18 de jan de 2014

O batismo cristão, um batismo de compromisso

Por Raymond Gravel*
Após o relato do Batismo do Senhor do Evangelho de Mateus, agora vem o de João. Ao contrário de outros relatos de batismo, em que é Jesus que se vê investido pelo Espírito, aqui em João é João Batista quem vê, e vendo, testemunha a identidade daquele que foi até ele: “Este é o Filho de Deus” (Jo 1,34). Mas este relato é profundamente teológico e devemos ter isto presente para compreendê-lo corretamente, para interpretá-lo corretamente e para melhor atualizá-lo; o que não faz André Beauchamp em Prions en Église desta semana, nas páginas 31-32.
Caso ignorarmos a teologia do evangelista João, podemos correr o risco de passar à margem da sua mensagem. São João serve-se do acontecimento do batismo de Jesus feito por João Batista e que é contado pelos outros evangelistas: batismo de água e de conversão, para anunciar um batismo novo, dado, desta vez, pelo Cristo ressuscitado: batismo do Espírito, do Pentecostes, do engajamento cristão na Igreja de Cristo. Mas por que este relato?

1. João tem sua maneira de fazer as coisas. Ele escreve seu evangelho depois dos outros, e assim como eles, após a ressurreição do Senhor, e ele projeta, de uma maneira mais que evidente, sobre a vida de Jesus, a luz deste depois. Para compreendê-lo corretamente, devemos observar dois traços particulares:

1.Na época do evangelista João (final do 1º século, começo do segundo), ainda existe uma comunidade batista, concorrente do cristianismo, fiel ao Batista morto. É por isso que o evangelista João não diz claramente que João Batista batizou Jesus, para não colocar Cristo em situação de inferioridade em relação ao Batista.

2.O evangelista João não estava preocupado com o que o Batista pensava sobre Jesus. Na verdade, ele coloca nos seus lábios o que todo cristão deve crer e ao qual deverão se unir os batistas. Veremos um pouco mais adiante que alguns discípulos batistas seguirão Jesus (Jo 1,35-51).

2. Para os seus discípulos, o Batista designa Jesus, primeiramente, como o Cordeiro de Deus, uma expressão carregada de lembranças bíblicas e lendárias: podemos pensar aqui no cordeiro pascal que redime o povo eleito da escravidão do Egito. Também, nas lendas judaicas, o Moisés que o Faraó, horrorizado, viu em sonho, como um cordeiro sobre o prato de uma balança, é aqui, Jesus, o novo Moisés, aplastando com seu peso as forças do mal. Na Bíblia, encontramos também o cordeiro que Deus reservou, desde a criação, para ser sacrificado no lugar de Isaac (Gn 22,13). Finalmente, em aramaico, a palavra talya significa, ao mesmo tempo, servo, como na primeira leitura de hoje (Is 49,3.5-6), e cordeiro levado ao matadouro, segundo o quarto Cântico do Servo (Is 53,7). É evidente que João Batista não pôde designar Jesus como Cordeiro de Deus; é o evangelista João que o faz dizer isso.

3. Além disso, o próprio Batista confessa sua fé cristã: como homem, Jesus veio atrás de João Batista, isto é, como seu discípulo: “Este é daquele de quem eu falei: ‘Depois de mim vem um homem...’” (Jo 1,30a). Mas na realidade, ele estava na sua frente: “‘(Este homem) que passou na minha frente, porque existia antes de mim’” (Jo 1,30b). Para compreender corretamente este existia, devemos reler o prólogo de São João: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1), e a afirmação de Jesus: “Antes que Abraão existisse, eu sou” (Jo 8,58). O Eu Sou é o nome que Deus se dá a si mesmo, para Moisés, na revelação do Sinai (Ex 3,14-16).

Mais uma vez, é o evangelista João que coloca na boca do Batista esta confissão de fé cristã; de sorte que o evangelista precisará, por duas vezes, que o Batista não conheceu Jesus: “Eu também não o conhecia. Mas vim batizar com água, a fim de que ele se manifeste a Israel” (Jo 1,31) (é o batismo da água e da conversão); “Eu também não o conhecia. Aquele que me enviou para batizar com água, foi ele quem me disse: ‘Aquele sobre quem você vir o Espírito descer e pousar, esse é quem batiza com o Espírito Santo’” (Jo 1,33) (é o batismo no Espírito Santo: a Confirmação).

