidar, especialmente se é pobre ou deficiente, se não serve ainda – como o nascituro – ou não serve mais – como o idoso. Esta cultura do descartável nos tornou insensíveis também com relação ao lixo e ao desperdício de alimento, o que é ainda mais deplorável quando em cada parte do mundo, infelizmente, muitas pessoas e famílias sofrem fome e desnutrição. Um dia os nossos avós estiveram muito atentos para não jogar nada de comida fora. O consumismo nos induziu a acostumar-nos ao supérfluo e ao desperdício cotidiano de comida, ao qual às vezes não somos mais capazes de dar o justo valor, que vai muito além de meros parâmetros econômicos. Recordemos bem, porém, que a comida que se joga fora é como se estivesse sendo roubada da mesa de quem é pobre, de quem tem fome! Convido todos a refletir sobre o problema da perda e do desperdício de alimento para identificar vias que, abordando seriamente tal problemática, sejam veículo de solidariedade e de partilha com os mais necessitados.
Há poucos dias, na festa de Corpus Christi, lemos a passagem do milagre dos pães: Jesus dá de comer à multidão com cinco pães e dois peixes. E a conclusão do trecho é importante: “E todos os que comeram ficaram fartos. Do que sobrou recolheram ainda doze cestos de pedaços” (Lc 9, 17). Jesus pede aos discípulos que nada seja perdido: nada desperdiçado! E tem este fato das doze cestas: por que doze? O que significa? Doze é o número das tribos de Israel, representa simbolicamente todo o povo. E isto nos diz que quando a comida vem partilhada de modo igualitário, com solidariedade, ninguém é privado do necessário, cada comunidade pode satisfazer as necessidades dos mais pobres. Ecologia humana e ecologia ambiental caminham juntas.
Gostaria então que levássemos todos a sério o compromisso de respeitar e cuidar da criação, de estar atento a cada pessoa, de combater a cultura do lixo e do descartável, para promover uma cultura da solidariedade e do encontro. Obrigado.
Tradução: Jéssica Marçal/ Canção Nova

