Carregamos o tesouro da vida nova em vasos de barro (I)
Fonte:http://www.franciscanos.org.br/?p=27102
....Vamos nos deter num tema espinhoso: a ascese. Ascese vem ascender, subir. Toda subida custa, é penosa. Quem hoje fala de ascese parece falar de alguma coisa completamente fora de moda. Nossa reflexão começa neste número de novembro e será concluída na edição de dezembro. Toda a ascese tem como finalidade dilatar o amor a Deus e aos irmãos, de tal sorte que tenhamos o domínio da barca da vida na travessia do tempo, vigiando cuidadosamente o tesouro que carregamos em vasos de barro.
1. Na verdade, quando se decide abordar as fontes da
espiritualidade convém também refletir sobre os meios e modos de
alimentar a vida nova de Cristo em nós que, no dizer do Apóstolo,
“carregamos em vasos de barro”. Cada forma de vida tem sua modalidade de
treinamento, de ascese, de terapia preventiva. Vivemos fazendo esforços
para servir a pequenos deuses exigentes. Ascese e esforço para perder
peso, para ter um corpo “sarado”, esforço de economizar nosso dinheiro
para poder comprar um carro, uma casa, renúncias de lazer para ter
sucesso num concurso público, privação do chocolate para não engordar,
exercícios sem conta para vencer nos esportes. Sem esforço não se
caminha. A impressão que se tem, em muitos ambientes cristãos, é que se
duvida da necessidade e da importância da ascese. Esta soa como algo de
um passado que já deixamos há algum tempo: cilícios, disciplina, jejum e
abstinência, silêncio, regularidade na oração. “A mentalidade corrente
parece banir os valores da ascese como se eles se opusessem à alegria do
Evangelho e ao primado da Graça, portanto não condizentes com a vida
espiritual. Dá-se a entender que basta o desejo e a espontaneidade dos
indivíduos para atingir uma meta tão elevada como a de uma intensa vida
espiritual. O caminho espiritual, no entanto, precisa de cuidados, de
atenções porque é uma trilha exigente e dura. Não esqueçamos: a
finalidade é ser verdadeiro discípulo de Jesus, autêntico amigo do
Esposo. Trata-se de um caminho fascinante, mas exigente. A ascese
cristã nada tem a ver com afirmação de si, não é uma forma de
voluntarismo fechado e orgulhoso que faria depender o progresso
espiritual diretamente do esforço individual segundo uma visão
pelagiana. Também não é uma espécie de “quietismo” que considera inútil
e incoerente o esforço espiritual do discípulo” (Angelo Bagnasco, arcebispo de Gênova, Camminare nelle vie dello Spirito, Carta Pastoral de 2009-2010).

3. A vida cristã, como qualquer empreendimento
humano, necessita de método, atenção, exame, exercícios, hábitos…
Precisa de ascese. Necessário cuidar das disposições para a conversão,
para a vida espiritual, para o seguimento de Cristo ou para a entrega ao
trabalho em prol dos outros. Vemos pessoas que foram personalizando uma
forma de oração e fazendo cotidianamente esse “exercício” da oração,
preparando bem a celebração da Missa, adotando um estilo generoso de
entrega aos outros, tendo disciplina no trabalho e no estudo,
exercitando numa maneira serena de enfrentar as dificuldades. Com esses
expedientes foram se fortalecendo e fazendo viável a ação do Espírito.
4. Enzo Bianchi lembra que o cristianismo em nossos
dias tem a tendência de desconsiderar a dimensão do “combate da fé”.
Sabemos que o ensinamento dos primeiros cristãos que dava grande
importância ao conjunto dos expedientes que permitiam a fidelidade à
vocação. “Não vigiamos suficientemente costumes que adotamos e que, por
vezes, desfiguram nossa vocação humana e cristã. A luta espiritual é
elemento essencial em vista da construção de uma pessoa madura e sólida”
(In Panorama Chrétien, março de 2005, p. 44). Trata-se de
uma luta interior contra o que existe em nós e nos leva a realizar o
mal. Há ações concretas que precisam ser neutralizadas: vanglória,
inveja, cólera, tristeza, avareza, desmandos sexuais. E. Bianchi afirma,
dirigindo-se a um correspondente: “Esta luta deverá fazer de sorte que
passes do regime do consumo para o da comunhão com Deus e com os
outros”.
