Projetos de desenvolvimento,
resistências e mobilizações na Amazônia Oriental são temas do seminário
Carajás 30 anos, que acontece essa semana no Maranhão
Por Horácio Antunes de Sant'Ana Júnior*
Após 30 anos de mineração, siderurgia e
projetos de “desenvolvimento regional”, implementados a partir do
Programa Grande Carajás, faz-se necessária e urgente uma avaliação
crítica dos processos sociais, ambientais, econômicos e culturais
desencadeados por esse grande investimento.

Segundo esse decreto, os empreendimentos integrantes do Programa
compreendiam: “I – serviços de infra-estrutura, com prioridade para: a) o
projeto da Ferrovia Serra de Carajás – São Luís; b) a instalação ou
ampliação do sistema portuário e de outros investimentos necessários à
criação e utilização dos corredores de exportação de Carajás; c) as
obras e instalações para a criação e utilização de hidrovias com
capacidade para transporte de grandes massas; d) outros projetos
concernentes a infra-estrutura e equipamentos de transporte que se façam
necessários à implementação e ao desenvolvimento do Programa Grande
Carajás; e) o aproveitamento hidrelétrico das bacias hidrográficas; II –
projetos que tenham por objetivo atividades de: a) pesquisa,
prospecção, extração, beneficiamento, elaboração primária ou
industrialização de minerais; b) agricultura, pecuária, pesca e
agroindústria; c) florestamento, reflorestamento, beneficiamento e
industrialização de madeira; aproveitamento de fontes energéticas; III –
outras atividades econômicas consideradas de importância para o
desenvolvimento da região”.Área atingida pelo Programa Grande Carajás (clique na imagem para ver a área no OpenStreetMap). Como se pode perceber pelos termos do Decreto Lei de criação, o PGC
visava ser um programa de ação que ia muito além da exploração do
minério do ferro. O Programa era conduzido por um Conselho
Interministerial (também instituído no Decreto Lei) e foi pensado e
realizado como um programa centrado na mineração e siderurgia, mas que
atuasse como catalisador de “desenvolvimento regional”, cujo raio de
ação compreenderia boa parte da Amazônia oriental, envolvendo o sudeste
do Pará, o norte do Tocantins (à época, ainda, Goiás) e o sudoeste do
Maranhão. As atividades a ele relacionadas compreendiam as mais variadas
formas produtivas, a serem implantadas a partir de uma ampla rede de
infraestrutura, com destaque para a Estrada de Ferro Carajás, inaugurada
em 28 de fevereiro de 1985, e o complexo portuário de São Luís,
constituindo um sistema mina-ferrovia-porto. Além desse sistema,
compondo as condições de garantia de efetivação do Programa, foi criada,
também, uma extensa malha de rodovias, vários aeroportos, grandes
hidrelétricas, em especial, a Hidrelétrica de Tucuruí.
Apesar de ter sido oficialmente extinto em 1991, o Programa Grande
Carajás alterou profundamente a história, a geografia e o ambiente da
Amazônia oriental e suas consequências continuam presentes na vida
cotidiana das cidades, dos povoados rurais, dos povos indígenas, dos
quilombolas, dos ribeirinhos, das grupos sociais tradicionais, além de
ter provocado intensas alterações nos biomas e paisagens.
Conflitos socioambientais
A Amazônia oriental, desde a década de 1960, tem sido alvo de políticas desenvolvimentistas promovidas pelos governos federal e estaduais, contando com a participação ativa de grandes grupos econômicos privados e com o financiamento de agências multilaterais de desenvolvimento, levando à implantação de grandes projetos industriais, de extração mineral, pesqueiros, turísticos, agropecuários e à expansão do desmatamento de áreas florestais e manguezais. São múltiplas as consequências (políticas, sociais, culturais, ambientais, religiosas e étnico/raciais) destas políticas e a presença de conflitos socioambientais, associados ao domínio e uso de territórios e de seus recursos naturais apresenta-se como um processo cada vez mais recorrente, despertando a necessidade de tomá-los como objeto de estudo e de articulação de movimentos de resistência e de reação a suas mais variadas consequências.