26 de jul de 2013

A Juventude da Roça quer viver e cultivar a Vida na terra

                                     Júlio Lázaro Torma*
                                                         " Levante a cabeça,meu parceiro.
                                                           Não deixe o granfino te pisar
                                                           Exija o respeito companheiro
                                                           Daqueles que vêm para te enganar".
                                                                   ( Antonio Gringo)
    O Dia 25 de Julho é um dia especial,o dia em que celebramos o Agricultor e a Agricultora,o Camponês e a camponesa.
   Homens e Mulheres que alimentam o nosso país,que produzem a maior parte da comida do povo brasileiro.
    Há 12.000 anos  existe a profissão do agricultor e ela continua mais importante do que nunca como ela foi no passado.Principalmente numa epoca de ' alimentos" industrializados e processos artificiais tem tomado conta da mesa do consumidor.
   Onde cada vez mais os alimentos contaminados por agrotóxicos,anabolizantes tem causados sérios danos a saúde do trabalhador rural como do consumidor.Ao mesmo tempo em que cresce a transgênia no campo brasileiro que afeta a saúde das pessoas e do ambiente.
   A agricultura ecológica e diversificada tem sido produzida pelos pequenos agricultores.Para isso é precisos termos uma agricultura familiar forte e fortalecer a economia familiar e sabermos de sua importância.
   A agricultura familiar brasileira é muito diversificado com características múltiplas de acordo com cada região e cultura.Mas na essência se caracterizam por trabalhar na terra e produzir alimentos.Além do trabalho,a terra é um espaço onde se produz e reproduz a vida camponesa em todas as suas dimensões:a humana,comunitária,cultural,religiosa,os valores,saberes e sabores.
   Ela é responsável por 74% da mão de obra no meio rural e produz 33,9% do arroz em casca;76,8% do feijão preto;53,9% do feijão em cor;83,3% feijão fradinho;87,7% da mandioca;45,9% do milho;15,7% da soja;21,2% do trigo;30,3% dos bovinos;58,1% do leite;50% das aves e 59% dos suinos.
   Além de frutas,verduras e legumes que abastecem o mercado local,regional e  país; os super mercados, feiras e armazéns.
   Toda a produção produzida por 86% das propriedades e que ocupam apenas 17,1% da área total.
   Do outro lado as propriedades acima de 100 hectares representam 145 das propriedades e ocupam 82,9% da área.Destas,as propriedades de mais de 2000 hectares representam apenas 0,8% das propriedades e ocupam sozinhas 42,5% da área.
   Os jovens da roça querem ficar no campo trabalhando mas acabam sendo expulsos,pelo avanço do agronegócio que o atira para a periferia das cidades,esvaziando o campo.
   No Brasil a roça é visto como algo "atrasado'.Aquele que não consegue nada na vida trabalha na lavoura.
   Esta visão esta entranhada no senso comum é responsavel pelo processo de discriminação e exclusão.Onde o jovem ( rapaz e moça) da roça acaba ficando sozinho e não constituindo família.
   O campo esta ficando envelhecido,as propriedades vázias mesmo nos assentamentos da reforma agrária e dos reassentados das barragens.Causado pelo sufocamento e expulsamento do meio rural a fim de ampliar o dominio de poucos.
   Temos 5,5 milhões de jovens que permanecen no campo.Para isso é preciso que os motivem para que fiquem na roça,criando condições para obter renda,infraestrutura e qualidade de vida.
  Para que os jovens que decidirem ficar na terra é necesario que tenham uma vida digna e acesso a tecnologia,maquinário,terra,informações,transportes,estudos,lazer,cultura,saúde e sobre tudo acesso a políticas públicas.
  Temos em nosso estado diversas iniciativas de produção agroecologicas que ajudam os nossos jovens a ficar no campo e não quebrar o vinculo familiar, com a natureza e em busca de uma vida feliz. 
                  " Se a roça não planta a cidade não janta"
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  * Membro do Colegiado da Pastoral Operária Nacional

19 de jul de 2013

Aristipo e a Extravagância da Virtude

por Breno Lucano


"... nada impede que um homem viva extravagantemente e bem.
Aristipo (DL, II: 69)

Aristipo, filósofo hedonista, filósofo emblemático, portanto. Isso porque incorremos no lugar-comum de que não se pode ser filósofo e hedonista ao mesmo tempo, nada de filosofar e se adentrar em bordéis, participar de banquetes, festas e sensualismo. A filosofia, dizem, não se ocupa disso. A ela deve-se mais respeito, mais determinação e menos ousadia. Pelo menos é o que pensam os que entendem a filosofia como algo capaz de conduzir ao infinito, ao eterno, ao absoluto. Aristipo ao lado de grandes nomes como Heráclito, Parmênides ou Aristóteles? Pouco provável. É curioso como no diálogo Filebo Platão nunca menciona o nome de Aristipo, embora dedique a obra inteira à discurssão do prazer. 

Nosso filósofo de Cirene evita os extremos. Isso o faz, diferentemente de Sócrates e dos platônicos, a exigir dinheiro em troca de suas aulas. Primeira subversão! Aristipo não vê o dinheiro como um bem em si - único bem é o prazer -, mas como um meio de descomplicar a vida, de torná-la mais facilitada. Para ele, a riqueza e a pobreza são dois estados que coagem, entravam a liberdade e impossibilitam uma verdadeira autonomia - lembremos que a autonomia é a palavra-chave na Antiguidade. Nem mendigo nem rico é visto como modelo de virtude. Assim, rejeita tanto os farrapos de Diógenes quanto o brocado de Platão. Se o dinheiro realmente nada vale, que, ao menos, sirva para dispersar as contrariedades.

