10 de jun de 2015

Nós o Crucificamos!!!

                             Júlio Lázaro Torma
                            " Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!"
                                                                         ( Lc 23, 34)
   No último domingo ocorreu em São Paulo, a parada do orgulho gay. E no meio do protesto um ato que ofendeu algumas facções radicalizadas e fundamentalistas do cristianismo.
    Onde uma transexual fez a performance de Jesus crucificado e sob a cabeça estava  a inscrição de " Basta Homofobia GLBT", onde alguns se sentiram ofendidos pelo ato da transexual. Eu como cristão e católico praticante não me ofendi com a imagem da crucificação.
    Para mim ela além de ser um protesto foi um grito para nos chamar a dura realidade dos crucificados do nosso tempo e do nosso país que está cada vez mais retrogrado, conservador e fundamentalista.
     Jesus é crucificado diariamente em nosso país e assume muitos rostos, como tem dito os nossos bispos latino americanos, diversas vezes nas suas conferências em Puebla, Santo Domingo e Aparecida, de que Jesus tem diversos rostos, como sem terra, sem teto, desempregados, indígenas, negros, mulheres, imigrantes, refugiados, presidiários, menores abandonados e porque não dizer também os homossexuais.
    Pessoas estas que são estigmatizadas pela sociedade e por nós cristãos. Quantas vezes nós não os estigmatizamos e não demos o nosso testemunho de cristãos.
   Como nos fala Mohandas Karamchan Gandhi, " Eu seriá cristão, sem dúvida, se os cristãos o fossem vinte e quatro horas por dia". O que não acontece e nós não mostramos aos outros a verdadeira mensagem e imagem de Jesus que viveu e pregou o Amor.
   Jesus em sua vida terrena não andou no meio de pessoas de bem, mas foi para o meio dos marginalizados da sociedade de seu tempo como as prostitutas, pecadores, leprosos e os cobradores de impostos ( corruptos), aqueles que eram considerados " esse povinho maldito que não conhece a Lei" ( Jo 7, 49) pelos lideres religiosos de seu tempo. E que morreu como um amaldiçoado entre dois ladrões.
   O gesto da transexual condenado pelos religiosos como uma blasfêmia a fé cristã, por aqueles que sempre condenaram as encenações da paixão feita pelos católicos. Ali naquele gesto está o desespero de toda a comunidade GLST, que são diáriamente assassinados nas ruas e esquinas do nosso país. O Brasil é um dos países que mais assassinam e humilham homossexuais no mundo.
   É um grito para nós cristãos a nos chamar a dura realidade, onde pregamos o amor de um lado e ao mesmo tempo incentivamos o ódio e a marginalização dos outros, os chamando e considerando como doentes, e querendo a sua cura.
   Nos esquecemos que " Deus nos fez a sua imagem e semelhança", " para que neles se manifestem as obras de Deus" e " que todos nós somos filhos e filhas de Deus" (  Gn 1,27; Jo 9,3 ; I Jo 3, 1ss).
    Onde muitos desses irmãos e irmãs, foram expulsos das Igrejas, comunidades cristãs, rejeitados pelas famílias em nome da moral e dos bons costumes e sofrem toda a forma de violência e atrocidades.
    Devemos entender que quem sofre se sente como Jesus na cruz e se identifica com ele. O gesto da transexual na cruz deve ser visto como um apelo para nós cristãos de nos converter e ver no outro a imagem do crucificado.
    Que é crucificado diariamente nos irmãos sofredores por causa do nosso ódio.
    Vivemos num país de maioria cristã a onde não vivemos de fato e nem de direito o maior mandamento deixado por Ele, " Amem -se vos uns aos outros, assim como eu amei vocês" (  Jo 14, 12).
    Onde está o testemunho de amor de nós cristãos, diante da dor desses irmãos?, como podemos ser cristãos se em cada 24 horas um homossexual é morto no Brasil; uma em cada 3 mulheres já tenha sofrido algum tipo de abuso sexual?. E recebemos o triste prêmio de que 39% de assassinatos de transexuais acontece em nosso país, algo em que nós cristãos devemos nos envergonhar e pedir perdão por este pecado que branda aos céus.
   Em que o grito dos crucificados, desesperados  do socorro que não vem de nenhuma parte, cuja única esperança é o céu, como fez Jesus na cruz.
    A cruz é um simbolo da fé, da resistência, de sofrimento e da presença de Jesus Cristo no meio do povo. Mais que um símbolo, a cruz ajuda a construir uma mística de resistência aos sofrimentos inerentes á vida de quem sofre e uma comparação com as perseguições e a luta de Jesus com os poderosos de seu tempo para mostrar um caminho novo.
   Hoje os homossexuais são também a feição sofredora de Cristo, o Senhor, que nos questiona e nos interpela, querendo ser ouvido, escutado, amado e respeitado como são.
   Jesus no olhar e no rosto desfigurado dos homossexuais nos chama a dura realidade, " Em verdade eu vos declaro, todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos foi a mim que fizestes" ( Mt 25, 45).
   Como podemos dizer que amamos a Deus que não vemos se nós desprezamos, ferimos e somos causa de queda para os irmãos, que vemos.
   Está mais do que na hora de nós cristãos deixarmos de ser hipócritas e pedir perdão pelas vezes que ferimos o outro por causa de sua orientação sexual e gênero, somos causadores de sofrimento e morte.
    O protesto de transexual crucificada não me ofende como cristão, mas me chama a conversão de ver o outro como um irmão e irmã, o outro eu que merece o meu respeito e amor. De que devemos acolher e respeitar o outro como ele é.
   E mostrar aos homossexuais que Deus os ama e os fez a sua imagem e semelhança e que não os excluí na sua família,pois Deus é Amor.
    Pois nós crucificamos Jesus hoje de novo no irmão que sofre todo o tipo de discriminação.

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