A Amazônia oriental, desde a década de 1960, tem sido alvo de políticas desenvolvimentistas promovidas pelos governos federal e estaduais, contando com a participação ativa de grandes grupos econômicos privados e com o financiamento de agências multilaterais de desenvolvimento, levando à implantação de grandes projetos industriais, de extração mineral, pesqueiros, turísticos, agropecuários e à expansão do desmatamento de áreas florestais e manguezais. São múltiplas as consequências (políticas, sociais, culturais, ambientais, religiosas e étnico/raciais) destas políticas e a presença de conflitos socioambientais, associados ao domínio e uso de territórios e de seus recursos naturais apresenta-se como um processo cada vez mais recorrente, despertando a necessidade de tomá-los como objeto de estudo e de articulação de movimentos de resistência e de reação a suas mais variadas consequências.
Procurando dar continuidade e reavaliar os resultados obtidos no
“Seminário Consulta Carajás”, que foi realizado por movimentos sociais
na região entre 1992 e 1995, uma parceria que envolve movimentos sociais
e comunitários, sindicatos, pastorais, programas de pós-graduação e
grupos de pesquisa universitários propõe, hoje, a realização do
Seminário Internacional “Carajás 30 anos: projetos de desenvolvimento,
resistências e mobilizações na Amazônia oriental”.
O Seminário é concebido a partir da busca de oferecer um testemunho
concreto e inegável das contradições do ciclo de mineração e siderurgia
e, para tanto, contará com uma significativa participação dos atingido
por mineração em outras regiões do Brasil e do mundo. É um processo que
culminará em um evento com duração de quatro dias, a ser realizado na
Universidade Federal do Maranhão, entre 5 e 9 maio de 2014, e contará
com a participação de assessores e experts no setor, bem como o
testemunho de lideranças comunitárias e dos movimentos socioambientais.
Durante o ano de 2013 e início de 2014, será precedido de Seminários
Preparatórios Locais, que envolverão regiões e territórios e serão
realizados em Imperatriz (16 a 18 de outubro de 2013), Marabá (21 a 23
de março de 2014); Santa Inês (21 e 22 de março de 2014) e Belém (9 a 11
de março de 2014). Os Seminários Locais levantarão perguntas e temas
que deverão ser debatidos no Seminário Internacional, visando motivar a
participação dos movimentos sociais e das comunidades e viabilizar a
interação com a pesquisa acadêmica.
Seminário internacional
O Seminário internacional “Carajás 30 anos: projetos de desenvolvimento,
resistências e mobilizações na Amazônia oriental” tem como objetivo
geral avaliar criticamente os 30 anos do Programa Grande Carajás e, a
partir do tema central do ‘desenvolvimento’, discutir suas consequências
sociais, ambientais, econômicas, culturais na Amazônia oriental,
envolvendo movimentos sociais, pastorais e grupos afetados, em diálogo
permanente com grupos de estudos e pesquisadores acadêmicos. Buscará,
portanto, ser um espaço transdisciplinar e que contemple múltiplos
saberes. aminhões
gigantes trabalham sem parar na mina de Carajás. Só a roda dos veículos
fabricados para levar toneladas tem três metros de altura.
Como objetivos específicos, podem se apontar: reunir, sistematizar e
socializar estudos acadêmicos produzidos sobre a temática geral do
Seminário, em diferentes áreas de saber e práticas, e estimular a
pesquisa sobre esses assuntos; constituir em espaço de reflexão e
articulação de movimentos sociais; envolver estudantes e professores
universitários, trabalhadores de empresas, agentes estatais, sujeitos de
movimentos sindicais e populares; redefinir a noção de ‘atingidos’ pelo
desenvolvimento (ampliando-a); redefinir e fortalecer estratégias de
resistência e alternativas; evidenciar uma pauta de reivindicações que
apontem para caminhos e ações a serem assumidos pelos movimentos
sociais; avaliar possibilidades de diálogo entre agentes envolvidos
referidos ao Grande Carajás (comunidades, movimentos sociais,
acadêmicos, empresas, agentes políticos).