14 de jul de 2013

Papa Francisco chega ao Brasil em uma semana e pronto para cumprir intensa agenda


Renata Giraldi

Em uma semana, o papa Francisco desembarca no Rio de Janeiro para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Ele ficará quatro dias no Brasil - de 22 a 28 deste mês. É a primeira viagem ao exterior do papa, que passará um dia em Aparecida, no interior de São Paulo. A programação de Francisco é intensa: visita aos moradores da Comunidade da Varginha, conversa com presos e bênção para os doentes de uma instituição mantida por doações.

Francisco será recebido pela presidenta Dilma Rousseff, pelo governador do Rio, Sérgio Cabral, pelo prefeito da capital fluminense, Eduardo Paes, pelo arcebispo do Rio, dom Orani João Tempesta, e pelo arcebispo de Aparecida e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Raymundo Damasceno Assis. O papa ficará hospedado na residência do Sumaré e fará os deslocamentos em um helicóptero.

A visita a Aparecida será de apenas algumas horas, no dia 24 (quarta-feira). O papa celebrará missa, pela manhã, no Santuário Nossa Senhora Aparecida. Antes, fará um passeio de papamóvel nos arredores do santuário. Francisco ganhará de presente uma imagem em cedro de Nossa Senhora Aparecida, de 40 centímetros, do artista plástico mineiro Paulo Henrique Pinto, conhecido como Sodêm.

No dia 25 (quinta-feira), Francisco visitará a Comunidade da Varginha, no Complexo de Manguinhos, na zona norte do Rio, que foi pacificada. O papa fará uma celebração na Igreja São Jerônimo Emiliano, abençoará o novo altar e oferecerá um presente à comunidade. Em seguida, irá ao campo de futebol, onde a comunidade estará reunida. No meio do caminho, o papa deve parar e visitar a casa de uma família.

A primeira celebração na JMJ do papa será no dia 25, na Festa da Acolhida, na Praia de Copacabana. Francisco abençoará os jovens. No dia seguinte (26), Francisco conversará com cinco detentos, no Palácio São Joaquim, que é a residência oficial do arcebispo do Rio. Do balcão do palácio, às 12h, o papa rezará a oração do Angelus.

Alguns dos cartões-postais do Rio serão vistos do alto pelo papa. Ele vai sobrevoar o Cristo Redentor e o Corcovado no caminho da sua residência no Sumaré, na zona norte do Rio. Um dos momentos, considerados mais emocionantes, será o encontro de Francisco com os jovens, na área campestre denominada Campus Fidei. A expectativa dos organizadores é reunir mais de 2 mil de pessoas.

Na celebração no Campus Fidei, haverá a Liturgia da Palavra, com testemunhos e perguntas de cinco jovens ao papa. Francisco responderá e, em seguida, fará a celebração, acompanhado com orações e cantos, troca de presentes e benção. Os jovens dormirão no Campus Fidei, esperando a missa do dia seguinte.

A última missa do papa será no dia 28, às 10h, em Guaratiba. Na ocasião, Francisco anunciará o país que vai sediar a Jornada Mundial da Juventude em 2014. Á tarde, ele tem uma série de compromissos com os organizadores do evento. A previsão é que o papa deixe o Rio rumo a Roma por volta das 19h.
fonte: Agência Brasil

