Sempre de novo estamos refletindo sobre a vida no Espírito. Centralidade da experiência da fé, sequela de Cristo e dinâmica da conversão fazem parte do que chamamos de vida espiritual. Ressoam sempre aos nossos ouvidos os últimos capítulos da Regra Não Bulada de Francisco. Sempre o Senhor no centro, esse Senhor qualificado de forma superlativa, sempre o Tudo, o Absoluto, o Belíssimo. Até que ponto, pessoal e comunitariamente, envidamos todos os esforços para que o Senhor ocupe o espaço todo?
11. Os discípulos seguem o Mestre. Felizes aqueles
que são chamados a acompanhar bem de perto esse que é caminho, verdade e
vida. A vida espiritual é dinamismo. Tem seus modestos começos e pode
fazer com que nela se embrenham cheguem à mais alta contemplação e
conformação com Cristo. Comporta esse locomover-se. Não se trata
apenas de um deslocamento físico. Há, sobretudo, o movimento
interior. Somos peregrinos e forasteiros em quaisquer circunstâncias. O
discípulo não está tão preocupado em entender intelectualmente
discursos e ditos do Mestre, mas antes de tudo desejam acolhê-los com
disponibilidade, como boa terra e se põem a caminho. Ubaldo Terrinoni (Projeto de pedagogia evangélica, p 59):
“O discípulo deve aprender a entregar-se, lentamente à ação discreta e
implacavelmente penetrante da palavra, a fim de deixar-se permear em
todas as fibras do próprio ser; deve aprender a estabelecer um contato
contínuo com a palavra, uma assimilação lenta e progressiva, para
deixar-se transformar em criatura nova”. Essa tarefa dura toda a vida.
Nunca estamos quites.

13. Francisco de Assis fala do seguimento das
pegadas de Cristo: “Atendamos, irmãos todos, ao que diz o Senhor: Amai
os vossos inimigos e fazei o bem àqueles que vos odeiam (cf. Mt 5,44) porque nosso Senhor Jesus Cristo cujas pegadas devemos (cf. 1Pd 2,21),
chamou amigo a seu traidor e ofereceu-se espontaneamente aos que o
crucificavam. Amigos nossos, portanto, são todos aqueles que
injustamente nos causam tribulações e angústias, vergonha e injúrias,
dores e tormentos, tribulações e angústias, vergonha e injúrias, dores e
tormentos, martírio e morte, a estes devemos amar muito, porque, a
partir disto que nos causam, temos a vida eterna” (Regra Não Bulada, 22). O tema da sequela Christi
é caro a Francisco. Diz-se mesmo que ele caracteriza a
espiritualidade franciscana. Será verdade se colocarmos nesta expressão
um conteúdo justo. O tema tomado de 1Pd 2,21 não alude aos
fatos e gestos da vida pública de Jesus que deveriam ser reproduzidos
pelo discípulo. Trata-se, antes de tudo, de um convite a que ele entre,
com serenidade e paciência, no mistério da bem-aventurada paixão do
Senhor e desta forma poder participar de seu destino doloroso e
glorioso. Mais do que uma mística da pobreza, entendida do ponto de
visto sociológico, a “sequela” é mística da Paixão, desembocando, na
esteira do Senhor, na glória. Caminhar nas pegadas do Senhor, é viver
conforme todas as exigências do Evangelho, incluindo sofrimento e morte e
abrir-se às promessas proclamadas pelo Evangelho.
14. Paulo lembra que nossa vida está escondida com Cristo em Deus( Cl 3,3).
Nossa vida é a própria vida de Jesus. A vida do cristão consiste em
ter os mesmos pensamentos e sentimentos de Cristo Jesus, comportar-se
como ele se comportou, permanecer no mundo fazendo o bem aos irmãos,
viver e morrer como ele viveu e morreu. A vida espiritual consistirá em
viver a existência humana como Jesus viveu em perfeita obediência ao
Pai, em extrema fidelidade à terra, quer dizer, num amor sem limites e
sem condições. A vida espiritual não é uma outra vida, não exige o sair
do mundo, nem esquecer a carne de homem. Ela é, no entanto, viver a
vida humana como uma obra de arte.