Pretende-se que o seminário aconteça como um processo de mobilização
de sujeitos de grupos sociais, militantes de movimentos sociais e
sindicais, pesquisadores, professores, estudantes, trabalhadores. Para
tanto, deverá ser realizado um amplo trabalho de base nas comunidades,
escolas, universidades, sindicatos, visando envolver ampla participação
na organização e realização de seminários preparatórios locais, que
estão a acontecer desde outubro de 2013, quando Imperatriz, no Maranhão,
recebeu a primeira Etapa Local. Depois vieram Marabá (PA) e Santa Inês,
em março de 2014 e, no mês seguinte, Belém (PA). Agora as atenções se
voltam para a Etapa Final, em São Luís, entre os dias 5 a 9 de maio de
2014. Nesse momento, estarão juntos os movimentos sociais e comunidades
de todas as regiões que receberam as Etapas anteriores, preparatórias.
Em toda a Amazônia e no Brasil, pesquisas estão sendo realizadas
buscando compreender melhor esta realidade e movimentos locais,
nacionais e internacionais estão relacionados com essa realidade. Desta
forma, o evento assume a responsabilidade de ampliar as possibilidades
de divulgação da pesquisa e do debate público dessas questões, de forma a
contribuir para sua discussão e para a construção de caminhos para seu
enfrentamento, bem como para tornar acessíveis aos mais variados
movimentos a produção acadêmica que lhes interessa.
O evento será composto por 1) exposição de painéis com trabalhos
resultantes de pesquisa de experiências sociais, organizações
não-governamentais, estudantes, professores, pesquisadores; 2) Grupos de
Trabalhos envolvendo participantes de movimentos sociais e ONGs,
membros de órgãos estatais estudantes, pesquisadores, professores; 3)
atividades de articulação de grupos envolvidos, incluindo fóruns de
debates e reuniões; 4) feiras e exposições de experiências com o fim de
expor e/ou comercializar produtos e experiências realizadas por grupos
sociais; 5) Sessões de vídeos com apresentação de documentários e filmes
relacionados à temática do evento; 6) exposição de fotografias e artes
plásticas relacionadas à temática do evento; 7) atividades
artístico-culturais com shows, apresentação de peças teatrais,
apresentação de grupos de cultura popular; 8) Mesas Redondas compostas
por estudiosos, lideranças de movimentos sociais, agentes empresariais e
estatais; 9) Plenárias reunindo os participantes com o fim de
sistematizar os debates realizados e apresentar documentos
representativos do evento.
Espera-se que o Seminário se constitua, assim, em um momento de
publicização dos desdobramentos decorrentes de 30 anos de grandes
projetos de desenvolvimento na Amazônia oriental, explicitando que não
há um consenso a respeito do modelo de desenvolvimento imposto. Assim,
como resultados, deverá produzir a articulação da produção acadêmica
existente e o estímulo para novas pesquisas integradas; articulação dos
movimentos e lutas setoriais, rumo a convergências; troca de experiência
entre produção acadêmica e movimentos e lutas sociais, com socialização
dos estudos realizados e oportunidade de expressão dos saberes
populares.
Fonte:http://reporterbrasil.org.br/2014/05/carajas-30-anos-projetos...
*Horácio Antunes de Sant’Ana Júnior é professor do Programa de
Pós-graduação em Ciências Sociais (PPGCSoc) e em Políticas Públicas
(PGPP) da Universidade Federal do Maranhão.Fonte:http://reporterbrasil.org.br/2014/05/carajas-30-anos-projetos...
Fotos: Ferrovia de Carajás. Fotos: Daniel Santini
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