N.B. Alguns exegetas se perguntam como João Batista pôde dizer que não conheceu Jesus, uma vez que ele era, segundo Lucas, seu primo. A exegese nos mostra, pois, que, no evangelho de Lucas, o parentesco de Batista e de Jesus é teológico, assim como o desconhecimento de um e de outro é também teológico, no Evangelho de João.

4. João Batista torna-se, portanto, a testemunha do Cristo ressuscitado: “E João testemunhou: ‘Eu vi o Espírito descer do céu, como uma pomba, e pousar sobre ele” (Jo 1,32). Para o evangelista João, o verbo pousar expressa a presença de Deus, permanente e inalienável. Por esta manifestação do Espírito, trata-se do Messias anunciado pelos profetas, como o homem dotado da plenitude do Espírito (Is 11,2; 61,1). Se o evangelista João faz do Batista a testemunha do Ressuscitado, é para dizer aos batistas da sua época, que também eles deveriam reconhecer o Cristo como Filho de Deus e que também eles devem receber o batismo do Espírito. Para isso, eles têm o testemunho de João Batista e devem encontrar pessoalmente o Cristo através da Igreja, ou seja, através dos seus discípulos que vivem por ele e para ele.

Isso é muito exigente para os cristãos; eles têm a responsabilidade de manifestar o Cristo aos outros, e a única maneira de fazê-lo é saber-se transformados e santificados pelo Cristo: “Vocês que foram santificados em Jesus Cristo e chamados a ser santos, juntamente com todos os que invocam em todo lugar o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” (1 Cor 1,2). Esse vocês de São Paulo não é reservado aos ministros ordenados da Igreja; designa todas e todos aqueles que pertencem a Jesus Cristo pelo Batismo e pela Confirmação. É através delas e deles que os outros podem encontrar pessoalmente Jesus Cristo ressuscitado, aquele que veio de Deus e que voltou para ele, entranhando-nos numa comunhão íntima com o Pai. O batismo cristão não é, portanto, somente um batismo de conversão: um batismo de água, mas também um batismo de compromisso: um batismo no Espírito Santo.

A Palavra de Deus, hoje, convida-nos a lançar um olhar sobre Deus, sobre Jesus Cristo e sobre nós mesmos, a fim de testemunhar a nossa fé, a nossa esperança e o amor que nos habita e que nos faz viver. O nosso olhar sobre Deus e sobre o Cristo ressuscitado deve refletir em nós mesmos a luz do amor e da fé que vê lá onde os outros não veem nada: isso se traduz pela esperança: “Sim, serei glorificado aos olhos do Senhor; Deus é a minha força” (Is 49,5).

Segue uma bela história contada por um missionário leigo, Raoul Follereau, que ilustra bem o poder de um olhar de amor: “Num leprosário do fim do mundo, um único doente havia mantido seus olhos claros e a força de sorrir diante da vida. Como explicar esse fenômeno? A religiosa que cuidava dos leprosos, percebeu que um olhar sorridente de uma mulher aparecia todos os dias na janela desse leproso doente. Era sua esposa que vinha todos os dias expressar-lhe sua ternura e seu amor. O leproso disse à religiosa: Quando eu a vejo, eu sei que estou vivo”. Maravilha de olhar que faz viver, luz do Amor e da fé que vê lá onde outros não veem nada. Assim como para o profeta Isaías, esse doente era glorificado aos olhos de sua mulher; ela era sua força e sua razão de viver.

Concluindo, diante da leitura desse relato de São João, devemos reconhecer que a presença de Jesus Cristo hoje, não pode ser estática e congelada numa hóstia exposta para adoração; sua presença é bem ativa e atuante através dos cristãos que o encontraram e que se tornam sacramento, isto é, sinais da sua presença no mundo.
Fonte: http://www.domtotal.com/noticias/711119
Réflexions de Raymond Gravel
*Raymond Gravel é padre da Diocese de Joliette, Canadá. O texto é baseado nas leituras do 2º Domingo do Tempo Comum – Ciclo A do Ano Litúrgico (19 de janeiro de 2014).

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