
O agricultor
Aissata Abdoul Diop, da Mauritânia, mostra os efeitos
da seca de março
de 2012 no seu milho – Foto de Pablo Tosco/Oxfam
Entidade aponta que mudanças climáticas elevarão
os preços dos alimentos, que devem pelo menos dobrar nos próximos 20
anos, fazendo com que as famílias mais pobres tenham que gastar 75% do
seu rendimento em comida. Artigo de Fabiano Ávila do Instituto
CarbonoBrasil
Segundo dados da Secretaria Nacional de Defesa Civil, 1.123 cidades
brasileiras, reunindo mais de oito milhões de pessoas, estão a enfrentar
a pior seca dos últimos 30 anos, que pode estender-se até 2013. A
Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) já teria inclusive reduzido a
estimativa para a produção de grãos deste ano, o que vai contribuir
para a alta dos preços dos alimentos não apenas no Brasil, mas em todo o
planeta.
Este tipo de cenário deve tornar-se comum, já que uma das consequências
do aquecimento global é justamente o aumento da frequência e
intensidade de fenómenos climáticos extremos. Assim, a crise alimentar,
que atualmente é um problema seriíssimo, deve transformar-se numa
tragédia de proporções incalculáveis.
Quem faz o alerta é a Oxfam no seu novo relatório “Extreme Weather,
Extreme Price” (“Clima Extremo, Preço Extremo”), divulgado nesta
quarta-feira (5). De acordo com a entidade, populações que hoje já
passam dificuldade para se alimentar encontrar-se-ão numa situação ainda
pior nas próximas décadas, comprometendo até 75% do seu rendimento na
compra de comida.
“O aumento das temperaturas e mudanças nos padrões de chuva
dificultarão a produção agrícola e causarão aumentos constantes nos
preços. O pior é que eventos extremos, como a atual seca nos Estados
Unidos, podem acabar com safras inteiras e forçar picos dramáticos nos
preços”, afirmou Tim Gore, conselheiro de mudanças climáticas da Oxfam.
“Todos sofreremos com a alta dos preços, mas serão os mais pobres que
sentirão mais fortemente os impactos. As consequências das mudanças
climáticas na alimentação mundial ainda não são discutidas o suficiente.
O mundo precisa acordar e perceber o perigo da inação.”
Segundo a Oxfam, os preços médios de alimentos devem dobrar até 2030. O
milho, por exemplo, deve subir 177%, o trigo, 120%, e o arroz, 107%.
O custo destes produtos deve ficar ainda mais alto durante eventos extremos.
Uma seca na América do Norte, similar à de 1988, pode elevar o preço
mundial do milho em mais 140% e do trigo, em 33%. Se acontecer na
América do Sul, tal seca causaria o aumento de 12% no milho. Colheitas
ruins na Índia e no Sudeste Asiático, prejudicadas, por exemplo, por
enchentes, afetarão principalmente o arroz, causando uma alta mundial de
25%.
Adaptação
Apesar do cenário desolador, o relatório salienta que ainda é possível reverter esta tendência.
Investimentos numa agricultura sustentável baseada em pequenos
produtores, principalmente nos países em desenvolvimento, podem
facilitar o acesso das populações aos alimentos, o que, com certeza,
diminuiria os preços.
Financiar medidas de adaptação e de redução de prejuízos em caso de
eventos climáticos extremos também é apontado como uma opção. Aumentar
as reservas de alimentos, o armazenamento de água e a monitorização do
clima é considerado fundamental pela Oxfam.
Para tornar isto tudo possível, a entidade defende a capitalização do
Fundo Climático Verde, que, apesar de teoricamente entrar em vigor em
2013, ainda não conseguiu reunir os recursos necessários para cumprir o
seu objetivo de aliviar os impactos do aquecimento global.
“Os governos devem agir agora cortando as emissões de gases do efeito
estufa, revertendo décadas de baixos investimentos em agricultura
familiar e providenciando os recursos necessários para ajudar os
pequenos produtores a se adaptarem às mudanças climáticas”, concluiu
Gore.
Artigo de Fabiano Ávila, publicado pelo Instituto CarbonoBrasil
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