Chamados a Solidariedade


                                                Júlio Lázaro Torma*
                                                       " E quem é o meu próximo?"
                                                                               ( Lc 10,29)
  Neste final de semana em nossas comunidades cristãs, somos chamados pelo evangelista Lucas a ler,escutar, meditar e rezar sobre a Parábola do Bom Samaritano.
  Estamos com Jesus á caminho de Jerusalém,quando ele é interceptado por um doutor da lei,um teólogo oficial da religião judaica, que quer talvez armar uma para cima de Jesus e vem com a seguinte questão," quem é o meu próximo?"
  Para o povo judeu  e assim como é para nós hoje o nosso próximo é aquele na qual eu conheço,meu amigo,tenho boa relação de amizade.Este que faz parte da minha comunidade,era considerado como meu próximo,meu irmão,como diziam os intelectuais da época," Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo"( Mt 5,43).
  Jesus como é de seu feitio transgride a lei e a ordem estabelecida, vai na contra mão ao declarar;" amem os seus inimigos,e rezem por aqueles que vós odeiam"( Mt 5,44).
  Os judeus desprezavam os samaritanos que viviam encravado em seu território. Evitavam passar pela Samaria,ter contato com eles era considerado impuro e faziam uma longa volta da Galiléia a Judéia.
  Os samaritanos eram descendentes de povos que tinham sido transplantados pelo Império Assirio,para colonizar o norte de Israel no século VII a. C ( II Rs 17;24-40),eram vitimas de piadas " sequer é nação o povo idiota que habita em Siquém" ( Eclo 50,25-26),o próprio Jesus foi chamado de " samaritano" ( Jo 8,48) e adoravam a Deus no monte Garizim ( Jo 4,20).
   Jesus fala de um homem assaltado no caminho de Jerusalém a Jericó, que fica caido na beira da estrada.
  Passa pelo ferido três personagens,dois representando o legalismo religioso,os "puros",o sacerdote e o levita que vêem o homem ferido e não fazem nada,olham e dizem " coitado" e seguem o seu rumo para não terem contato com o sangue alheio e ficarem impuro.
  O samaritano,considerado inimigo do judeu é o que vê o ferido,caido na beira da estrada,o socorre e cuida de suas feridas.
  Franz Kafta escreve," A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana".
  Todo o ser humano é solidário,como escreve Santo Agostinho de Hipona, no ' fundo todo o homem é bom".
   Quando alguém tem a sua dignidade atingida e tem a sua vida ferida, seus diireitos humanos violados ou morre de fome, vitima de violência normativa o estatal,em qualquer parte do mundo,eu sou atingido também na minha condição humana.
  onde o distante é o meu próximo, meu irmão,assim como aquele que está bem perto de mim ou tem parentesco sangüinio comigo. A sensibilidade faz parte do ser humano o que faz com que ele sinta-se atingido,o sofrimento alheio e procura ajudar o próximo,aquela pessoa que esta em situação de vulmerabilidade.
   vivemos numa época em que estamos perdendo a sensibilidade, diante do sofrimento alheio,onde vemos alguém caido e evitamos nos aproximar com medo e vivemos num estado de natureza de " todos contra todos" ( Hobbes e Locke).
  Somos chamados a ser solidário que ama a Deus de fato sabe ser solidário com o outro e responde as suas necessidades. O amor e a solidariedade derruba todas as barreiras de raça, sexo,nação, regionalismo,classe social e cores partidárias.
  O próximo é aquele que eu encontro no meu caminho.O legalista estabelece limites para o amor:
  " Quem é o meu próximo?", Jesus como é de práxis inverte a pergunta, " O que você faz para tornar próximo do outro?
  Que esta seja a pergunta nossa para nós mesmos nesta semana que se anuncia.
                     Bom final de semana e boas meditações
                              Lc 10,25-37
_________________________
  * Membro do Colegiado Nacional da Pastoral Operária

9 de jul de 2013

Francisco, um papa universal

É obrigação do papa não fomentar o enfrentamento, mas, muito pelo contrário, ajudar na tolerância