5. Haverá de se descobrir novas formas de ascese. Os
tempos são outros. O ser humano, no entanto, é feito de um desejo de
atingir as estrelas e, ao mesmo tempo, sente-se atraído pelo que é de
baixo. O tempo da vida é longo e o esposo custa a voltar. Pode ser que o
Senhor, em seu retorno, surpreenda alguns sem óleo nas lâmpadas! Não
existe, no entanto, uma ascese totalmente nova. Karl Rahner escrevia:
“Há que se evitar de considerar o novo e o antigo como compartimentos
estanques dentro da espiritualidade cristã: o novo só é autêntico quando
conserva o antigo. O antigo só tem viço quando vivido de forma nova”.
6. Há que se cuidar de não se repetir os exageros e
erros do passado. As práticas ascéticas do passado eram marcadas pelo
dualismo entre corpo e espírito. O corpo era sempre visto como inimigo
do espírito. Conhecida a expressão “salva a tua alma”, como se a
espiritualidade não tivesse que levar em conta o fato de que Deus
assumiu um corpo. A cultura dominante era que o corpo se constituía como
inimigo da alma, sede das faculdades inferiores que deveriam ser
submetidas ao espírito. No fim de sua vida, Francisco de Assis pediu
desculpas ao “irmão corpo” por tê-lo tantas vezes maltrado… Havia a
convicção de que a salvação se faria sempre pela fuga do mundo.
Assim, os religiosos eram os fadados à santidade. Vivemos um tempo de
graça quando, depois do Concílio do Vaticano II, compreendemos essa
visão unificada da vida, da humanidade, do caminho espiritual. Hoje,
compreendemos melhor a bondade do mundo criado. No passado se exaltou
uma certa espiritualidade ‘dolorista’, exaltando o sacrifício e a
mortificação. Esta é uma página definitivamente virada.
7. De outro lado vemos a perspectiva da
espontaneidade que caracteriza a cultura difusa na atual sociedade. Hoje
é sempre mais difundida a ideia de que tudo é válido. “O elogio da
‘espontaneidade’ e da ‘naturalidade’ numa cultura em que a
espontaneidade está colonizada e a naturalidade segue padrões de
comportamento socialmente induzidos, é ingênuo. Aquilo com o que se
pretende nos fazer livres e nos abrir à graça, ao contrário, nos fecha
em nós mesmos e ficamos à mercê dos ventos que sopram. O fruto da falta
de ascese, do imediatismo, da indefinição e da anemia de uma vida cristã
sem estrutura, continuidade, nem esqueleto também inunda as clínicas
psicológicas e favorece os negócios da indústria farmacêutica” (Juan
Antonio Guerrero Alves, SJ, Desintoxicarse, situarse en la paz y
caminar en el bien, in Sal Terrae 93, p. 790).
8. A ascese faz parte da vida humana. Algumas
modalidades de ascese são encontradas nas sabedorias do mundo pagão,
nas filosofias antigas e nas religiões. Vejamos algumas expressões que
descrevem ou apontam para a ascese: abnegação, humildade, renúncia,
pureza de coração, despojamento, mortificação, sacrifício, privação,
continência, domínio de si, combate espiritual, retidão de intenção,
luta contra os instintos. Muitas destas formas de ascese podem parecer
absurdas quando desconectadas de seu sentido. Quando bem situadas, todas
elas e muitas outras podem facilitar o relacionamento do homem com
Deus e com os outros. Somente a partir desta dupla relação é que as
práticas ascéticas ganham sentido. Os exercícios ascéticos constituem um
meio para o fim. Os Padres do deserto afirmavam que uma ascese privada
de amor não aproxima de Deus. A ascese é treinamento para o amor. Não é
fim, mas meio.
9. Praticam a ascese aqueles que experimentaram
alguma coisa acima das coisas do presente mundo. O empenho ascético
brota de alguém ter atingido uma vida nova em Cristo, ter pregustado o
sabor do Reino! Viver em união com Cristo supõe encontro com a cruz. A
ascese cristã não perde a referência ao Reino, nem à cruz. Os escritores
espirituais e os místicos nunca dão a entender que a ascese quer como
que arrancar a graça de Deus. Não fazem uma aritmética entre o esforço
pessoal e a graça. “Podemos distinguir os movimentos internos na
ascese cristã: o primeiro nos ensina que é necessário experimentar a
libertação, a saída da escravidão do Egito. Esta libertação nos
predispõe para o relacionamento com Deus e acolhida de seus dons. É o
tempo da conversão. A travessia do deserto pode ser vista como o tempo
das dificuldades e do estresse, ou também o tempo em que Deus fala ao
coração e educa seu povo. Talvez esta seja a essência da ascese:
dispor-se em estar diante de Deus em adoração e pura disponibilidade,
para serem levados e guiados por ele. Permanece ainda um segundo
movimento não menos delicado: tomar posse da terra prometida, sempre a
partir da fé, da esperança e do amor porque continuamos vivendo nesta
história. Nesse momento procuramos tornar “real” o dom recebido nesta
história. Por isso, Jesus Cristo não é só modelo, como também seu
Espírito guia esse processo, nos ensina a experimentar, educa a
sensibilidade e nos leva à sintonia com a encarnação” (Juan Antonio Guerrero Alves,SJ p. 792-793).
