7 de jul de 2013

As chaves da encíclica escrita por Bento e assinada por Francisco


Lumen Fidei: a fé como 'uma grande luz de uma grande verdade'
Por José Manuel Vidal
Uma encíclica, a Lumen Fidei, que se converte no sinal máximo de humildade de um papa. E um marco histórico, por ser uma encíclica escrita a “quatro mãos”. Ou melhor dito, obra majoritariamente de Bento, com uma introdução e um epílogo de Francisco. Mas assinada por este. Do contrário, o escrito do papa emérito nunca teria adquirido essa categoria. Um status ao qual galga a inusitada humildade de seu sucessor. É a continuidade descontínua. É o magistério conjunto de dois Papas.
E o reconhece aberta e claramente: "(Bento XVI) já havia completado praticamente uma primeira redação desta carta encíclica sobre a fé. Agradeço-lhe de coração por isto e, na fraternidade de Cristo, assumo seu precioso trabalho, acrescentando ao texto algumas contribuições". Concretamente, as primeiras nove páginas da introdução e, talvez, a oração conclusiva a Maria.

Além disso, está clara a autoria do papa Ratzinger. Em seu estilo, em suas profundas ancoragens teológicas e até nos autores citados. De Santo Agostinho até Santo Tomás, passando por Dostoievski, Martin Buber, o rabino Di Kock ou Wittgenstein.

Na introdução, Francisco delimita e apresenta o objetivo da encíclica: responder à velha objeção de que “a fé já não serve para os tempos atuais, para o homem adulto, que se jacta de sua razão, ávido por explorar o futuro de uma nova forma”. É a clássica e temida objeção de Nietzsche, que considera a fé uma miragem contrária à verdade. Algo obscuro e de outra época.

"A grande luz"
Por isso, a encíclica está pensada para demonstrar que a fé é e continua sendo “uma grande luz de uma grande verdade” e “com capacidade para iluminar toda a existência humana”. Ou, com as palavras de Dante: “Faísca, / que se converte em chama cada vez mais ardente / e cintila em mim, qual estrela no céu”.

Uma vez delimitado o objetivo, o papa pároco e pastor passa a batuta e a pena ao papa teólogo e brilhante intelectual, que traça uma de suas lições teológicas magistrais de costume. Talvez, desta vez, inclusive fazendo um esforço maior de divulgação e adocicando suas propostas em chave de amor. A fé à luz do amor ou a partir do amor, a chave na qual coincidem ambos os Papas. “Deus é amor”, disse Bento em sua primeira encíclica. “Deus nos ama e nos perdoa”, repete constantemente Francisco. Amor que leva à fé e fé que se alimenta do amor.

"Acreditamos no amor”
Este é o título do primeiro capítulo, no qual o papa emérito faz um percurso pela fé ao longo da história. Desde Abraão, Moisés, e a fé de Israel, até chegar à “plenitude da fé cristã” e da fé vivida na Igreja, que, como disse Romano Guardini, é “a portadora histórica da visão integral de Cristo sobre o mundo”. Porque a fé “não é um fato privado nem uma opinião subjetiva”.

Uma fé que, evidentemente, não é incompatível com a verdade. Ao contrário, “a fé sem verdade não salva”, é “uma bela fábula, a projeção dos nossos sonhos”. A verdade é que a cultura atual, “que perdeu a percepção da presença concreta de Deus”, trata de demonstrar todo o contrário.

Para a cultura moderna só existe “a verdade da tecnologia” e olha com suspeita “a grande verdade, que explica o conjunto da vida pessoal e social”. E, com essa verdade, a sociedade caiu nos totalitarismos do século passado e está caindo no relativismo hoje.

Igreja, sujeito único da memória

Para sair desta espiral, a encíclica propõe uma fé baseada no amor, “que transforma a pessoa por completo”. Uma fé fundamentada na razão e, portanto, “nada arrogante nem intransigente, mas humilde” e sempre em busca. Como os Reis Magos. Ou como os teólogos que a atualizam permanentemente, sem perder de vista seus limites.

Uma fé que é transmitida na memória eclesial, através do “sujeito único da memória que é a Igreja”. De geração em geração. “O rosto de Jesus chega até nós através de uma cadeia ininterrupta de testemunhas”.

Para nos ensinar a falar a linguagem da fé, a Igreja, como uma mãe, utiliza quatro elementos: a confissão da fé, os sacramentos, a oração e os mandamentos. Um decálogo que não pode ser visto como um semáforo sempre no vermelho, mas como “indicações concretas para sair do deserto do eu autorreferencial e entrar em diálogo com Deus, deixando-nos abrir por sua misericórdia para levar sua misericórdia”. Uma passagem na qual ressoam com força os ecos de Francisco e sua aposta na misericórdia e na ternura de Deus que nos precede.

A fé como “luz para a vida social”
No último capítulo, a encíclica trata de demonstrar que a fé pode beneficiar “a cidade dos homens”. Ao contrário do que se costuma dizer, “a fé não afasta do mundo”, mas “se coloca a serviço da concretização da justiça, do direito e da paz”. E, portanto, converte-se “em um bem para todos, em um bem comum”.

E o papa, ou os papas, enumera alguns dos frutos sociais da fé. Por exemplo, a família entendida como “união estável entre um homem e de uma mulher”, a dignidade da pessoa, o respeito à natureza (“gramática escrita por Deus”) e a aposta no perdão. Ou a força consoladora que oferece diante do sofrimento e da morte. Em definitiva, a fé como “um serviço de esperança”.

O epílogo franciscano
A encíclica termina como começou: pela mão de Francisco. Com palavras e imagens com as quais já estamos acostumados. Com uma bela oração a Maria, “mãe da nossa fé”, para lhe pedir que “nos deixemos tocar pelo amor de Deus”, para “confiarmos plenamente n’Ele”, sobretudo nos momentos de tribulação. Para que nos recorde sempre que “quem acredita nunca está sozinho” e para que nos ensine a “olhar com os olhos de Jesus”.

“Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de junho, solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, do ano de 2013, primeiro do meu Pontificado”. Francisco (E assina à mão o Papa que reconhece não ter escrito a encíclica).

Fonte: Dontotal
Religión Digital, 05-07-2013.

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