Papa Francisco abraça criança: inspiração na simplicidade
Por José M. Castillo
Acabamos de nos inteirar que o papa Francisco pensa em canonizar João Paulo II e João XXIII. Antes, já havia sido dito que também pensa em beatificar dom Romero. E, agora, sabemos que o papa está pensando em beatificar Álvaro del Portillo, o sucessor de São Josemaría Escrivá de Balaguer na prelazia do Opus Dei. Caso reflitamos, por um momento, que os defuntos que são elevados à honra dos altares representam – entre outras coisas – o modelo da Igreja que se quer apresentar como exemplo para todos os cristãos, torna-se inevitável questionar-se sobre qual a ideia que o papa Francisco possui a respeito do tipo de Igreja que, neste momento, convém ao mundo. Porque é evidente que a Igreja da Polônia (a de João Paulo II) não é a mesma Igreja do Vaticano II (a de João XXIII). Como também a Igreja que era promovida por dom Romero não se parece muito com a Igreja que o Opus Dei sustenta.
Há alguns dias, aqui mesmo, eu escrevia que "o papa Francisco não tem marcha ré". É verdade que não? Não estamos vendo que o papa Bergoglio dá um passo para uma direção com a mesma facilidade pela qual parece que o dá na direção contrária? Portanto, com o que ficamos?
A primeira coisa que parece ser razoável para responder estas perguntas é que, segundo a definição do Concílio Vaticano I (DH 3064) e o ensinamento do Vaticano II (LG 22), o papa tem potestade suprema sobre a Igreja universal. Logicamente, isto quer dizer que o bispo de Roma, como sucessor de Pedro, é o papa de todos os cristãos por igual. O mesmo daqueles que se sentem identificados com as ideias de João Paulo II ou Álvaro del Portillo, com daqueles que se identificam com João XXIII ou dom Romero. É claro, desde que não se prejudique a fé, é permitido sentir-se mais próximo da maneira de pensar, de viver e de aparecer em público deste papa ou do outro. No entanto, a chave de tudo o que estamos tratando aqui não são questões dogmáticas de fé. Estamos falando de presumíveis intenções papais. Intenções que dariam margem para suspeitar que o papa Francisco deseja certo modelo de Igreja ou que prefere outro.
Colocado isto, não há dúvida que o papa Francisco deu provas de sobra que prefere um modelo de exercer o papado que busca se inspirar na simplicidade e humildade do Evangelho de Jesus de Nazaré, o que supõe ir se despojando de manifestações de pompa e luxo que pouco ou nada tem a ver com a imagem de Jesus que os Evangelhos nos oferecem.

Pois bem, se Francisco é papa para todos os cristãos, é igualmente tanto para os cristãos de uma mentalidade como para os de outra. Ao ser eleito papa, Francisco se encontrou com uma Igreja dividida e, em não poucos assuntos, com uma Igreja dividida em grupos opostos. Com as coisas desta forma, é obrigação do papa não fomentar, nem manter a divisão e o enfrentamento, mas, muito pelo contrário, ajudar na tolerância, respeito e união.

Se é que o papa Francisco pensa que o melhor para a união da Igreja é beatificar ou canonizar as pessoas mencionadas ou outras semelhantes, nós, os crentes em Jesus de Nazaré, o que temos que fazer é respeitar o papa Bergoglio em suas decisões. Não apenas respeitá-lo, mas, especialmente, unir-nos a ele. E, unidos ao Papa, ajudar a todos a recompor a unidade da Igreja. Por isso – se é que a Igreja nos importa de verdade –, a única coisa razoável que podemos fazer é deixar de puxar cada um o tapete do outro, com a intenção de (seja pelo que for) ficar por cima daqueles que consideramos nossos adversários. Apenas a união de todos com todos, em torno da bondade que aprendemos no Evangelho de Jesus, poderá ser decisiva para a renovação da Igreja.

Para terminar, quero apenas acrescentar que tomar seriamente esta postura na vida pode nos custar muito. No Sermão da Montanha, Jesus nos ensinou, inclusive, a renunciar o exercício de nossos próprios direitos humanos. Na medida em que nos unamos ao Papa nesta postura fundamental, nessa mesma medida estaremos fazendo o mais eficaz que podemos fazer, neste momento, para o futuro dessa Igreja pela qual todos nós sonhamos. E que será – caso se realize este projeto – uma força de reconstrução e humanização deste mundo, no qual se tornará possível viver com paz e esperança.

