A crise alimentar, agravada pelo uso do milho e de
outros grãos na produção de etanol, foi um dos assuntos centrais
abordados nos passados dias 17 e 18, na capital mexicana, pelos
vice-ministros de Agricultura do Grupo dos 20 países industriais e
emergentes.
Por Emilio Godoy/IPSNews. Fonte Esquerda net
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Segundo o
Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, no ano passado foram
consumidos nesse país 53,302 bilhões de litros de etanol feito do milho,
para cuja produção foi destinada 40% da colheita do grão.
Este bloco reúne os países industrializados do Grupo dos Oito
(Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Japão, Itália e
Rússia), a União Europeia e economias emergentes como Brasil, Arábia
Saudita, Argentina, Austrália, China, Coreia do Sul, Índia, Indonésia,
México, África do Sul e Turquia.
O impacto desta questão na humanidade é analisado pela pesquisa
“Agrocombustíveis: alimentadores da fome” e reflete como as políticas
dos Estados Unidos para o etanol de milho aumentam o preço dos alimentos
no México. A pesquisa foi apresentada no dia 16, patrocinada pelo
escritório norte-americano da organização não governamental ActionAid
International.
"Vemos altas de preços muito fortes nos alimentos desde o final de
2000, depois se repetiram em 2007 e voltaram em 2010 e 2011", disse à
IPS o norte-americano Timothy Wise, diretor do Programa de Pesquisa e
Política do Instituto de Desenvolvimento Global e Meio Ambiente da
Universidade de Tufts. "Isto coincide com a expansão do etanol nos
Estados Unidos", indicou o diretor, coautor do informe. "O que se vê no
México é o aumento do preço da tortilha de milho", o alimento
tradicional deste país e cujo preço aumentou 60% desde 2005, afirmou.
Wise e a também coautora do estudo Marie Brill, diretora de
políticas da Actionaid, asseguraram que o México perdeu, desde 2005,
entre 250 milhões e 500 milhões de dólares por ano, por precisar
importar o grão, devido às altas cotações internacionais. "A expansão
dos agrocombustíveis contribui para a insegurança alimentar no México.
As altas de preços associadas ao etanol afetam negativamente os
consumidores, especialmente os que carecem de segurança alimentar e não
são produtores", afirma o estudo de 24 páginas.
Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, no ano
passado foram consumidos nesse país 53,302 bilhões de litros de etanol
feito do milho, para cuja produção foi destinada 40% da colheita do
grão. Nesse país, maior produtor e exportador de milho do mundo,
aplica-se uma política de proteção alfandegária a favor do
biocombustível local, pagamento de subsídios aos produtores e um mandato
de mescla de gasolina com até 10% de etanol.
"O G-20 tem de resolver a crise alimentar. A cúpula de 2011 abordou a
situação, mas é preciso assegurar os motores primários. O México é um
exemplo do que ocorre em outros países", observou Brill. Os mandatários
do G-20, cuja presidência temporária está com o México, se reunirão nos
dias 18 e 19 de junho na cidade de Los Cabos, para tratar de políticas
contra a crise económico-financeira que afeta o Norte, a segurança
alimentar, o crescimento verde e o combate à mudança climática, entre
outros assuntos.
"O governo mexicano tem que determinar que está ao lado do produtor e
não em benefício das empresas. Temos que trabalhar por uma reserva de
alimentos, para não depender do estrangeiro", afirmou à IPS a ativista
Olga Alcaraz, dirigente da Rede de Empresas Comerciantes Camponesas do
Estado de Michoacán. As plantações destinadas aos agrocombustíveis
começaram na região na metade do século passado e atingiram seu auge na
década de 70, quando os países latino-americanos despontaram como
provedores de matérias-primas para os mercados das nações
industrializadas e diante da primeira grande crise do petróleo.
Nos últimos anos, o desenvolvimento de algumas monoculturas mudaram
para o fornecimento de matéria-prima para a elaboração de combustíveis,
como o etanol procedente da cana-de-açúcar e o biodiesel obtido a partir
do óleo de palma africana. A expansão de produtos agrícolas para
fabricar combustível também se deve ao esgotamento do petróleo como
fonte de energia e ao fato de a produção e uso de hidrocarbonos
representar a emissão de gases contaminantes, como o dióxido de carbono,
responsável pela elevação da temperatura do planeta.
O milho carrega uma força simbólica do México até a Nicarágua. "O
aumento da destinação desse grão para etanol é fortíssimo, empurrado
pelos altos preços do petróleo", destacou Wise. "Esta situação cria
problemas para países importadores como o México", explicou este
especialista que estudou os efeitos do aumento dos preços dos alimentos
em nações em desenvolvimento.
No México, são produzidos 22 milhões de toneladas de milho por ano
em uma área de 7,5 milhões de hectares, dos quais vivem cerca de 2,5
milhões de produtores de pequena e média escalas, e são importados dez
milhões de toneladas. O deficit da balança comercial agrícola mexicana
ficou no ano passado em 2,5 mil milhões de dólares, enquanto as compras
agrícolas dos Estados Unidos subiram até 18,4 mil milhões de dólares.
A Lei de Promoção e Desenvolvimento dos Bioenergéticos de 2008
proíbe que terras aptas para cultivos de alimentos sejam usadas para
plantar vegetais destinados a produzir agrocombustível. As organizações
da sociedade civil recomendam ao G-20 anular subsídios e mandatos para
consumo de agrocombustíveis, a regulamentação e transparência dos
mercados, e o financiamento da agricultura familiar.
Os autores do estudo estimam que o custo financeiro anual das
importações mexicanas dariam para produzir 70 mil toneladas de milho. "É
necessário investir em programas de produtores que não receberam apoio
em 30 anos. Este é o setor que pode ser beneficiado com um investimento
moderado. Ficou demonstrada a viabilidade dessa expansão", apontou Wise.
O assunto também constará dos debates da Conferência das Nações
Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que acontecerá de 20 a
22 de junho no Brasil. "Esperamos ver um enfoque que integre energia,
sustentabilidade e segurança alimentar", ressaltou Brill. Por sua vez,
Alcaraz enfatizou que é preciso "inovação tecnológica para economizar na
produção, e termos nossa própria semente, porque dependemos das
multinacionais".
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