15. “Seria necessário insistir hoje que a existência
humana de Jesus foi uma existência boa, uma existência vivida em
plenitude, em suma, uma existência feliz, na qual o amor tornou-se um
canto de comunhão, a esperança uma convicção até o fim, a fé uma adesão
dia após dia a seu próprio ser de criatura diante do Criador. O
seguimento de Jesus comporta também o olhar o céu, tentar ler os sinais,
amar as flores dos campos, sentar-se à mesa alegre dos amigos e dos que
sabem acolher, viver com outros uma aventura de amizade na busca de um
projeto comum. Não há dúvida que, no horizonte do seguimento de Jesus
está a cruz. Esta será vista a partir daquele que nela subiu. Ela não é
uma fatalidade inglória. É Jesus, que na cruz, revela a autêntica
glória: quer dizer a humildade de Deus, seu incontido amor por nós, sua
capacidade de sofrer por nõs” (Enzo Bianchi, La vie spirituelle chrétienne, in Vie Consacrée 2000/1, p.47).
16. Nunca esqueceremos que o seguimento do Senhor se
vive à luz do mistério pascal. Somente assim pode se realizar. Podemos
nos inspirar em determinadas ações que Jesus colocou em sua
existência, mas nosso ato de fé pode encontrar seu fundamento somente
na ressurreição. Uma vida espiritual deve cuidar de não ser apenas uma
imitação de situações humanas. Correríamos o risco, no dizer de Enzo
Bianchi, de procurar entre os mortos aquele que vive. Hoje temos a ver
com Cristo ressuscitado. O Espírito Santo que esteve presente ao longo
da vida de Cristo desde a sua concepção até o último suspiro na cruz é
aquele que nos acompanha no conhecimento de Cristo e no seu seguimento,
não somente recordando palavras, atos e acontecimentos de Jesus, mas
permitindo que vivamos com ele de sorte que Cristo se forme em nós e
viva em nós.
17 Francisco de Assis no seguimento de Cristo vai se
apropriar dos aspectos mais despojados e desapropriados. Ele vai ter em
seus olhos e em seus coração a atenção voltada para os traços do
Cristo pobre e despojado. Clara de Assis. por sua vez, pedirá que Inês
de Praga mire o espelho e lá veja Cristo pobre e dilacerado. E Clara
se apaixonará pelo Cristo esposo pobre. Por ai vai sua identificação com
Cristo, segui-lo “assimilando-o”.
18. Os que se preocupam em colocar seus pés nos pés
do Senhor, em seguir o Senhor, vão operando a conversão. Este é um dos
aspectos fundamentais vida espiritual: uma vida de transformação
interior que se exprime num estado de conversão. Terminamos estas
reflexões com textos de Michel Hubaut descrevendo o que seria a
conversão. Logo que começou a anunciar publicamente a Boa Nova, Jesus
se declarou o instaurador de um mundo novo e pedia que seus ouvintes
que se convertessem:
• “Converter-se é acolher na fé a iniciativa gratuita, imprevisível
de Deus que decidiu, em Jesus, nos visitar pessoalmente para nos
salvar, para nos fazer entrar numa felicidade sem fim. Converter-se é
aceitar de ser salvo gratuitamente e colocar sua vida em consonância com
este acontecimento.
• Conversão e fé participam do mesmo movimento. Converter-se é mudar a
direção de sua vida, é ter bastante fé para renunciar a se considerar
centro absoluto e autossuficiente. Ter fé para orientar nossa vida,
nosso futuro, nossa busca de felicidade em Jesus que nos chama a
segui-lo”.
• Converter-se não é em primeiro lugar passar do vício para a
virtude, mas viver a mudança radical: aceitar de nunca mais querer
construir a vida sozinho, com teimosia, mas acolher em Jesus a
iniciativa de Deus, a gratuidade de seu amor, de seu apelo e de seus
dons. No começo de tudo não há mais o eu, o homem, mas o Amor de Deus” (Chemins d’interiorité avec Sains François, p. 24-25).
fonte: http://www.franciscanos.org.br/?p=21039
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