6 de fev de 2013

Grandes projetos e grandes impactos

Inchaço das cidades, desmatamento, reordenação do território, incremento da violência, alcoolismo e uso de drogas, bem como da prostituição, especulação imobiliária, aumento de empresas prestadoras de serviço são alguns dos elementos que configuram a aquarela das cidades da Amazônia que abrigam alguma experiência de grande projeto. Uma visita do jornalista Rogério Almeida aos territórios de Carajás.
Juruti, pequena cidade do Baixo Amazonas, no estado do Pará passa por tal experiência por conta do extrativismo mineral da bauxita, sob a tutela da empresa estadunidense Alcoa.
O minério é matéria prima para a produção da alumina, que é transformada em alumínio. A mesma Alcoa mantém uma planta industrial na capital do Maranhão, São Luís. A energia elétrica é o principal insumo da empresa eletrointensiva.   
Na mesma cadeia produtiva a norueguesa Norsk Hidro mantém duas plantas industriais no município de Barcarena, no norte do Pará. Até pouco tempo a Vale foi a principal acionária da cadeia que aglutina minas, mineroduto e indústrias.  
Nas terras do Carajás, a sudeste do estado, ocorre uma abissal reestruturação do território por conta do incremento da cadeia de mineração da Vale. Uma passagem na cidade do minério, Parauapebas, que abriga a principal mina de ferro da Vale, prestes a cessar a exploração, impressiona a reconfiguração que experimentou a cidade nos derradeiros anos.
Não adentrava a cidade havia um tempo. Apenas passava pela principal via de acesso. Nesta semana tive a oportunidade de percorrer novas periferias, como o bairro Altamira. Pelo que me consta, não existia na década de 1990, quando conheci a região. Uma avenida principal cercada de ipês constituía a principal via.  Os hotéis eram modestos e as churrascarias a oportunidade de refeição e lazer.   
A periferia da cidade parece ter sofrido um aumento. Tal fenômeno sempre ocorre quando se anuncia um novo projeto de exploração mineral, construção de obras de infraestrutura, como o que ocorre na cidade vizinha, Canaã dos Carajás. E a duplicação da Ferrovia de Carajás, que desloca milhões de dólares em minério de Parauapebas até São Luís.
Os barracos de madeira proliferam entre ruas esburacadas, desprovidas de saneamento básico sob uma rede de energia marcada pela gambiara. A lógica do extrativismo dos recursos da Amazônia tende a gerar riqueza em outros rincões, interpretam os tradados da academia.
Nas terras dos Carajás é a Vale que estrutura, reestrutura, organiza e desorganiza os territórios em suas áreas de interesse. Como a abertura de novos frentes ela tem implantado rodovias, melhorado alguns acessos no interior dos locais de extração, subjugando territórios já estabelecidos. Isso tem ocorrido com nos projetos de assentamentos rurais, no sentido de possibilitar a implantação de ramais ferroviários e torres para a instalação de energia.
O tempo de capital urge, e não se coaduna com o tempo das lógicas camponesas do vasto leque da Amazônia: indígena, quilombola, assentado da reforma agrária. O capital a tudo devora, até mesmo da lentidão dos processos burocráticos, e exige a flexibilização dos marcos legais.  
A tecnologia de ponta da mega corporação não dialoga com práticas milenares de sobrevivência do homem do campo. É desigual a força dos entes envolvidos, dos projetos de desenvolvimento em jogo.
Em sua base a população é desprovida de informação suficiente que a qualifique para uma discussão mais profunda sobre o complexo xadrez da economia mundial, que linka o grotão ao resto do mundo.   
Lá no Brasil profundo, num território marcado pela anarquia fundiária disputam especuladores, fazendeiros, grileiros, camponeses e indígenas.  Na arena, existe gente de boa fé, com uma propriedade já constituída, e que lhe garante a reprodução econômica e social. Gente com quase três décadas fincadas na terra. Coisa dos tempos do Grupo Executivo das Terras do Araguaia-Tocantins (Getat), o Incra da ditadura em terras Amazônicas.
É tempo de chuva nas terras dos Carajás, tão distante de Brasília, alheia às ameaças de morte, ao dinamitamento de vidas inteiras na floresta tropical, ou no que resta dela.  É tempo de uma abissal alteração na ecologia econômica, social e política no belo Vale das terras dos Carajás.
Fonte: Rogério Almeida, Furo - rogerioalmeidafuro.blogspot.com.br - janeiro de 2013

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