27 de fev de 2012

Mudanças climáticas podem levar 600 espécies de aves tropicais à extinção

Pode haver menos aves para os ornitólogos verem no mundo à medida que o planeta aquece. As mudanças climáticas, em combinação com o desmatamento, podem levar entre 100 e 2.500 espécies de aves tropicais à extinção antes do final do século, de acordo com nova investigação publicada no Biological Conservation. Por Jeremy Hance
O quetzal resplandecente, que era venerado por Maias e Astecas como o “deus do ar”, é uma das espécies em perigo - Foto de toryporter / Flickr
O quetzal resplandecente, que era venerado por Maias e Astecas como o “deus do ar”, é uma das espécies em perigo - Foto de toryporter / Flickr
 
A ampla gama de espécies depende da extensão do clima e de quanto habitat será perdido, mas os investigadores dizem que a gama mais provável de extinção é entre 600 e 900 espécies, o que significa 10 a14% das aves tropicais, excluindo as espécies migratórias.
“As aves são um sinal perfeito para mostrar os efeitos das mudanças globais nos ecossistemas mundiais e nas pessoas que dependem desses ecossistemas”, disse o principal autor e ornitólogo Çağan Şekercioğlu, da Universidade de Utah.
“Comparadas às espécies de clima temperado, que frequentemente experimentam uma ampla faixa de temperatura numa base anual, as espécies tropicais, especialmente aquelas limitadas a florestas tropicais com climas estáveis, são menos propensas a acompanhar as mudanças climáticas rápidas.”
Şekercioğlu e os seus colegas investigaram 200 estudos científicos relacionados com aves tropicais e mudanças climáticas para desenvolver a sua estimativa, que acompanha estimativas anteriores do declínio de aves ligado ao aquecimento do planeta.
As aves mais suscetíveis aos impactos das mudanças climáticas incluem espécies de altitudes elevadas, que podem literalmente ficar sem habitat, e as já restritas a faixas pequenas. Um aumento nos eventos climáticos extremos, como secas e tempestades, pode também colocar em perigo algumas espécies.
A intensidade crescente de furacões, mesmo se a frequência diminuir, pode ameaçar aves costeiras, enquanto longas secas podem prejudicar a capacidade das aves de encontrar alimento durante a estação de reprodução. A Amazónia, por exemplo, sofreu duas secas recordes nos últimos sete anos, levando muitos cientistas a temer pela flexibilidade ecossistémica frente às mudanças climáticas.
As doenças podem também representar um problema. A malária deve espalhar-se para altitudes e latitudes mais altas, possivelmente, colocando em risco algumas espécies de aves tropicais. O aumento do nível do mar pode também representar um problema para aves costeiras e insulares.
“Nem todos os efeitos das mudanças climáticas são negativos, e mudanças nos regimes de temperaturas e de precipitação beneficiarão algumas espécies”, afirmou Şekercioğlu. Por exemplo, o tucano de peito amarelo (Ramphastos sulfuratus) viu a sua faixa aumentar para altitudes mais altas como resultado das mudanças climáticas.
No entanto, o seu ganho foi a perda de outra espécie: o quetzal resplandecente (Pharomachrus mocinno), uma ave de altitudes mais altas, tem agora que competir com o tucano por ninhos e enfrentar a ameaça de tucanos predando os ovos e filhotes de quetzal. A competição súbita entre o tucano de peito amarelo e o quetzal resplandecente mostra como as mudanças climáticas podem afetar as espécies de formas inesperadas.
Mesmo que um mundo mais quente possa beneficiar algumas poucas espécies, Şekercioğlu acrescentou que “as mudanças climáticas não beneficiarão muito” e o resultado final será uma perda significativa na biodiversidade das aves.
Atualmente, o clima global aqueceu cerca de 0,8 graus Celsius desde a Revolução Industrial. Enquanto os governos globais se comprometeram a manter o aquecimento abaixo dos dois graus Celsius, as promessas atuais de cortes de emissões passam longe dessa meta. Porém, alertam os cientistas, um único grau adicionado no aquecimento poderia levar à extinção de 100 a 500 espécies de aves tropicais a mais.
Os cientistas recomendam mais investigações e uma melhor monitorização das aves tropicais. Além disso, as áreas protegidas devem ser criadas ou expandidas para preencher as lacunas para espécies de aves e terras degradadas restauradas. A transferência de algumas espécies também pode tornar-se necessária.
“No entanto, tais esforços serão correções temporárias se não conseguirmos atingir uma mudança social importante na redução do consumo, no controle das emissões de gases do efeito de estufa e na interrupção das mudanças climáticas”, escreveram os autores.
“Caso contrário, enfrentamos a perspetiva de um clima fora de controle que não levará apenas a um enorme sofrimento humano, mas provocará a extinção de milhares de organismos, entre os quais as aves tropicais serão apenas uma fração do total.”
 fonte: esquerda net
Artigo de Jeremy Hance, publicado em Mongabay, traduzido por Jéssica Lipinskipara Instituto Carbono Brasil

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