10. Em seus Escritos de Teologia, VII, ed. de Madri 1967, p. 30-31, no seu famoso artigo Espiritualidade antiga e atual falava
de uma nova espiritualidade emergente e assinalava algumas de suas
notas: mais mística, com mais experiência pessoal de Deus, mais
presente no mundo, de maior compromisso com as realidades temporais.
Para essa espiritualidade via surgir uma nova ascética que prescinde do
heroico, do espetacular que não terá o caráter do adicional e do
extraordinário mas da liberdade responsável perante o dever e dos
limites que cada um precisa impor a si mesmo. Paul Evdokimov escreveu
na mesma linha dizendo que em nossos dias as práticas espetaculares de
antigamente são interiorizadas. O heroico se oculta sob o manto do
cotidiano. Afirma ainda: “A ascese cristã outra coisa não é de um
método a serviço da vida e procurará estar em sintonia com as novas
necessidades. A ascese consistiria mais num descanso que se impõe, a
disciplina do sossego e do silêncio, períodos em que o homem se organiza
para fazer uma pausa para a oração e contemplação, mesmo no âmago dos
ruídos do mundo e, sobretudo, de ouvir a presença dos outros. O jejum,
em vez da maceração que alguém com ele se inflige, seria a renúncia do
supérfluo, o partilhar o bem com os pobres, busca de um equilíbrio
saudável” (Citado por Juan Antonio Guerrero Alves, p. 793).
11. Ascese significa exercitar, praticar e apontar
para uma aplicação disciplinada, exercício repetido, esforço para
adquirir uma habilidade e uma capacidade. Os exercícios ascéticos
existem para que o projeto de vida cristão não venha a fracassar por
culpa de nossa inércia. Se alguém dissesse que em nossos dias não se faz
necessária a ascese significa o mesmo que dizer que não há mais lugar
para a educação. Ascese e educação consistem num trabalho que alguém faz
sobre si mesmo ao longo da vida. Nos primeiros anos até o começo da
juventude se faz com o auxílio de adultos e na maturidade depende de
uma opção pessoal, sob a orientação da própria consciência, da coerência
com o próprio projeto de vida, muitas vezes sob a orientação de um
diretor espiritual.
12. Terminamos as reflexões desta primeira parte do
tema com palavras do Cardeal Angelo Bagnasco, arcebispo de Gênova, em
sua Carta Pastoral sobre a vida espiritual: “O asceta cristão não é
aquele que desafia a si mesmo para afirmar-se aos próprios olhos e aos
olhos dos outros. Está em busca de um progresso espiritual, de sua
unificação interior em Cristo. Tem confiança, sem ser ingênuo: sabe que
em seu coração há o desejo do bem e as inclinações desordenadas. Tem
consciência de seus instintos e da fragilidade de sua vontade. Faz a
experiência do pecado. Está em busca da liberdade porque sabe que, em
certo sentido, não nascemos livres, mas livres nos tornamos. Por este
motivo se faz necessário um longo e penoso exercício”.
Carregamos o tesouro da vida nova em vasos de barro…
Duas grandes referências:
● Paola Bignardi, Per una grammatica dell’ascesi, in La Rivista del Clero Italiano 4/2012, p. 269-283
● Juan Antonio Guerrero Alves, SJ, Desintoxicar-se, situar-se
en la paz y caminar en el bien. Notas para una nueva ascética, in Sal
Terrae 93 (2005), p. 789-803
Obs.: Resta-nos ainda a delicada tarefa de
examinar formas concretas de ascese para nossos tempos. Fá-lo-emos em
nosso próximo número.
Questões:
● Por que nossos contemporâneos são avessos ao tema da ascese?
● De maneira muito simples e clara tentar definir o que seria uma vida cristã vigilante?
● O que mais chamou sua atenção neste texto de reflexão?
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