22 de out de 2013

Francisco antes de Francisco: as linhas-guia do pontificado





A revolução do Santo Padre vem de longe, e é necessário um conhecimento de fundo.
Por Gian Guido Vecchi



Em certo ponto, Jorge Mario Bergoglio cita uma frase de Edith Stein, a grande filósofa judia que entrou no Carmelo, optou por compartilhar o destino do seu povo em Auschwitz e não se cansava de repetir: "Eu não sei o que Deus decidiu fazer através de mim, mas não tenho motivo de me preocupar com isso".
Poderia ser a epígrafe de "È l’amore che apre gli occhi" (É o amor que abre os olhos), o livro que é publicado nessa semana e oferece, pela primeira vez na Itália, uma antologia de Francisco antes de Francisco: 400 páginas de homilias, discursos e cartas pastorais do cardeal de Buenos Aires Jorge Mario Bergoglio compõem uma coleção imprescindível para compreender realmente o pontífice que veio "quase do fim do mundo". Até porque, especialmente na Itália e na Europa, a surpresa da sua eleição fez com que ele fosse percebido e comentado, com relativos e recorrentes mal-entendidos, quase como se tivesse saído de repente do hiperurânio.

Certamente, o magistério de um papa é algo que vai além do que o bispo de Roma eleito na Capela Sistina dizia na sua velha diocese. Mas a revolução de Francisco vem de longe, e é necessário um conhecimento de fundo, nem que seja para evitar os equívocos de quem interpreta como "relativista" a espiritualidade de um pastor que exorta a "não mercantilizar a verdade" ("A tentação para Igreja foi e sempre será a mesma: evitar a cruz"), ou para não se admirar demais com a confiança que ele mostra na capacidade da consciência de distinguir o bem do mal, mesmo entre os não crentes, como se não fosse justamente a consciência o lugar do juízo moral e, em uma perspectiva de fé, do encontro com Deus.

O arbítrio individual não tem nada a ver com isso. Ao contrário, um princípio-chave da espiritualidade dos jesuítas é que "Deus trabalha e opera por mim em todas as coisas criadas na face da terra", como lemos nos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola: a ideia de que Deus já está operando antes que cheguemos.

Assim, a tarefa de um guia espiritual é "acompanhar" quem recebe os exercícios, sem se interpor entre a pessoa e Deus. Justamente como explica no livro o cardeal jesuíta de Buenos Aires: um "educador" é aquele que, literalmente, "puxa para fora o que está dentro e conduz", do latim, educere; e "autoridade", de augere, não significa exercer o poder, mas sim "nutrir e fazer crescer".

Daí a importância da consciência: quem educa e exerce autoridade "torna-se aquele que guia ao longo do caminho da interioridade rumo à fonte que nutre, inspira, faz crescer, consolida e impulsiona para a missão".

Além disso, o livro foi publicado na Argentina em 2007 com o título El verdadero poder es el servicio [O verdadeiro poder é o serviço]. Aquele ano estava destinado a se tornar importante na história da Igreja, não só na sul-americana. Por pouco mais de uma semana, de 13 a 21 de maio, em uma cidadezinha brasileira que hospeda o maior santuário mariano do mundo, Aparecida, reuniu-se a Quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, aberta por Bento XVI.

Surgiu daí um texto que continha em semente as linhas fundamentais do pontificado de Francisco, até porque o cardeal Bergoglio havia sido escolhido pelos outros bispos para liderar a comissão encarregada de escrevê-lo. E bastaria a passagem do documento de Aparecida que o arcebispo de Buenos Aires cita na carta aos catequistas, no fim do livro: "Não resistiria aos embates do tempo uma fé católica reduzida a uma bagagem, a um elenco de algumas normas e de proibições, a práticas de devoção fragmentadas, a adesões seletivas e parciais das verdades da fé, a uma participação ocasional em alguns sacramentos, à repetição de princípios doutrinais, a moralismos brandos ou crispados que não convertem a vida dos batizados. Nossa maior ameaça é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja na qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez. A todos nos toca recomeçar a partir de Cristo, reconhecendo que não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva".