Fonte: domtotal.com
Teología Sin Censura, 07-07-2013.

7 de jul de 2013

As chaves da encíclica escrita por Bento e assinada por Francisco


Lumen Fidei: a fé como 'uma grande luz de uma grande verdade'
Por José Manuel Vidal
Uma encíclica, a Lumen Fidei, que se converte no sinal máximo de humildade de um papa. E um marco histórico, por ser uma encíclica escrita a “quatro mãos”. Ou melhor dito, obra majoritariamente de Bento, com uma introdução e um epílogo de Francisco. Mas assinada por este. Do contrário, o escrito do papa emérito nunca teria adquirido essa categoria. Um status ao qual galga a inusitada humildade de seu sucessor. É a continuidade descontínua. É o magistério conjunto de dois Papas.
E o reconhece aberta e claramente: "(Bento XVI) já havia completado praticamente uma primeira redação desta carta encíclica sobre a fé. Agradeço-lhe de coração por isto e, na fraternidade de Cristo, assumo seu precioso trabalho, acrescentando ao texto algumas contribuições". Concretamente, as primeiras nove páginas da introdução e, talvez, a oração conclusiva a Maria.

Além disso, está clara a autoria do papa Ratzinger. Em seu estilo, em suas profundas ancoragens teológicas e até nos autores citados. De Santo Agostinho até Santo Tomás, passando por Dostoievski, Martin Buber, o rabino Di Kock ou Wittgenstein.

Na introdução, Francisco delimita e apresenta o objetivo da encíclica: responder à velha objeção de que “a fé já não serve para os tempos atuais, para o homem adulto, que se jacta de sua razão, ávido por explorar o futuro de uma nova forma”. É a clássica e temida objeção de Nietzsche, que considera a fé uma miragem contrária à verdade. Algo obscuro e de outra época.

"A grande luz"
Por isso, a encíclica está pensada para demonstrar que a fé é e continua sendo “uma grande luz de uma grande verdade” e “com capacidade para iluminar toda a existência humana”. Ou, com as palavras de Dante: “Faísca, / que se converte em chama cada vez mais ardente / e cintila em mim, qual estrela no céu”.

Uma vez delimitado o objetivo, o papa pároco e pastor passa a batuta e a pena ao papa teólogo e brilhante intelectual, que traça uma de suas lições teológicas magistrais de costume. Talvez, desta vez, inclusive fazendo um esforço maior de divulgação e adocicando suas propostas em chave de amor. A fé à luz do amor ou a partir do amor, a chave na qual coincidem ambos os Papas. “Deus é amor”, disse Bento em sua primeira encíclica. “Deus nos ama e nos perdoa”, repete constantemente Francisco. Amor que leva à fé e fé que se alimenta do amor.

"Acreditamos no amor”
Este é o título do primeiro capítulo, no qual o papa emérito faz um percurso pela fé ao longo da história. Desde Abraão, Moisés, e a fé de Israel, até chegar à “plenitude da fé cristã” e da fé vivida na Igreja, que, como disse Romano Guardini, é “a portadora histórica da visão integral de Cristo sobre o mundo”. Porque a fé “não é um fato privado nem uma opinião subjetiva”.

Uma fé que, evidentemente, não é incompatível com a verdade. Ao contrário, “a fé sem verdade não salva”, é “uma bela fábula, a projeção dos nossos sonhos”. A verdade é que a cultura atual, “que perdeu a percepção da presença concreta de Deus”, trata de demonstrar todo o contrário.

Para a cultura moderna só existe “a verdade da tecnologia” e olha com suspeita “a grande verdade, que explica o conjunto da vida pessoal e social”. E, com essa verdade, a sociedade caiu nos totalitarismos do século passado e está caindo no relativismo hoje.

