12 de mai de 2012

EUA: pesquisa apresenta a opinião dos que abandonaram a Igreja

“A fé cristã e a Igreja tem futuro nas sociedades da Europa ocidental?”, pergunta-se Kurt Koch – presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos – num texto sobre o futuro do cristianismo no Velho Continente. Não é novidade falar de uma crise profunda, testemunhada no esvaziamento das igrejas nas celebrações dominicais – ou, pelo menos, pelo fato dos fiéis praticantes serem de idade cada vez mais avançada – na mesma trilha do desvanecimento daquelas que o cardeal suíço chama de as “grandes convicções cristãs”.
Isto não tem nenhuma diferença em relação ao que acontece na América do Norte, especialmente nos Estados Unidos, em que a mistura mortal com o escândalo da pederastia – longe de chegar a seu fim, tanto no âmbito judicial como no midiático – produziu um êxodo cujos dados, em termos de quantidade, não são sempre conhecidos. E pensar que nas dioceses estadunidenses a quantidade dos que se declaram “pertencentes à Igreja católica” é perfeitamente detectável a partir da quantidade de pessoas que pagam a quota estabelecida no momento da subscrição. Ao contrário, muito menos conhecidos são os motivos pelos quais abandonam a Igreja.
Foi por este motivo que dom David O’Connel (foto), arcebispo de Trenton (Nova Jersey), no outono passado decidiu fazer uma pesquisa, confiando a investigação a dois especialistas: o jesuíta William J. Byron, docente de negócios e finanças na Universidade St. Joseph da Filadélfia; e Charles Zech, docente de economia e direto do Centro de Estudos para o Management Eclesial da Villanova University, na Pensilvânia.
Os resultados da pesquisa estão publicados no último número da revista dos jesuítas, America, com uma ampla síntese de ambos. Foram quase 300 entrevistados - buscados por meio de anúncios em jornais, por telefonemas ou contatados diretamente por meio dos párocos -, com a idade média de 53 anos, sendo 95% brancos caucásicos e 21% hispânicos; 63% são mulheres.
Uma quantidade considerada pelos especialistas como “surpreendente”, abandonaram tanto a própria paróquia como a Igreja católica assim, sem mais. Em torno de um quarto deles se desligaram da paróquia, mas não da Igreja. Alguém explicou: “Como família tínhamos encontrado uma religião alternativa; depois compreendemos que a religião católica é a correta, mas que está manipulada por pessoas erradas”. Alguns especificaram que se distanciaram por causa da hierarquia. De qualquer forma, a grande maioria apresentou um motivo que justificou o distanciamento.
Uma jovem de 23 anos confessou: “Senti-me enganada e subestimada. Não entendi certas decisões”. Outros motivos têm a ver com a qualidade das homilias: “Tentei ir para outras paróquias da região, porque a homilia parecia estar fora da realidade”, “as homilias eram vazias e, muitas vezes, se falava de arrecadação de fundos: em especial, de dinheiro e de problemas econômicos”.
Nas respostas é recorrente o escândalo da pederastia. Um homem declarou ter abandonado a Igreja quando seu bispo se negou a publicar no sítio diocesano uma lista dos sacerdotes acusados de abusos. Na opinião dele, o bispo também não realizou adequadamente as denúncias e os relativos processos.
Diante da pergunta sobre as possíveis mudanças na Igreja, que poderiam levá-los a retornar, muitos responderam positivamente em relação à sondagem. Esta lhes proporcionou uma forma de expressarem suas ideias, com a esperança de ser escutados. Falando especificamente sobre quais as coisas novas, que os trariam de volta para o rebanho, as respostas foram bastante amplas: em primeiro lugar está a aceitação dos divorciados que estão em segunda união, seguidas pelo desejo de melhores homilias, maior transparência e, também, maior assistência às crianças, a presença de sacerdotes mais atentos e amáveis. A motivação política apareceu de forma ambivalente: há os que pedem uma orientação mais conservadora e há aqueles que já não suportam as homilias tradicionalistas, que desejam que seja falado mais sobre o trabalho, a ética e a defesa do meio ambiente.