No fim de julho, durante a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, Francisco dirigiu aos bispos brasileiros um discurso memorável sobre Aparecida como "chave de leitura da missão da Igreja", a partir do evento que deu o nome à cidadezinha: a Nossa Senhora "aparecida" nas águas do rio, a estatueta de argila que três pobres pescadores puxaram a bordo em 1717, a necessidade de voltar ao essencial do Evangelho e a "gramática da simplicidade" como "lição" a se reaprender, caso contrário "a nossa missão está destinada ao fracasso".

Nessa ocasião, o papa, para representar a situação da Igreja, evocou o episódio evangélico dos discípulos que fugiam de Jerusalém para Emaús depois da crucificação e aquele que eles consideravam como o "fracasso" do Messias. O "mistério" das pessoas que se afastam: como Jesus em Emaús, "é preciso uma Igreja que não tenha medo de entrar na noite deles, de encontrá-los no seu caminho".

No livro, repete-se uma imagem bíblica afim, o ícone de outra fuga: o profeta Jonas, que Deus havia enviado a Nínive, "a grande cidade, símbolo de todos os excluídos e marginalizados", e que, ao invés, corre na direção oposta.

A fuga, assim como o fechamento em si mesmo, nunca é a melhor solução. "O encontro com Deus é sempre uma novidade e nos exorta a renunciar dos hábitos, a nos colocar em marcha para as periferias e as fronteiras, onde se encontra a humanidade mais ferida e onde os jovens, por trás da sua aparência de superficialidade e conformismo, nunca se cansam de procurar uma resposta para as suas perguntas sobre o sentido da vida".

São coisas que ele dizia desde os anos em que guiava a Diocese de Buenos Aires, quando ele tinha escolhido uma salinha vazia no palácio, em vez do apartamento do arcebispo, circulava pela cidade de ônibus e metrô, e à noite andava incógnito pela favela Villa 21.
Sempre a partir de querigma, do núcleo essencial da fé, como em uma homilia do dia 25 de dezembro: "Embora revivamos o Natal todos os anos, precisamos nos admirar mais uma vez diante de um Deus que escolhe a periferia da cidade de Belém e a periferia existencial dos pobres e dos marginalizados do seu tempo para se manifestar ao mundo".
Sair "das grutas", abrir-se ao mundo. "A um olhar superficial, uma pessoa aberta pode parecer alguém que deixa estar ou que sabe se virar, que não é rígida. Mas, por trás das atitudes puramente exteriores, sempre se esconde uma essência profunda, e as pessoas percebem isso. Um sacerdote aberto, nessa ótica, é um sacerdote capaz de ouvir os outros, mantendo-se firme, porém, nas suas convicções".
A revolução de Bergoglio é, acima de tudo, de estilo, de atitude. Trata-se de saber ouvir a todos, porque "é impossível amar a Deus e ao próximo sem fazer este primeiro gesto: ouvi-los". E de mudar de olhar: os "olhos do amor" são aqueles que "enobrecem" o que observam. Até porque sabem que Deus já está operando, como diz Bergoglio em uma das passagens mais bonitas do livro: "Embora na nossa vida, de diferentes maneiras, buscamos a Deus, na verdade, é Ele que nos busca, é Ele que nos espera. Ele é como a flor de amêndoa, cara aos profetas, porque floresce antes que as outras: assim, o Senhor ´nos antecipa´ no amor. E o faz há séculos já. Jesus nos precede e nos espera na Galileia há 2.000 anos: no lugar do primeiro encontro com Ele, aquele que cada um de nós guarda em um cantinho do próprio coração. Devemos acelerar o passo para ir ao seu encontro".
Fonte:  http://www.domtotal.com/notic/detalhes.php?notId=683775
Corriere della Sera, 21-10-2013.

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