4 de jul de 2012

A maravilhosa sinfonia da quietude

Uma escritora deixa o agito da grande cidade para abraçar seu grande amor: o silêncio.
Por Marília de Camargo César*
Sara Maitland deixou tudo para unir-se a seu grande amor - o silêncio -, mudando-se de Londres para uma cabana numa planície remota da Escócia e com quilômetros de vistas para o nada. A autora inglesa, que vive em Galloway, passou antes por longos períodos de introspecção e solitude a fim de pesquisar e escrever "The Book of Silence" (Granta Books), isolando-se em diferentes regiões do mundo, dos vales verdes no interior da Inglaterra às tempestuosas colinas escocesas ou o deserto do Sinai.
A jornada culminou num profundo relato sobre a história cultural do silêncio, no qual trata, com delicadeza e paixão, das dimensões religiosa, mística, artística e psicanalítica do assunto. É um livro delicioso para quem deseja conhecer o que a literatura, a poesia e a ciência registram sobre o poder da quietude.

Casada por 20 anos com um pastor anglicano, de quem se divorciou nos anos 1990, a católica praticante, socialista e feminista Sara faz no livro relato autobiográfico para explicar como surgiu o fascínio pelo silêncio. Criada numa ruidosa família de seis irmãos, na qual todos falavam alto e ao mesmo tempo e o recolhimento individual simplesmente não era permitido, ela conta como se tornou escritora e foi atraída pela alegria da liberdade e da solidão quando seu casamento já estava desmoronando, no fim dos anos 80.


"Em nossa cultura obcecada pelo barulho é muito fácil esquecer quantas das maiores forças das quais dependemos são silenciosas - gravidade, eletricidade, luz, marés, o não visto e não ouvido girar do cosmos. A terra gira, e gira rapidamente. Gira ao redor de seu eixo a cerca de 1.700 quilômetros por hora (no Equador); ela orbita ao redor do Sol a 107.218 quilômetros por hora. E todo o sistema solar gira através da galáxia a velocidades que eu mal ouso pensar. A atmosfera da terra também gira com eles, e é por isso que não sentimos o girar. Tudo acontece silenciosamente", escreve Sara.


Ela não respondeu aos pedidos de entrevista do Valor. Seu assessor na Granta gentilmente disse que tentaria outra vez contatar a escritora, mas possivelmente não haveria resposta, já que ela permanecia "desconectada, em seu lugar de isolamento". Mas em seu site (www.saramaitland.com), o leitor é informado de que no lugar onde mora com seu border terrier Zoe, tendo por vizinho só um bando de corujas, ela "escreve, ora e é feliz". Um conflito grave, contudo, tem tirado a sua paz: a notícia de que uma usina de energia eólica deve ser instalada nas proximidades, para tirar proveito da força dos ventos uivantes, uma das poucas sinfonias que fazem parte da intimidade de Sara.
 *A reortagem de Marília de Camargo César foi publicada pelo jornal Valor.
fonte: revista eletronica dom total

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