A quantidade de respostas positivas, sobre a sensibilidade e o recebimento dos párocos, é discreta, ao contrário, quase metade demonstrou-se desestimulada pelos seus pastores. Surgiram termos como “distante”, “arrogante”, “insensível”, termos que fazem refletir sobre a acusação de clericalismo que aflora em várias partes da diocese. As respostas sobre os membros da equipe paroquial foram mais positivas.
O clima de comunidade é um dos aspectos mais destacados; alguns lamentam que a igreja fosse “somente um lugar para assistir a missa, pela falta de participação, porque eu me encontrava sozinho numa multidão desconhecida”. “As pessoas que eu conheço estão fora da comunidade paroquial. Eu não acho que alguém sinta falta porque eu abandonei”. Inclusive, teve quem declarou que jamais foi interpelado na paróquia, para nada, “apesar de que éramos regulares nas contribuições com os envelopes”.
Diante do questionamento sobre as orientações da Igreja, que poderiam ter contribuído para que eles se afastassem, muitos fizeram referência à consideração dos homossexuais e ao problema deste tipo de união civil; seguido da posição sobre o divórcio e em relação aos casais de segunda união, dos casos de pederastia e do encobrimento pelos bispos, da discriminação das mulheres (se bem que não se mencionou tanto a admissão ao sacerdócio), a obrigação do celibato, os privilégios clericais, o excessivo interesse pelo dinheiro (“é sempre uma questão de dinheiro”, “um pedido insaciável”).
O tema do aborto também é recorrente: embora para muitos seja uma escolha equivocada, não obstante, consideram que a Igreja se concentra demasiadamente nele, ignorando outros problemas, como os sociais: a pobreza, a guerra, os cuidados da saúde, etc.
Sobre a pergunta a respeito das possíveis experiências negativas, foram mencionadas aquelas dentro do confessionário, a ausência nos momentos de funerais ou a não aceitação de que se possa ser padrinho/madrinha nos batizados ou na celebração de casamentos mistos; os abusos emocionais ou físicos nas escolas católicas; ter sido vítima de abuso sexual.
O que você diria ao bispo se pudesse encontrar-se com ele? Que não condene aos homossexuais, mas que os recebam como filhos de Deus; que reconheça a paridade das mulheres; que amplie sua própria posição sobre o divórcio; que tenha maior sensibilidade diante dos problemas das famílias, em particular das mães; que aumente as confissões comunitárias; “que renove a mentalidade arcaica para tornar a religião aberta para a sociedade”, “que faça com que a missa não se torne uma fonte de humilhação para os que não podem comungar”; que organize cursos para ajudar aos sacerdotes nas homilias. Em resposta, o bispo garantiu que responderá pessoalmente as 25 pessoas que se declararam dispostas a ser contatadas por ele.
A grande maioria dos entrevistados declarou não ter passado por outras confissões religiosas; entre os que fizeram isso, vão desde os budistas aos judeus, até diferentes Igrejas protestantes.
“Temos muito que aprender”, concluem os especialistas. De fato, apesar de ter se tratado da amostra de um grupo de “descontentes”, impressiona o tom absolutamente positivo e de crítica construtiva. Em absoluto, as respostas não são uma novidade e tem a ver com temas calorosos, sobre os quais ainda existem debates entre os que continuam na Igreja. Não é muito sublinhar que nas respostas que reprovam a Igreja está o fato dela responder com normas pré-confessionais as perguntas dos fiéis: é momento de oferecer melhores argumentos e explicações eficazes da doutrina católica. Faz necessário uma maior criatividade litúrgica e pastoral, inclinação ao significado do preceito festivo, maior atenção à qualidade e à imagem do clero, além da atenção àqueles que participam da missa, mas que falam outro idioma.
A reportagem é de Maria Teresa Pontara, publicada no sítio Vatican Insider, 05-05-2012.

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