Igreja, sujeito único da memória

Para sair desta espiral, a encíclica propõe uma fé baseada no amor, “que transforma a pessoa por completo”. Uma fé fundamentada na razão e, portanto, “nada arrogante nem intransigente, mas humilde” e sempre em busca. Como os Reis Magos. Ou como os teólogos que a atualizam permanentemente, sem perder de vista seus limites.

Uma fé que é transmitida na memória eclesial, através do “sujeito único da memória que é a Igreja”. De geração em geração. “O rosto de Jesus chega até nós através de uma cadeia ininterrupta de testemunhas”.

Para nos ensinar a falar a linguagem da fé, a Igreja, como uma mãe, utiliza quatro elementos: a confissão da fé, os sacramentos, a oração e os mandamentos. Um decálogo que não pode ser visto como um semáforo sempre no vermelho, mas como “indicações concretas para sair do deserto do eu autorreferencial e entrar em diálogo com Deus, deixando-nos abrir por sua misericórdia para levar sua misericórdia”. Uma passagem na qual ressoam com força os ecos de Francisco e sua aposta na misericórdia e na ternura de Deus que nos precede.

A fé como “luz para a vida social”
No último capítulo, a encíclica trata de demonstrar que a fé pode beneficiar “a cidade dos homens”. Ao contrário do que se costuma dizer, “a fé não afasta do mundo”, mas “se coloca a serviço da concretização da justiça, do direito e da paz”. E, portanto, converte-se “em um bem para todos, em um bem comum”.

E o papa, ou os papas, enumera alguns dos frutos sociais da fé. Por exemplo, a família entendida como “união estável entre um homem e de uma mulher”, a dignidade da pessoa, o respeito à natureza (“gramática escrita por Deus”) e a aposta no perdão. Ou a força consoladora que oferece diante do sofrimento e da morte. Em definitiva, a fé como “um serviço de esperança”.

O epílogo franciscano
A encíclica termina como começou: pela mão de Francisco. Com palavras e imagens com as quais já estamos acostumados. Com uma bela oração a Maria, “mãe da nossa fé”, para lhe pedir que “nos deixemos tocar pelo amor de Deus”, para “confiarmos plenamente n’Ele”, sobretudo nos momentos de tribulação. Para que nos recorde sempre que “quem acredita nunca está sozinho” e para que nos ensine a “olhar com os olhos de Jesus”.

“Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de junho, solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, do ano de 2013, primeiro do meu Pontificado”. Francisco (E assina à mão o Papa que reconhece não ter escrito a encíclica).

Fonte: Dontotal
Religión Digital, 05-07-2013.

6 de jul de 2013

Francisco de Assis e Francisco de Roma

"Francisco viveu a antítese do projeto imperial de Igreja. Ao evangelho do poder, apresentou o poder do evangelho: no despojamento total, na pobreza radical e na extrema simplicidade. Não se situou no quadro clerical nem monacal, mas como leigo se orientou pelo evangelho vivido ao pé da letra nas periferias das cidades, onde estão os pobres e hansenianos e no meio da natureza, vivendo uma irmandade cósmica com todos os seres", escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.  Leia mais:

4 de jul de 2013

Disciplinas Espirituais - Adoração

"No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em Espírito e em Verdade. São estes os adoradores que o Pai procura." (João 4:23)
Não encontrei nenhum versículo na Bíblia que fale que Deus procura adoração. Nenhum. Econtrei alguns que falam que Ele recebe adoração, mas não que Ele "procura". Mas este versículo diz que Ele procura adoradores. Adoração não, adoradores sim.
Uma disciplina é tudo que fazemos repetidamente, da mesma forma. Uma disciplina espiritual essencial para nossa vida é a adoração, genuína, sincera, íntima, espontânea. Precisamos quebrar o paradigma de que adorar é cantar. Adorar é reconhecer e elogiar a essência de Deus, do Seu Ser, de Seu Caráter, aquilo que Ele é.
Minhas palavras precisam expressar que eu reconheço o quanto Deus é Santo, Maravilhoso, Poderoso, Excelso, Soberano... Minhas atitudes precisam ser compatíveis com isso, igualmente expressando o que penso e sinto a respeito Dele. Pensa comigo meu irmão: se você trata com frieza e indiferença sua namorada, noiva, esposa - dançou! É questão de tempo e vai ficar sozinho. O que precisamos aprender com isso é que as pessoas que amamos precisam ser tratadas como pessoas que amamos.
Com o nosso grande Deus não é diferente. Se nós não nos disciplinamos para dizer (e não apenas com palavras) o quanto amamos o que Ele é, realmente não compreendemos de fato o que significa amá-lo. O grande desafio, aliás, nem são as palavras mas as atitudes. Como posso dizer que amo a Deus sem usar palavras?
As formas de adoração prática que eu consigo elencar aqui sem muito esforço são sempre as mesmas: obediência, foco na missão, amor pelos perdidos, santidade, testemunho público irrepreensível, cuidado e serviço para com os demais...
Nada impede que tenhamos uma vida de adoração, a não ser a nossa própria comodidade, preguiça e conforto. Tenho aprendido que estes são os verdadeiros inimigos do amor e portanto da adoração.
"Senhor, não me permita perder o foco na disciplina da adoração - quero Te adorar continuamente e disciplinadamente."
Mário Fernandez

1 de jul de 2013

Crescendo em Oração - Mãos Limpas


"Quando vocês estenderem as mãos em oração, esconderei de vocês os meus olhos; mesmo que multipliquem as suas orações, não as escutarei! As suas mãos estão cheias de sangue!" (Isaías 1:15)
A Bíblia ensina que um dos motivos que impede nossas orações é estar com as mãos sujas de sangue. No contexto do Antigo Testamento havia sangue no sentido literal, guerra, sacrifício com sangue. No Novo Testamento, precisamos entender o que significa.
Sangue representa vida. Ser nenhum permanece vivo tendo seu sangue drenado. Em nossos dias, especialmente na realidade brasileira do século XXI, pouco ou nada manipulamos de sangue, pelo menos a maioria de nós. Compramos carne no açougue, não matamos o animal. Não estamos em guerras territoriais ou militares, não estamos nos sujando de sangue humano neste sentido.
MAS, somos responsáveis pela vida dos que nos cercam, principalmente no sentido espiritual e de eternidade. Quando permitimos que nosso egoísmo e senso de conforto supere o amor pelo próximo, ao invés de compartilhar com ele nossa fé nós ignoramos ou nos tornamos indiferentes. O maior inimigo do amor não é o ódio, mas a indiferença casada com o egoísmo. Portanto, no sentido da Nova Aliança, podemos estar com as mãos cheias de sangue inocente. Basta negligenciarmos a vida de nossos parentes, amigos, vizinhos, colegas. Basta que apresentemos desculpas ao invés de apresentar resultados.
Não sou partidário de que devamos todos ser evangelistas do tipo que sai na rua, que bate nas portas, que prega nas praças. Para alguns, sim. Mas nossa VIDA deve pregar mais que nossas palavras. Nem por isso devemos nos calar. TUDO em nós deve testificar de nossa fé, da vida de Jesus em nós. Se nos é pesado falar, se não temos coragem, se temos vergonha...
Será que não é essa mão suja que impede nossas orações? Será que não é esse sangue que suja nossas mãos? No mínimo, mas no mínimo, a reflexão é merecida e apropriada.
"Senhor, me perdoe a indiferença, o conforto pernicioso, o egoísmo. Muda meu caráter e me faz sentir compaixão, me importar com meu próximo. Limpa minhas mãos para minha oração ser ouvida."
Mário Fernandez